Aqui e Agora!
Vivendo a Vida Ungida com Jesus e uns com os Outros: Onde Temos Ido e Onde Estamos Indo
Imagine que Não há Religiões
Imagine caminhar com Deus. Literalmente…
Já é noite no mundo de seu jardim. O calor da tarde se prolonga na campina à sua frente, porém às suas costas uma brisa fria e refrescante agita o bosque escuro. O sol, descendo no céu, inunda a paisagem de ouro. Logo ele pintará uma obra de arte nas colinas a oeste. Seus sentidos captam a beleza e seu coração a aprecia, embora tais maravilhas não possam explicar a expectativa feliz que surge como uma canção em sua alma. Há outra razão para isso.
Ele está vindo. Em breve!
A Pessoa que o criou prometeu que o encontraria aqui. Muitas vezes Ele vem ao entardecer, pois sabe que é seu momento favorito para caminhar. Enquanto caminham juntos, Ele mostra a você muitas coisas—desfiladeiros, montanhas, oceanos, campos e todas as criaturas que chamam essas regiões selvagens de lar. Cada momento com seu Amigo é tingido com descoberta e surpresa. Mas a maior maravilha de todas é sempre e apenas Ele. Ele é mais profundo do que qualquer desfiladeiro, maior do que qualquer montanha, mais vigoroso do que qualquer oceano, mais gentil e convidativo do que qualquer prado e também mais selvagem do que qualquer uma de Suas criaturas. Ele é sua alegria, e você é a Dele. Você chama Ele de Pai e Ele o chama de Sua criança.
Ele não é como você. E mesmo assim—surpreendentemente—você é um pouco como Ele. Ele lhe fala com freqüência sobre seu papel nesse Paraíso. Você e a pessoa que Ele colocou para o acompanhar devem nutri-lo e governá-lo como Seus representantes. É uma responsabilidade tremenda, porém você não tem medo, pois Ele sempre estará presente para ensiná-lo e orientá-lo. Você depende completamente Dele, mas está contente. Ele é tudo que você precisa.
Jamais ocorreu a você sentir medo ou culpa sobre seu encontro com Ele. Você com certeza jamais achou que Ele é tolo ou entediante! Você nunca se sentiu “religioso”. Na verdade, é de se duvidar que alguém consiga explicar realmente o conceito de religião para você, mesmo se tentar.
Você jamais “fez uma oração” e muito menos “entoou cânticos”, embora fale com Ele com freqüência.
Você nunca organizou um coral, embora muitas vezes cante para Ele—como Ele também muitas vezes canta para você.
Você jamais fez um discurso sobre Ele, apesar de muitas vezes falar com carinho Dele para o ajudante que Ele fez para você e mesmo para as bestas do campo quando você as encontra.
Ele é o fato central de sua existência. Você não poderia, muito literalmente, viver sem Ele. E tentar isso nunca nem mesmo passou pela sua mente. Sua vida já é rica de significado e repleta de aventura. Não é de admirar que você esteja tão ansioso ao esperar por Ele agora!
Essa imagem da vida lhe parece boa? Deveria.
Você foi criado para ela.
Anatomia da Queda
Todos sabemos como a tragédia aconteceu: Adão e Eva pecaram e perderam o Paraíso. Em seu lugar eles receberam—de certo modo, criaram—um mundo caído amaldiçoado com trabalho duro, parto em dor, relacionamentos difíceis e, no final, a morte. Você pode ter sido criado para o Paraíso, mas certamente não nasceu nele. A razão é o pecado.
Mas, afinal, por que Adão e Eva pecaram? Como puderam ser tão tolos? Tudo para eles era tão bom—perfeito, na verdade. Como a serpente pôde enganá-los? A resposta para essa questão se resume na triste história de nossa espécie caída.
Vamos ler a narrativa. Você já a ouviu muitas vezes, sem dúvida, mas alguma vez notou a estratégia da serpente?
Ela disse para a mulher: “Foi isto mesmo que Deus disse: ‘Não comam de nenhum fruto das árvores do jardim’?”
Respondeu a mulher à serpente: “Podemos comer do fruto das árvores do jardim, mas Deus disse: ‘Não comam do fruto da árvore que está no meio do jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão’”.
“Certamente não morrerão”, disse a serpente à mulher. “Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal.”
Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento, tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido, que comeu também. (Gênesis 3:2-6)
Qual foi, então, a isca no anzol da serpente? A perspectiva de uma existência independente sem uma necessidade constante de Deus. “Deus está privando vocês. Ele sabe que seus olhos se abrirão se vocês buscarem o conhecimento do bem e do mal. Vocês não precisarão Dele para dizer o que fazer. Serão sábios o suficiente para decidir as coisas por si mesmos. De fato, poderão ser seus próprios deuses!”
A independência foi a isca intoxicante. Infelizmente, a independência é exatamente o que a humanidade tirou do negócio. E com certeza não foi um bom negócio! Após algumas décadas sozinhos e decidindo por si mesmos o que era bom, os primeiros pais humanos haviam criado um assassino. Em alguns séculos, fome, guerra, crueldade, ódio, engano e exploração entraram em cena—tudo que a humanidade tem tentado duramente e sem sucesso eliminar de suas civilizações à medida que os milênios passam.
A independência não devia ter se mostrado desse jeito, pelo menos de acordo com a serpente. De algum modo, quando ela a mencionou, pareceu excitante. Inteligente. Importante. Sofisticada. Mas “esqueceu” de mencionar um fato crucial: a independência sempre significa separação. E a separação de Deus não é excitante nem inteligente.
Desde a primeira tentação, nossa espécie tem ansiado pela independência de Deus e tem pago o preço da separação Dele para tê-la. Ainda gostamos da aparência do fruto proibido, apesar do coração partido que ele nos trouxe. Como os sujeitos na parábola de Jesus sobre as dez minas (talentos), consideramos o prospecto de nos submeter a Deus e gritamos: “Não queremos que esse homem seja nosso rei” (Lucas 19:14). A maioria dos humanos, parece, quer um deus, mas quer um que se satisfaça com poucas práticas religiosas e depois os deixe sozinhos para que possam levar suas próprias vidas de sua própria maneira.
A Humanidade se Escondendo
Como Adão e Eva reagiram depois de comer o fruto? Vamos novamente ler a narrativa como se a tinta ainda estivesse fresca na página:
Os olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus; então juntaram folhas de figueira para cobrir-se. Ouvindo o homem e sua mulher os passos do SENHOR Deus que andava pelo jardim quando soprava a brisa do dia, esconderam-se da presença do SENHOR Deus entre as árvores do jardim. Mas o SENHOR Deus chamou o homem, perguntando: “Onde está você?”
E ele respondeu: “Ouvi teus passos no jardim e fiquei com medo, porque estava nu; por isso me escondi”. (Gênesis 3:7-11)
A primeira reação de Adão e Eva depois do pecado foi se esconder de Deus. O pecado deu a eles novos instintos, como autoconsciência, autopreservação e o medo da punição. Subitamente eles se sentiram muito separados de Deus. Então se esconderam—e a humanidade tem se escondido desde então.
O homem e a mulher caídos sabiam, é claro, que se esconder de Deus em qualquer sentido físico era impossível, então rastejaram para fora da floresta e O encararam quando Ele chamou. Porém continuaram se escondendo. A diferença era que agora, ao invés de se refugiar atrás dos troncos das árvores mais grossas que podiam encontrar, eles se escondiam atrás de uma floresta de desculpas, troca de acusações e meias-verdades.
No final, Deus não tinha outra escolha senão cumprir Sua palavra e dar aos primeiros humanos a independência e a separação pelas quais eles ansiavam. Agora, Ele Se escondeu deles. Anteriormente, eles haviam desfrutado de intimidade e amizade intactas com Ele. Esse relacionamento foi subitamente suspenso. A Árvore da Vida, cujo fruto poderia ter estendido a amizade pela eternidade, estava fora de suas vistas para sempre.
Depois de uma geração, a raça humana era um desastre vivo e respirante. Assassinos geraram assassinos, e depois os assassinos se organizaram e começaram a construir as primeiras cidades e civilizações. Foi “nessa época”, segundo o Gênesis, que “se começou a invocar o nome do SENHOR” (Gênesis 4:26). O mundo ainda era jovem; Adão e Eva ainda viviam. Porém, como não era mais possível caminhar com Deus (literalmente) como faziam antes, a civilização criou um substituto:
A religião.
Desde esse dia, os humanos têm tentado manter os dois caminhos—apaziguar Deus por meio do serviço ritualizado e manter a independência Dele na prática. Esses objetivos parecem contraditórios. Mas a religião foi uma invenção genial, pois fez com que ambos os objetivos parecessem possíveis. Como? Dividindo a vida elegantemente em duas categorias distintas—a religiosa e a secular. A religiosa foi relegada a determinados dias e locais especiais, com determinados homens santos especializados para servir tanto como ligação quanto como amortecedor entre Deus e o homem. O lado secular da vida agora estava livre para receber a parte do leão da atenção do homem.
A cultura humana se dispersou em centenas de direções diferentes depois da intervenção de Deus em Babel. Idiomas, alimentos, roupas e costumes se desenvolveram em uma diversidade surpreendente de modos. A religião se desenvolveu junto com eles. Não importa qual seja as aparências externas, certas constantes permaneceram em todas as nações, cruzando os oceanos e atravessando o globo. A religião ainda separa determinados locais, dias e pessoas como “mais sagrados” ou “mais especiais” que o restante.
“Locais Especiais”
Basicamente todas as religiões conhecidas têm determinadas construções ou locais designados como especialmente sagrados. Seus nomes podem se alterar entre as culturas, mas sua função permanece a mesma.
Muitas religiões construíram prédios chamados de “templos” ou que levam outros nomes. Historicamente, os homens com freqüência pensam que tais prédios abrigam uma “deidade” em particular. Os templos colocam Deus literalmente em uma caixa! Nós nos tornamos um pouco mais sofisticados desde então, ou pelo menos é o que achamos. Os homens atualmente consideram os templos mais como estruturas devotadas a atividades religiosas.
Uma religião muito popular tem templos conhecidos como Gurdwara. Você será bem-vindo para visitar um desses templos se concordar com algumas poucas exigências. Depois de entrar, tire os sapatos e coloque um chapéu semelhante a uma bandana em sua cabeça. Deixe os cigarros ou bebidas alcoólicas em casa. Intoxicantes não são permitidos. Depois de entrar, caminhe devagar até uma cadeira onde o livro sagrado da religião está entronizado. Curve-se humildemente perante o livro e faça uma oferta monetária. Você, junto com todos os que estão no templo, sentará então com as pernas cruzadas sobre o piso e elevará as mãos em concha para receber dos porteiros uma hóstia de pão feito de farinha adoçada e manteiga.
Esse é o costume da quinta maior religião do planeta atualmente. Entretanto, na verdade todas as religiões têm um tipo parecido de templo, com algum ritual comparável para seguir. As pessoas construíram diversos prédios com finalidades religiosas—templos, claro, mas também mosteiros, túmulos, torres com vários andares e edifícios elaborados com abóbadas adornadas e torres de oração.
Os “locais especiais” podem ser enormes. A parede externa de um templo no Camboja ocupa quase um quilômetro quadrado! Outros “locais especiais” podem ser bem pequenos. Muitas religiões construíram “oratórios”. Essas estruturas em geral contêm uma relíquia ou imagem que as pessoas adoram ou veneram. Indivíduos especialmente religiosos podem até construir um oratório no seu próprio quintal devotado a uma determinada “deidade” ou “santo”. Ao norte do meio-oeste dos Estados Unidos, “bathtub Madonnas” (esculturas de Maria abrigada em uma casinha) são um tipo comum de oratório particular.
Apenas das diferenças na escala, essas estruturas têm uma finalidade em comum. Elas são um lugar onde as pessoas podem comparecer quando desejam “cumprir” suas tarefas religiosas.
É fascinante como muitas pessoas reconhecem de forma natural a similaridade de todas as “edificações com fins religiosos”, sem importar a religião. No Sudeste Asiático, por exemplo, a palavra wat pode se referir a quase qualquer “local de adoração”. Um wat cheen, por exemplo, é um edifício usado por religiões chinesas, sejam elas budistas ou taoístas. Um wat khaek é uma estrutura usada pelos hindus. Um wat kris é um prédio usado pelos cristãos. Na verdade, “a boca fala o que transborda do coração”, para um tailandês um wat é um wat, não importa a religião que o construiu. Se você quer se aproximar de Deus (seja qual for seu conceito sobre Ele), você vai ao seu wat preferido. Do contrário, se desejar seguir interesses seculares, você se mantém longe de todos os wats até que esteja pronto para ser religioso.
A humanidade, então, sentiu uma ânsia universal de construir prédios “sagrados” e até de designar rios, montanhas ou bosques específicos como particularmente “sagrados”. Não se pode mesmo negar que locais especiais são uma marca registrada da religião humana. Mas isso é ruim?
Bem, considere o seguinte: O próprio processo de designar um determinado local como “sagrado” automaticamente categoriza, de certa forma, todos os outros lugares como menos sagrados. Se o “sagrado” pertence a Deus, o resto é de quem? Se alguns poucos lugares são devotados à vida religiosa, a que são dedicados a maioria dos lugares? E se você realmente acha que está “entrando na presença de Deus” ao entrar em uma determinada posição geográfica, o que acontece quando você sai?
O que estamos dizendo é que a religião tem simultaneamente dois objetivos—permitir aos humanos se aproximar de Deus, quando querem, e mantê-Lo a uma distância segura quando é o que preferem. A designação de alguns lugares como “especiais” é uma maneira crucial da religião compartimentalizar a vida.
“Dias Especiais”
A religião não apenas define as categorias “sagrado” e “secular” para dividir as três dimensões do espaço, ela também faz exatamente a mesma coisa com a quarta dimensão—o tempo. Determinados blocos de tempo—sejam horas do dia, dias da semana ou estações do ano—são considerados “especiais”.
Poderíamos usar qualquer religião como exemplo, porém vamos escolher uma relativamente nova. Durante a metade do século dezenove, um mercador de 25 anos de idade, que dizia ser um profeta, adotou um nome que significava “Porta” em seu idioma. Os líderes religiosos locais eliminaram seu novo movimento com brutalidade, sendo ele executado, por fim, por um pelotão de fuzilamento. Logo depois, no entanto, surgiu no movimento um “novo” profeta, mais popular. Ele dizia ser o “prometido” previsto não apenas pela “Porta”, mas supostamente também por todas as “fés”. Seus ensinamentos formariam a fundação de uma nova religião.
Nesse sistema, a sexta-feira é considerada um dia especial de adoração. Além disso, há diversos “dias sagrados” em cada ano. No equinócio da primavera, por exemplo, os adeptos se reúnem para um jantar seguido por orações e leituras. Depois há uma série de dias que celebram os fundadores da nova religião—seus aniversários, os dias em que se declararam profetas e os dias em que morreram. Finalmente, há um festival de inverno, quando os membros em geral trocam presentes.
Talvez você já tenha ouvido falar dessa religião, talvez não. De qualquer forma, se o cenário dos feriados parece familiar, é porque deveria ser. As religiões com as quais você está mais familiarizado (incluindo, provavelmente, aquela na qual você foi criado) têm um “calendário sagrado”, cuja diferença em relação ao que você leu aqui está mais no detalhe do que na substância.
Muitas religiões separam um dia da semana em particular como especial. Para os membros de uma delas, qualquer ato religioso realizado na sexta-feira recebe uma recompensa maior, pois Deus criou Adão em uma sexta. Os membros de uma outra discordam: eles observam o dia depois da criação de Adão como especialmente significativo. Bilhões de seres humanos observam, por sua vez, a quinta-feira como seu dia especial. Como no exemplo da “Porta”, muitas religiões baseiam seus feriados em eventos especiais da vida de seu fundador. De forma semelhante, muitas religiões têm festivais no primeiro dia do ano (definido por elas) ou em algum outro ponto dos ciclos solar ou lunar. Cada dia sagrado tem sua própria cultura de costumes tradicionais, com refeições, presentes, procissões, serviços religiosos, decorações e outros itens afins.
Mesmo os que ignoram os dogmas de uma fé em particular 364 dias do ano ainda podem observar seu dia “mais sagrado”. E mesmo eventos ou figuras históricas bem distantes dos dogmas principais da religião podem por fim receber um dia em sua homenagem. Por exemplo, muitos organismos religiosos liberais nos Estados Unidos começaram 2006 com a prática de celebrar o “dia da evolução” no domingo próximo do aniversário de Charles Darwin! O impulso de designar determinados dias arbitrários como “sagrados” ainda é universal, mesmo em nossa sofisticada era “pós-moderna”. Como um comediante uma vez declarou, “Eu era ateu, mas desisti. Não havia feriados”.
Novamente, podemos perguntar se o hábito de dias sagrados é realmente tão ruim, já que todos parecem adotá-lo. Que mal pode haver? E, novamente, podemos responder que cada escolha para designar uma pequena quantidade de coisas—seja posições geográficas ou dias do ano—como “sagradas” automaticamente cria outra categoria para todo o resto. Se um dia é “mais especial”, o que acontece com os outros dias? Se um dia é separado como pertencendo unicamente a Deus, quem na verdade é o dono do resto dos dias? Como com os lugares sagrados, os dias sagrados têm o efeito—intencionalmente ou não—de compartimentalizar a vida.
“Homens Especiais”
Como vimos, religião pode ser um categorizador incansável de lugares e dias. Mas há outra conveniência que ela divide em “sagrado” e “secular”: os seres humanos. Da mesma forma que a religião humana escolhe determinados locais do mapa ou páginas do calendário para serem “sagrados”, também seleciona determinados rostos na multidão para serem especialmente “sagrados”.
Culturas “primitivas” ou tribais têm mulheres ou homens específicos que são designados como oráculos ou xamãs—ou, sendo menos politicamente corretos, pajés e curandeiros. Eles são treinados para ter um contato maior com o mundo dos espíritos do que é permitido ao indivíduo comum. Como resultado, em geral eles acreditam que têm poderes especiais para curar doenças ou mudar o clima. Uma dessas religiões denomina seus xamãs de “homens sábios” ou “mulheres sábias”. Além de curar e interceder junto ao mundo espiritual, esses “sábios” estão envolvidos em ritos de iniciação e outras cerimônias secretas. Eles executam as leis tribais e são temidos por sua suposta capacidade de matar um ofensor apenas entoando uma canção mágica. Ao se deslocar de cultura a cultura, você pode ver que muitos detalhes mudam, porém a regra básica do xamã permanece a mesma.
À medida que as sociedades se tornam mais organizadas, os especialistas na religião assumem a função plena de “sacerdotes”. Como os xamãs, os sacerdotes supostamente mantêm uma conexão especial com a deidade da religião. Entretanto, a descrição de suas funções é mais ampla. Ela agora inclui a realização dos rituais corretos e o aconselhamento de pessoas comuns sobre questões religiosas. Os sacerdotes em geral precisam de treinamento ou educação especializada. Normalmente recebem suporte financeiro. A descrição exata da função dos sacerdotes varia em cada religião, porém suas atribuições são muitas vezes surpreendentemente familiares, mesmo para alguém de fora. Independente de sua afiliação, os sacerdotes nos países ocidentais podem dar aulas de religião, editar jornais, realizar casamentos e funerais, servir como capelães militares ou em prisões e até mesmo se autodenominarem de “reverendos”.
O sacerdócio teve seus pontos altos na história. Séculos atrás, um país desenvolveu um rígido sistema de castas hierárquicas. Os membros da casta mais inferior eram forçados a realizar todos os trabalhos perigosos e sujos para a sociedade e, em troca, sofriam uma rígida segregação e uma pobreza desesperadora. Os sacerdotes, ao contrário, estavam no topo da estrutura. Por causa que realizam os rituais de “casamento e enterro” para a sociedade, desfrutavam do mais alto padrão de vida e eram os mais respeitados de todas as castas. Esse sistema de castas existe ainda hoje.
Você pode não viver em uma sociedade com um sistema reconhecido de castas. No entanto, a maioria das culturas ainda tem “especialistas” designados que supostamente ajudam as pessoas comuns a entender e cumprir as exigências divinas. Mas um “conector” também pode ser um “separador”. Isso é um problema real quando a pessoa da qual você está separado é Deus e a pessoa que está entre você e Ele é apenas um outro homem. Ainda assim cada sociedade e cada religião escolheu mulheres e homens “sagrados” para exercer a função de intermediário. Por quê?
A humanidade ainda está se escondendo de Deus! A maioria de nós não quer realmente ficar perto demais Dele. Ele pode interferir em nosso precioso “direito” (como o vemos) de sermos nossos próprios deuses. E quando chegamos ao âmago da questão, temos muito medo Dele. Temos a incômoda impressão de que Ele está zangado e pode fazer algo imprudente se estivermos perto demais! E mesmo assim ainda percebemos que precisamos Dele para nos abençoar durante os marcos da vida, como o nascimento, a maioridade e o casamento, e para nos resgatar ou, pelo menos, nos confortar durante as crises da vida, como doenças, fome ou a morte de um alguém que amamos. A religião oferece a solução para o dilema. Ela escolhe alguém para se aproximar de Deus em nosso lugar, de modo que ele ou ela assuma a maioria dos riscos por nós e obtenha para nós algumas das bênçãos de Deus.
O Custo Oculto da Religião
À primeira vista, a religião pode parecer uma das mais engenhosas invenções da humanidade. Mas novas invenções poderosas muitas vezes podem ter efeitos indesejados desastrosos. E a religião, que efeito tem?
Para responder essa pergunta, devemos pensar novamente na humanidade antes da queda. Naqueles dias gloriosos, Adão caminhava com Deus face a face. Ele não precisava de um local sagrado, pois todos os lugares estavam cheios da maravilha e da admiração da presença de Deus. Ele não precisava de um dia sagrado, pois cada momento estava vivo com a consciência de Deus. E ele não precisava de nenhum homem sagrado para se interpor entre eles. Como homem, Adão assumiu seu lugar de direito, submetendo-se e aprendendo de seu Criador sem reservas ou medos. Ele se relacionava com Deus diretamente—como uma criatura se relaciona com um Criador, claro, mas também como um filho muito amado se relaciona com um Pai perfeitamente amoroso.
A humanidade perdeu tudo isso na queda.
A religião humana obteve novamente o que foi perdido na queda? Ela satisfez sua alma—de verdade? Ou principalmente ofereceu um substituto para a realidade que Adão experimentou no jardim há não muito tempo? Você realmente quer sua vida compartimentalizada, com uns poucos dias, locais ou homens especiais colocados na categoria “sagrada”, ficando todo o resto na categoria “secular”?
E se ao invés disso Deus lhe concedesse uma segunda chance na Árvore da Vida? E se Ele oferecesse a restauração da paz e amizade e vida momento-a-momento que Adão desperdiçou?
Você teria coragem de entrar nessa?
A Religião Perfeita de Deus
Luzes Resplendentes na Escuridão
Quando Adão e Eva tomaram o caminho da independência, decidindo por si mesmos o que era “bom” ou “ruim”, eles caíram. Duramente. Com eles, caiu a esperança da raça humana de uma caminhada livre, desimpedida, face a face com seu Criador. O pequeno experimento da humanidade com a auto-regulação logo trouxe caos e morte a cada aspecto da existência no planeta Terra. Como Paulo mais tarde disse, “A Criação foi submetida à inutilidade… na escravidão da decadência” (Romanos 8:20-21). Tudo simplesmente se desfez.
Deus se viu combatendo o mal humano continuamente. Ele tomou medidas drásticas em alguns momentos para evitar que as espécies criassem o inferno na terra. Deus espalhou a humanidade por todo o planeta, confundindo seus idiomas para que as pessoas não pudessem se juntar para concretizar seus objetivos desvirtuados. Ele reduziu drasticamente a vida humana, de mais de 900 anos para 120, para que não tivesse que “contender com o homem para sempre” (Gênesis 6:3). Em um determinado ponto, Deus até mesmo tomou o passo mais radical que se pode imaginar: Ele eliminou quase todas as espécies, recomeçando com a família de apenas um homem. Mesmo assim, a maldade humana pôde apenas ser contida, com dificuldade—jamais curada.
E, portanto, lemos no livro do Gênesis algumas das palavras mais tristes da Bíblia: “O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos de seu coração era sempre e somente para o mal. Então o Senhor arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra, e isso cortou-lhe o coração” (Gênesis 6:5-6).
No entanto, nessa escuridão encontramos uns poucos—bem poucos—luzes brilhantes acesas.
Primeiro veio Enoque. Não sabemos quase nada sobre ele, mas isto sabemos: “Enoque andou com Deus; e já não foi encontrado, pois Deus o havia arrebatado” (Gênesis 5:24).
Três gerações mais tarde veio Noé. A Noé “o SENHOR mostrou benevolência”. Ele era “um homem justo, íntegro entre o povo de sua época; ele andava com Deus.” Quando Deus viu que “toda a humanidade havia corrompido a sua conduta”, Ele encontrou em Noé um homem que faria “tudo exatamente como Deus havia ordenado” (Gênesis 6:8-9, 12, 22). Noé foi o único homem na Terra que escolheu caminhar com Deus ao invés de ser independente Dele. Quando Deus resolveu limpar a Terra do mal e recomeçar com apenas um homem, escolheu Noé.
Outras dez gerações se passaram. E novamente a Terra estava cheia de depravação, rebelião e idolatria. Uma segunda vez Deus decidiu recomeçar com apenas um homem. Mantendo Sua promessa anterior, Ele se conteve e não mandou outra inundação. Em vez disso, Deus escolheu Abraão para produzir uma nova nação de pessoas que se dedicassem a Ele e a Seus caminhos. Eles deveriam existir lado-a-lado com as nações pagãs, mas não se tornar como elas. A influência deveria trabalhar no sentido oposto—todas as nações da Terra deveriam ser abençoadas por meio deles. Como Noé, Abraão foi um recomeço para a raça humana. E como Enoque, ele caminhou com Deus.
Três homens. Era com isso que Deus tinha que trabalhar, na verdade, durante treze gerações inteiras. Não é de admirar que esses homens, “velas na escuridão”, sejam considerados heróis da fé até os dias atuais (Hebreus 11:5-9).
Mas observe algo sobre eles: nenhum dos três homens era “religioso”, segundo a nossa definição do termo. Eles não tinham locais especiais, eles simplesmente caminhavam com Deus. Onde quer que O encontrassem de forma excepcional, poderiam parar e construir um altar para oferecer a Ele um sacrifício. Mas depois seguiam adiante. Não havia “comparecimento” ou “revisitas” ao altar. Além disso, eles não tinham calendários religiosos ou dias sagrados designados, pelo que sabemos. Todos os dias se enquadravam em uma vida de adoração e obediência. E eles não tinham sacerdotes ou homens sagrados que se colocavam entre eles e Deus. A única exceção foi o breve encontro de Abraão com o misterioso Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, que o abençoou e lhe deu pão e vinho. Mas esse foi um encontro único e inesperado. Não há registros de Abraão, “o amigo de Deus”, usar os serviços de um sacerdote em qualquer outro momento de sua longa vida.
No geral, essas três luzes brilhantes acesas tinham um relacionamento com Deus notadamente fora da norma religiosa de local sagrado, dia sagrado e homem sagrado. Eles faziam o melhor para viver uma vida do “Jardim do Éden” em um mundo tragicamente decadente.
A Religião Perfeita
Mas Deus tinha um plano. Três homens não eram suficientes para satisfazer Sua intenção para a criação. É por isso que Ele disse a Seu amigo Abraão: “Olhe para o céu e conte as estrelas, se é que pode contá-las. Assim será a sua descendência.” E prosseguiu:
Saiba que seus descendentes serão estrangeiros numa terra que não lhes pertencerá, onde também serão escravizados e oprimidos por quatrocentos anos. Mas eu castigarei a nação a quem servirão como escravos e, depois de tudo, sairão com muitos bens… Na quarta geração, os seus descendentes voltarão para cá. (Gênesis 15:13-14,16)
Foi exatamente assim que aconteceu, é claro. Depois de quatro séculos, os descendentes de Abraão tinham se tornado uma grande nação. Por meio de Moisés e Arão, Deus os livrou de sua opressão. Ele os fez marchar através do mar turbulento e sobre um deserto escaldante em direção à Terra Prometida. Depois, fez com que parassem em uma montanha para que pudesse fazer algo surpreendente.
Deus deu a eles uma religião.
Até então, Deus havia permanecido fora do negócio das religiões. Embora a maior parte da humanidade estivesse adorando com devoção suas personificações idólatras Dele, se curvando em seus prédios “sagrados” em seus dias “sagrados” e com a liderança de homens “sagrados” nos rituais aprovados, Deus havia simplesmente olhado em silêncio. Ele estava satisfeito, aparentemente, com alguns poucos homens de pés no chão que eram corajosos e humildes o suficiente para serem Seus amigos. Será que isso tinha mudado?
Na verdade, não. Para Seus próprios propósitos, Deus agora tinha escolhido trabalhar dentro da estrutura de referência da humanidade decaída, dando a eles a religião perfeita e desafiando as pessoas a se aproximarem Dele dessa maneira. Sua religião levou o padrão local-dia-homem especial para um nível radicalmente mais alto.
Local sagrado. Durante a viagem dos Israelitas pelo deserto, Deus ordenou a eles que construíssem uma tenda sagrada especial. Mais tarde, depois da nação ter se estabelecido na Terra Prometida, Deus escolheu uma cidade, Jerusalém, para uma estrutura mais permanente.
A idéia básica era a mesma para a tenda e o templo. Ambos eram estruturas retangulares divididas em dois lugares por uma cortina. O lugar maior era chamado, apropriadamente, de o Lugar Santo. Nele havia três móveis objetos destinados ao uso de Deus: um candelabro com sete braços, uma mesa para as ofertas diárias de pão especial e um altar para queimar incenso para Deus. Atrás da cortina havia um lugar ainda mais divino, o Santo dos Santos. Nele havia apenas um objeto: uma caixa coberta de ouro que significava a presença de Deus e Seu acordo, ou “aliança”, com os Israelitas.
É difícil superestimar a importância do tabernáculo—e, mais tarde, do templo—para a “religião perfeita de Deus”. A estrutura era o único local aprovado para que os Israelitas oferecessem seus sacrifícios a Deus. Era o destino obrigatório dos Israelitas fiéis durante as três semanas do festival especial. E, o mais importante, representava o local físico da presença de um Deus infinito entre Seu povo.
Dias sagrados. O calendário de Deus definia dias, semanas e anos especiais, cada qual rico de significado. Todos os meses, quando os céus noturnos anunciavam que a lua estava recomeçando seu ciclo, havia o “festival da lua nova”. Sacrifícios especiais, incluindo uma oferta pelos pecados, marcavam o rito. Toda semana terminava com outro dia sagrado, o Sabá. Deus havia descansado no sétimo dia de Seu trabalho de criação; era no sétimo dia que todos os Israelitas deviam descansar de seu trabalho também. Servos, escravos e até bois e jumentos deviam desfrutar de um descanso em suas tarefas.
E havia também três semanas especiais todos os anos. A Páscoa, em cada primavera, comemorava a libertação de Israel da escravidão por Deus. Culminava com uma festa em cada residência, que incluía um carneiro assado, lembrando os Israelitas de um sacrifício muito especial que literalmente havia salvo suas vidas quando foram libertados da escravidão. Quando a primavera dava lugar ao verão, havia a Festa das Semanas. Ela marcava o dia em que Deus deu Sua religião aos Israelitas e também celebrava o início da colheita de grão a cada ano. Durante o outono, havia o Dia especial do Perdão, centrado nos temas do arrependimento e sacrifício. Ele era seguido pela Festa dos Tabernáculos, que durava uma semana e durante a qual os Israelitas deviam “acampar” em cabanas temporárias para comemorar os quarenta anos em que Deus cuidou das necessidades de seus ancestrais no deserto.
Finalmente, havia anos inteiros designados como especialmente sagrados. Cada sétimo ano era por si só um Sabá. Os Israelitas deviam deixar que seus campos e vinhedos descansassem de seu trabalho e comer apenas o que a terra produzisse por si só. E cada qüinquagésimo ano era declarado como um ano de Jubileu. Todas as dívidas eram canceladas. Todas as propriedades eram devolvidas ao seu dono original. Todos os escravos eram libertados.
Há muito mais a dizer sobre os dias especiais da religião de Deus. Porém deve estar evidente, pelo menos, que os Israelitas tinham oportunidades contínuas de contemplar as coisas profundas de Deus e agradecer a Ele por Sua história de bondade em relação a seu povo.
Homens sagrados. Israel se destinava a ser uma nação sagrada. Mas dentro de Israel havia uma determinada tribo sagrada, os descendentes do bisneto de Abraão, Levi. Deus escolheu os levitas para Seu serviço, como representantes de toda a nação. Durante os dias do tabernáculo, os levitas, e apenas os levitas, tinham permissão para tocar ou deslocar a tenda e seu mobiliário. Se alguém mais se aproximasse das coisas sagradas, ele ou ela deveria morrer. Depois da construção do templo, os levitas ficaram a cargo de seu trabalho. Alguns preparavam o pão sagrado; outros lideravam canções e orações especiais. De qualquer forma, o serviço a Deus era a sua vida.
Dentro da tribo Levita havia um grupo ainda mais seleto, os descendentes do irmão de Moisés, Arão. Eles, e apenas eles, podiam servir como sacerdotes. Era seu trabalho ofertar todos os sacrifícios e ofertas a Deus em nome da nação. Os sacerdotes assumiam o lugar da nação inteira durante todo o ritual necessário.
Finalmente, havia dentro da família sacerdotal o homem sagrado mais exclusivo—o Sumo Sacerdote. Ele era o único ser humano que tinha permissão de ir atrás da cortina, ao Lugar Mais Santo, e somente ia lá uma vez por ano—no Dia do Perdão. Balançando um incensório fumegante, o sacerdote aspergiu sangue na frente de uma caixa coberta de ouro, a “Arca da Aliança”. Por meio desse ato ele assegurava o perdão, primeiro, de seu próprio pecado, e, depois, do pecado da nação inteira.
Poderíamos ficar horas descrevendo a complexidade e a beleza da “religião perfeita de Deus”. Tudo tinha um significado, dos móveis do templo aos enfeites da veste do sacerdote. Deus realmente havia levado a religião—com seus locais, dias e homens sagrados—a um nível jamais igualado antes ou depois. Durante os séculos após a queda, pouquíssimos homens tinham caminhado com Ele. Mas Deus encontrou um modo de revelar ao homem visões profundas de Seu caráter e mente por meio de Sua religião.
Faria isso diferença? O homem se importaria?
Uma Dura Lição
Como os Judeus lidaram com essa religião dada por Deus? Qual foi sua experiência, seu testemunho? Era um teste crucial, não apenas para os Judeus, mas para nós. Se as pessoas recebessem uma religião perfeita, poderiam se aproximar com êxito de Deus, por meio dela?
A religião de Deus esteve em vigor por quase treze séculos, entre Moisés e Jesus. Durante todo esse tempo, apenas pouquíssimos transcenderam seu ambiente e limitações e se aproximaram de Deus por meio da fé. Finéias, Samuel, Davi, Elias, Elisá e um punhado de outros reis e profetas viveram suas vidas com uma fé que ainda hoje nos comove (Hebreus 11). Todos eles fizeram o melhor para obedecer às leis de Deus e seguir as ordens de Sua religião.
Mas mesmo para esses homens e mulheres, foi realmente a religião que os aproximou? Davi, embora amasse a lei, aprendeu mais da fidelidade de Deus nas colinas solitárias de Belém do que jamais o fez comparecendo ao serviço do Sabá (1 Samuel 17:34-37). Finéias, embora fosse um sacerdote, expiou mais pecados com um lança do que jamais o fez com uma oferta queimada (Números 25:1-13). E o sacrifício mais poderoso de Elias foi oferecido em uma montanha em Samaria, não em um templo em Jerusalém (1 Reis 18:30-39). Ainda assim, é verdade que uns poucos encontraram Deus dentro do escopo de Sua religião durante aqueles longos anos.
Mas é também verdade que a enorme maioria falhou de forma catastrófica.
E o lugar sagrado de Deus? Salomão construiu um local magnífico, o templo de Jerusalém. Porém, apesar se sua beleza e o significado profundo para sua fé, as maioria dos Israelitas o ignoraram, ou pior.
Em desobediência gritante à ordem de Deus de que os sacrifícios somente deveriam ser ofertados no templo, a maioria do povo continuou a oferecê-los em seus próprios locais de adoração. A frase “contudo, não acabou com os altares idólatras, nos quais o povo continuou a oferecer sacrifícios e queimar incenso” aparece nos registros de cinco reis de Judá diferentes. E esses eram os reis bons! Algumas vezes a adoração de deuses pagãos se misturava à adoração de Yahweh em tais “altares”. O templo, despojado repetidamente de seu ouro e bronze para o pagamento de reis estrangeiros e exércitos invasores, por fim se tornou decrépito como um armazém abandonado ou uma fábrica fechada. Um dos últimos reis de Judá, Manassés, erigiu altares a ídolos estrangeiros no próprio templo e até sacrificou seu próprio filho em um deles. Não é de admirar que Deus tenha permitido que os babilônios queimassem totalmente o templo.
E os dias e semanas e anos sagrados de Deus? Os Israelitas começaram a ignorar o Sabá quase imediatamente após Deus declará-lo sagrado (Números 15:32-36). Eles esqueceram de observar a celebração da Páscoa—com todo o seu rico significado—desde o momento em que entraram na Terra Prometida. Ela não foi celebrada novamente até o reinado de Josias, o vigésimo dos vinte e quatro reis de Judá. E o ano do Jubileu? Pelo que sabemos, os Israelitas jamais o observaram. Em 1300 anos, tiveram 26 oportunidades, mas perderam todas elas.
E os homens sagrados de Deus, os sacerdotes e levitas? Eles deveriam ser uma tribo especial dentro de Israel—e uma família especial dentro da tribo—escolhida para representar toda a nação perante Deus. Porém, quando o reino se dividiu no início da história de Israel, o primeiro governante do reino do norte, Jeroboão, mudou tudo isso. Ele queria que o templo de Jerusalém, localizado no reino do sul, tivesse alguma concorrência, na esperança de que seu povo parasse de ir para o sul para as festas e dias santos. Assim, Jeroboão fabricou dois bezerros de ouro e os colocou em duas cidades no norte. Depois, “construiu altares idólatras e designou sacerdotes dentre o povo, apesar de não serem levitas” (1 Reis 12:31). Esse sacerdócio falso e seu ritual imitativo aborreceram Deus (1 Reis 13).
No reino de Judá, os “homens especiais” ainda eram os levitas, como Deus havia ordenado. Mas a condição espiritual desses homens era somente um pouco melhor do que seus semelhantes do norte. Como Deus mesmo disse, “Os sacerdotes não perguntavam pelo SENHOR; os intérpretes da lei não Me conheciam, e os líderes do povo se rebelaram contra mim. Os profetas profetizavam em nome de Baal, seguindo deuses inúteis” (Jeremias 2:8).
Esses sacerdotes tinham a genética correta, talvez, mas não o coração certo.
Novamente Deus os censurou: “Uma coisa espantosa e horrível acontece nesta terra: Os profetas profetizam mentiras, os sacerdotes governam por sua própria autoridade, e o meu povo gosta dessas coisas” (Jeremias 5:30-31). E novamente: “Desde o menor até maior, todos são gananciosos; profetas e sacerdotes igualmente, todos praticam o engano. Eles tratam da ferida do meu povo como se não fosse grave. ‘Paz, paz’, dizem, quando não há paz alguma” (Jeremias 6:13-14).
A falha religiosa de Israel foi uma catástrofe devastadora, excedendo em muito no domínio espiritual o dano de qualquer desastre natural do domínio físico. Apesar de um sistema bonito e com significado profundo de dias, lugares e pessoas sagradas, Israel, como nação, falhou completamente na aproximação de Deus pela fé.
Você faria melhor? Eu faria?
A religião de Deus não falhou; a humanidade decaída falhou e ao fazê-lo comprovou para sempre que a religião com lugar-dia-homem sagrados jamais teria êxito. Se a religião perfeita de Deus não era suficiente, o que nos faz pensar que qualquer outra religião seria?
O que Deus estava fazendo? Por que Ele até se incomodou em instituir Sua religião, afinal? Há pelo menos duas razões.
O primeiro objetivo de Deus era ensinar ao homem uma lição. Desde o Jardim, os humanos têm desejado acreditar que são capazes de escolher entre o bem e o mal. Querem achar que são capazes, inteligentes e morais. Deus sabe que não é assim. Para ajudar nossa espécie a entender, Deus decidiu nos dar um padrão objetivo para que possamos julgar por nós mesmos.
Como Paulo explica, “eu não saberia o que é pecado, a não ser por meio da Lei… Para que o pecado se mostrasse como pecado, ele produziu morte em mim por meio do que era bom, de modo que por meio do mandamento ele se mostrasse extremamente pecaminoso” (Romanos 7:7,12). Deus deseja que as pessoas honestas admitam para si mesmas que jamais poderão ser “boas”. Ele quer que entendam que jamais poderiam ser capazes de se aproximar Dele por regras e rituais. Ele quer que fiquem desesperadas por outra maneira.
O segundo objetivo de Deus também era educar o homem, mas com um sentido mais positivo. Deus colocou uma “mensagem subliminar” dentro de Sua religião. Os detalhes dos dias especiais, locais especiais e pessoas especiais obscureceram algo Maior, mais Verdadeiro, mais Real. Sua religião perfeita era meramente uma sombra, mas havia uma Realidade surgindo. O cumprimento de tanto, do cordeiro da Páscoa ao descanso do Sabá, estava logo virando a esquina. A promessa de uma nova aliança brilhava como um farol, iluminando o caminho de um futuro melhor.
Um Novo Começo
Israel estava em completa desordem. Em pouco tempo, o templo—ou o que restou dele—seria queimado totalmente pelos invasores da Babilônia. Os sacrifícios e feriados e festas teriam uma pausa súbita. Os sacerdotes e profetas estariam marchando sob escolta para se estabelecer em um país estrangeiro—se sobrevivessem à invasão.
Nesse exato momento, quando parecia que Sua religião estava em sua pior condição, Deus exalou uma promessa. Foi como se uma brisa fresca e perfumada soprasse por um instante do jardim do Éden, agitando os cabelos do homem e recordando a ele o que havia perdido—e o que realmente poderia ter de volta.
“Estão chegando os dias” declara o SENHOR, “quando farei uma nova aliança com a comunidade de Israel e com a comunidade de Judá. Não será como a aliança que fiz com os seus antepassados quando os tomei pela mão para tirá-los do Egito; porque quebraram a minha aliança, apesar de eu ser o SENHOR deles”, diz o SENHOR. “Essa é a aliança que farei com a comunidade de Israel depois daqueles dias”, declara o SENHOR. “Porei a minha lei no íntimo deles e a escreverei nos seus corações. Serei o Deus deles, e eles serão o meu povo. Ninguém mais ensinará ao seu próximo nem ao seu irmão, dizendo: ‘Conheça ao SENHOR, porque todos eles me conhecerão, desde o menor até o maior”, diz o SENHOR. “Porque eu lhes perdoarei a maldade e não me lembrarei mais dos seus pecados.” (Jeremias 31:31-34)
Deus estava disposto a começar de novo. Os Israelitas permaneceram no exílio durante 70 anos, permitindo que a terra tivesse o descanso do Sabá que lhe faltou por séculos. Finalmente Deus permitiu que voltassem, reconstruíssem o templo e reiniciassem suas práticas religiosas. Porém Deus estava esperando com paciência até o momento certo para fazer Sua nova aliança prometida com a humanidade. Dessa vez, Ele não confiaria o serviço a um intermediário. Ele não usaria um profeta ou sacerdote—nem mesmo um anjo.
Dessa vez, Deus apareceria em Pessoa e assumiria Ele mesmo a tarefa.
O Paraíso Reconquistado: a Vida com Jesus!
Imagine de Novo
Imagine caminhar com Deus. Literalmente…
Já é noite na Palestina. O calor da tarde ainda se difunde sobre as montanhas rochosas à sua frente, porém às suas costas uma brisa fria e limpa agita as profundas águas azuis do Mar da Galiléia. O sol, descendo no céu, banha a paisagem de ouro. Logo ele pintará uma obra de arte nas colinas a oeste. Seus sentidos absorvem a beleza. Embora o mar tenha sido o pano de fundo de cada cena de toda a sua vida, você jamais ignorou sua beleza. Ainda assim, o encanto dessa noite de verão não pode explicar a expectativa feliz que surge como uma canção dentro de você. Há outra razão para isso.
Ele está vindo. Jesus!
Ele prometeu que levaria você e o resto de Seus seguidores mais próximos para longe por alguns dias. Ele despediu a multidão, aquela mesclagem da humanidade—os ortodoxos mantenedores de regras, os pecadores notórios, os fanáticos zelotes e os coletores de impostos traidores, os líderes influentes e as viúvas empobrecidas. Eles seguiram seus caminhos, pelo menos por alguns dias. Agora Jesus se reúne a vocês. Você e seus amigos caminharão com Ele alguns quilômetros e acamparão durante a noite. Amanhã pela manhã partirão para o sul, viajando pelas estradas poeirentas em direção a Judéia e Jerusalém.
À medida que se deslocam, Ele mostrará muitas coisas—os pássaros no céu, as flores no campo, uma cidade sobre uma colina—isso tudo enquanto abre sua mente para as maravilhas do Reino de Deus. Você já viu pássaros e flores e cidades, porém jamais pelos olhos de Jesus. Cada momento com seu Amigo é tingido com descoberta e surpresa. Porém, a maior alegria de todas é simplesmente estar com Ele. Você o chama de Mestre, porém Ele o chama de Seu amigo. Só esse fato já dispara seu coração!
Jesus parece, de muitas maneiras, “um dos caras”, como você. No entanto, ao mesmo tempo, para sua constante admiração, Ele também é muito diferente. Suas palavras são simples, porém penetrantes. Ele evita discussões complexas e as minúcias teológicas dos rabis. Mesmo as crianças adoram escutá-Lo. E quando Ele fala, coisas acontecem. O cego vê. O doente é curado. Os demônios tremem e fogem. Algumas vezes, até os mortos se levantam. Aqueles que amam Deus se afastam renovados com alegria e esperança. Os falsos religiosos podem partir se sentindo frustrados ou zangados ou com remorso, mas jamais se afastam inalterados.
Não são apenas as palavras de Jesus que o impressionam—é Ele. Que mistura de simplicidade e profundidade, compaixão e coragem, gentileza e poder. E amor… não esqueça do amor! Não que Ele seja efusivo com a emoção, embora Ele certamente não tenha medo de rir ou chorar. Mas Seus olhos parecem sempre focados nos outros, ao invés de em Si mesmo. Ele se importa de verdade com quem eles são e o que Ele pode dar de verdade a eles.
Ao encontrar Jesus pela primeira vez, você se sentiu culpado por seus pecados e, honestamente, com um pouco de medo Dele. Você teria vergonha de admitir, mas até então sempre havia achado os assuntos religiosos um pouco aborrecidos e entediantes. No entanto, quanta vida havia nesse homem—sem dúvida, ninguém conseguiria explicar a você, mesmo se tentassem. Na primeira vez que experimentou por si mesmo, foi francamente intimidador. Ah, você sabia como ser religioso. Você poderia “fazer uma oração” ou cantar um Salmo na sinagoga. Mas Jesus parecia desafiar a familiaridade confortável e a segurança da religião com um simples olhar. Era como se Ele tivesse retirado um véu e forçado você a confrontar Deus face-a-face. Isso foi aterrorizante no começo! Depois de decidir lidar honestamente com Deus em relação a seus pecados, no entanto, o sentimento de estar com Deus aqui e agora foi absolutamente estimulante!
Desde então você tem literalmente caminhado com Jesus sete dias por semana, junto com um grupo de pessoas que se tornaram mais próximas de você do que… você ia dizer “família”, até se lembrar, de repente, que alguns deles fazem parte de sua família biológica. Mas acho que isso só comprova sua afirmação!
Essa imagem da vida lhe parece boa? Deveria.
Você foi criado para ela.
Deus Conosco
A humanidade falhou completamente. Os homens falharam ao ser seus próprios deuses; falharam ao seguir uma religião perfeita. Talvez pelo menos alguns deles estivessem prontos agora—prontos para regressar a seu lugar apropriado, o lugar que rejeitaram no Jardim do Éden. Talvez pelo menos uns poucos estivessem prontos para cuspir a fruta proibida da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Talvez estivessem prontos para caminhar com Deus novamente. Talvez estivessem prontos até para comer da Árvore da Vida.
Chegou o momento de Deus assinar com a raça humana um novo acordo. A humanidade precisava conhecer as condições desse acordo. Dessa vez, Deus não enviou apenas a palavra por um mensageiro. Nem mesmo trouxe a palavra Ele mesmo. Dessa vez, Ele era a Palavra. Ele invadiu o planeta Terra, assumiu a forma humana e viveu a Palavra na frente de todos nós.
O homem tentou se tornar um deus e assim perdeu o Paraíso. Agora Deus se tornou um homem e ofereceu o Paraíso de volta. Pela primeira vez no milênio, o homem podia andar com Deus literalmente.
Como disse um dos primeiros seguidores de Jesus: “Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: ‘A virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe chamarão Emanuel’, que significa ‘Deus conosco” (Mateus 1:22-23).
E como outro explicou:
O que era desde e princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam—isto proclamamos a respeito da Palavra da vida. A vida se manifestou; nós a vimos e dela testemunhamos, e proclamamos a vocês a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada. Nós lhes proclamamos o que vimos e ouvimos. (1 João 1:1-3)
Emanuel, “Deus conosco”, ele andou por nosso planeta por trinta silenciosos anos. Agora ele estava pronto para surgir diante da vista pública por outros três anos.
A religião estava prestes a sofrer um grande choque.
Um Reino Interior
Jesus era muitas coisas—muitas coisas mesmo—mas não era um rebelde. Ele era, é claro, judeu de nascimento, um membro do povo escolhido de Deus e um seguidor da religião perfeita de Deus. Na verdade, Ele era o único que seguiu a religião perfeita de forma perfeita. Por esse motivo, Ele cresceu fazendo peregrinações ao templo em dias sagrados e ouvindo os mestres designados (Lucas 2:41-52).
Quando chegou o momento Dele começar o trabalho para o qual Deus O enviou à terra, Jesus continuou naturalmente visitando as sinagogas locais e o templo de Jerusalém. Afinal, Ele havia sido enviado primeiramente às “ovelhas perdidas de Israel” e lá era onde tais ovelhas em geral se reuniam para escutar sobre as coisas de Deus.
Mas não levou muito tempo até Jesus começar a se complicar cada vez que punha Seus pés em um dos “lugares sagrados” de Israel. Tudo começou quando Ele voltou para Nazaré e foi convidado a falar na sinagoga de lá. A leitura das escrituras, tiradas do livro de Isaías, parecia ir bem. Porém Seus comentários posteriores foram muito ofensivos. Jesus proferiu apenas algumas frases antes que toda a assembléia tentasse assassiná-Lo!
Uma rejeição furiosa—e até coisa pior—também estava nas mentes das mesmas “pessoas muito boas e honradas” que escutaram Jesus pregar em outras sinagogas (Marcos 3:1-6) e no próprio templo (João 7:24-44; João 8). Não demorou muito para as autoridades decidirem de se opor a Ele, qualquer um que reconhecesse a fé em Jesus seria expulso da sinagoga (João 9:22).
Certamente isso foi um grande golpe para Jesus—ser expulso dos “lugares especiais” de Israel, a base de sua religião!
A resposta fascinante é não foi. Tornou-se cada vez mais claro: o que Jesus veio realizar nada tinha a ver com os “lugares especiais” designados!
A vida para Jesus e Seus seguidores acontecia em todos os lugares. Alguns de Seus ensinamentos mais influentes ocorreram nos cenários mais “não-religiosos”: sentado em um barco de pesca (Marcos 4:1); caminhando por uma lavoura de cereal (Marcos 2:23-28); relaxando em uma mesa de jantar (Lucas 7:36-50); descansando em um monte (Mateus 5:1); aguardando à beira de um poço (João 4).
Isso porque o treinamento de Jesus a Seus discípulos baseava-se no relacionamento, não no comparecimento. Quando Ele se encontrou com Seus dois primeiros seguidores, eles Lhe perguntaram: “Rabi, onde estás hospedado?” Como resposta, Jesus ofereceu amizade, não informação: “Venham e verão!” A narrativa nos conta que “foram e viram onde ele estava hospedado e passaram com ele aquele dia” (João 1:35-39).
Jesus enfatizava o relacionamento com todos os Seus discípulos. As verdades de Jesus eram mais assimiladas do que aprendidas. Primeiro, Ele “escolheu doze, designando-os apóstolos, para que estivessem com Ele”. Somente depois disso Ele os enviou para proclamar o novo acordo de Deus e realizar milagres para apoiar a mensagem (Marcos 3:14). O que Deus encorajava os Israelitas a fazer com seus filhos, Ele agora fazia com os Seus. Ele falou com eles sobre os mandamentos de Deus quando se sentavam em casa, quando caminhava ao longo da estrada, quando deitava e quando se levantava (Deuteronômio 6:6).
Jesus tinha uma abordagem admiravelmente diferente para as coisas de Deus, incluindo os “lugares sagrados”, e isso O deixou vulnerável a ataques. Em Seu julgamento, os acusadores de Jesus alegaram que O tinham ouvido dizer “Destruirei este templo feito por mãos humanas e em três dias construirei outro, não feito pelas mãos dos homens” (Marcos 14:58, 15:29). Porém eles não entenderam Sua intenção, é claro. Jesus havia dito algo parecido, mas estava prevendo Sua ressurreição. Ele não estava interessado de verdade em destruir imóveis. Mas Jesus certamente tinha a intenção de mudar para sempre todo o conceito de “templos” e “lugares sagrados”.
Jesus anunciou essas intenções à Samaritana. Ela pediu a Ele para resolver uma discussão religiosa: “Nossos antepassados adoraram neste monte, mas vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar”—no templo. A resposta inesperada de Jesus foi: “Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém… está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura” (João 4:20-23).
Em outras palavras, Jesus estava dizendo que daquele ponto em diante a localização geográfica de um adorador não era mais importante. O que importava era a localização espiritual da adoração. Era em espírito e em verdade? A declaração de Jesus trazia implícita a noção de que o lugar sagrado para Seus discípulos—o Jardim onde poderiam se reunir com Deus—estava de algum modo dentro das pessoas ao invés de em uma construção.
Jesus expressou Suas intenções com mais clareza ainda quando falava a alguns líderes religiosos de Israel: “Certa vez, tendo sido interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, Jesus respondeu: “O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está entre vocês” (Lucas 17:20-21).
O Reino que Jesus veio estabelecer simplesmente não pode ser localizado geograficamente. Quando é autêntico, ninguém é capaz sequer de indicar um determinado “lugar sagrado” e dizer que o Reino de Deus está localizado lá. Seu Reino se encontra dentro de um povo sagrado. O templo de Deus, Jesus está dizendo, não é mais construído de ouro, prata e pedras. A presença de Deus reside dentro de um templo construído a partir dos seres humanos.
Duas promessas de Jesus adquirem um novo significado sob essa luz: “Onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles” (Mateus 18:20), e “Eu sempre estarei com vocês, até o fim dos tempos” (Mateus 28:20). Jesus realmente é Emanuel, “Deus conosco”!
Uma Cruz Diária
Repetimos: Jesus era muitas coisas, mas não era um rebelde. Porém Ele também não era um escravo das exigências, expectativas ou ameaças. Ele seguia a programação de Seu Pai—ponto final. A liberdade de Jesus de obedecer ao Pai em nenhum aspecto era mais óbvia do que na Sua atitude em relação ao tempo.
Isso não impediu que as pessoas tentassem controlar o cronograma de Jesus. Duas vezes Jesus respondeu à pressão afirmando, de maneira gentil, porém firme: “A minha hora ainda não chegou”. E outras duas vezes Jesus evitou a captura ou a detenção, fazendo com que o evangelista comentasse “Sua hora ainda não havia chegado” (João 2:4, 7:6, 7:30, 8:20). Estava claro: Jesus iria prosseguir com um passo firme em direção a um objetivo definido e nenhuma manipulação iria desviá-Lo.
A intimidação com certeza também não funcionaria com Jesus. “Alguns fariseus aproximaram-se de Jesus e lhe disseram: ‘Saia e vá embora daqui, pois Herodes quer matá-lo’. Ele respondeu: ‘Vão dizer àquela raposa: Expulsarei demônios e curarei o povo hoje e amanhã, e no terceiro dia estarei pronto.’ (Lucas 13:31-32).
A pressão das expectativas também não iria afetá-Lo. Quando Jesus soube da grave doença de Seu amigo Lázaro e ouviu os apelos urgentes de suas irmãs para que fosse rapidamente, Ele esperou. Foi uma decisão que acarretou a Ele duras críticas (João 11:37). Mas como as prioridades de Jesus exigiam que ele esperasse, foi exatamente o que Ele fez: “Ao ouvir isso, Jesus disse: ‘Essa doença não acabará em morte; é para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por meio dela.’ Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro. No entanto, quando ouviu falar que Lázaro estava doente, ficou mais dois dias onde estava” (João 11:4-77). Somente depois que Lázaro morreu Jesus foi ao seu encontro.
Isso não quer dizer que Jesus era egoísta com relação ao Seu tempo—muito pelo contrário. Em mais de uma ocasião Ele ficou tão ocupado ajudando as pessoas que nem mesmo teve tempo de comer (Marcos 3:20, 6:31). Mesmo quando precisava desesperadamente de descanso, Ele continuou dando (Marcos 6:32-44). Jesus estava simplesmente vivendo Sua vida da forma que Ele nos ensinou a viver as nossas—com prioridades claras, um coração sereno e uma concentração intensa no momento presente (Mateus 6:25-34).
A atitude em relação ao tempo fez com que Jesus entrasse em um grande conflito com as pessoas “boas e morais” de Sua época, em especial as visões tão-religiosas deles sobre o Sabá. Jesus não demonstrou o devido respeito, na opinião deles, pelos hábitos dos dias sagrados, especialmente quando Ele achava que tais tradições conflitavam com as prioridades de Deus para o presente. Isso os enfureceu.
Lemos sobre dois desses episódios que ocorreram consecutivamente:
Naquela ocasião Jesus passou pelas lavouras de cereal no sábado. Seus discípulos estavam com fome e começaram a colher espigas para comê-las. Os fariseus, vendo aquilo, Lhe disseram: “Olha, os teus discípulos estão fazendo o que não é permitido no sábado”. Ele respondeu: “Vocês não leram o que fez Davi quando ele e seus companheiros estavam com fome? Ele entrou na casa de Deus e, junto com os seus companheiros, comeu os pães da Presença, o que não lhes era permitido fazer, mas apenas aos sacerdotes. Ou vocês não leram na Lei que, no sábado, os sacerdotes no templo profanam esse dia e, contudo, ficam sem culpa? Eu lhes digo que aqui está o que é maior do que o templo. Se vocês soubessem o que significam estas palavras: ‘Desejo misericórdia, não sacrifícios’, não teriam condenado inocentes. Pois o Filho do homem é Senhor do sábado.”
Saindo daquele lugar, dirigiu-se à sinagoga deles, e estava ali um homem com uma das mãos atrofiada. Procurando um motivo para acusar Jesus, eles lhe perguntaram: “É permitido curar no sábado?”
Ele lhes respondeu: “Qual de vocês, se tiver uma ovelha e ela cair num buraco no sábado, não irá pegá-la e tirá-la de lá? Quanto mais vale um homem do que uma ovelha! Portanto, é permitido fazer o bem no sábado.”
Então Ele disse ao homem: “Estenda a mão”. Ele a estendeu, e ela foi restaurada, e ficou boa como a outra. Então os fariseus saíram e começaram a conspirar sobre como poderiam matar Jesus (Mateus 12:1-14).
A liberdade que Jesus teve de não ser controlado pela mentalidade do “dia especial” era tão chocante e revolucionária que Ele quase foi morto por causa disso. Na verdade foi um dos motivos pelos quais Ele foi morto.
Da mesma maneira que Jesus viveu Sua vida, Ele esperava que Seus discípulos também vivessem as suas. E este é um ponto fundamental: Em todos os ensinamentos de Jesus registrados nos quatro evangelhos, nem uma vez Ele ordenou que Seus discípulos observassem o sábado como um dia especial. Nem uma vez Ele ordenou que eles observassem qualquer dia da semana como mais sagrado que os demais. Em todos os Seus ensinamentos, Jesus ordenou a Seus discípulos que apenas um dia fosse separado como sagrado. Qual esse dia?
Hoje.
Os seguidores de Jesus deviam olhar o calendário e se ele dissesse “hoje”, deviam celebrá-lo como especial e marcar tal celebração com algumas poucas “práticas” simples.
Eles deviam comemorar cada “hoje” com uma dependência e confiança simples e infantil em seu Pai: “Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia” (Mateus 6:11).
Eles deviam observar cada “hoje” com um foco silencioso e pacífico nas prioridades do momento presente: “Eu lhes digo: Não se preocupem com sua própria vida… Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas as coisas lhes serão acrescentadas. Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal” (Mateus 6:25, 33-34).
Eles deviam celebrar cada “hoje” com uma decisão de viver para a satisfação de Jesus ao invés de sua própria: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa, este a salvará” (Lucas 9:23-24).
Para os seguidores de Jesus, cada dia era uma celebração da vida sob o cuidado amoroso de Deus. Cada dia era um “dia especial”!
Um Bando de Irmãos e Irmãs
Primeiro, os “lugares especiais” levaram um golpe, depois, os “dias especiais”. O que dizer, então, das “pessoas especiais”? Jesus não iria se intrometer nesse aspecto da religião, ou iria?
Claro que sim!
Foram necessárias muitas lições e uma quantidade ainda maior de adversidades para que Sua idéia fosse entendida, mas Jesus realmente insistia nisto: nenhum de Seus seguidores devia ser visto como ocupando uma posição de poder. Ninguém devia se elevar acima de seus irmãos.
Para começar, Jesus desafiou todo o conceito deles sobre a autoridade religiosa.
Jesus os chamou e disse: “Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em resgate por muitos.” (Mateus 20:25-28)
Tudo que Seus seguidores pensavam que sabiam sobre autoridade estava virtualmente errado! Tudo que tinham aprendido sobre a liderança no mundo dos negócios—ou no mundo religioso—tinha virado de cabeça para baixo. Liderança sempre havia sido vista como exercida de cima para baixo. Ela precisava ser vista como oferecida de baixo para cima. Para os discípulos, serviço devia equivaler a grandeza e escravidão perante outros devida equivaler a liderança. Jesus viveu essa lição. Agora era a vez deles aprenderem.
É por isso que Jesus tomou a medida radical de proibir que Seus seguidores usassem qualquer título religioso. Se essa afirmação não o choca, você provavelmente precisa pensar sobre ela um pouco mais profundamente! Com que freqüência você, pessoalmente, usou um título religioso junto ao nome de alguém para indicar que essa pessoa ocupava uma posição de “pessoa especial” em sua religião? Você já chamou alguém de “Padre Roberto”, “Pastor João”, “Élder Jonas”, “Diácono Silva”, “Reverendo Souza”, ou algo parecido?
Mas vocês não devem ser chamados “rabis”; um só é o Mestre de vocês, e todos vocês são irmãos. A ninguém na terra chamem “pai”, porque vocês só têm um Pai, aquele que está nos céus. Tampouco vocês devem ser chamados “chefes”, porquanto vocês têm um só Chefe, o Cristo. O maior entre vocês deverá ser servo. Pois todo aquele que a si mesmo se exaltar será humilhado, e todo aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado. (Mateus 23:8-12)
Jesus encorajava a liderança, porém insistia que seria a liderança daquele que estava entre Seus irmãos e irmãs como alguém que serve (Lucas 22:27). E Ele proibiu qualquer “distinção de castas” que marcasse determinadas pessoas como “especiais”, incluindo os títulos religiosos. A verdade era que toda a autoridade pertencia a Jesus. Embora alguns possam ter o dom da liderança, ainda são “todos irmãos”. Qualquer coisa além disso, advertiu Jesus, seria auto-exaltação.
A “Religião” de Jesus
Após três anos bastante públicos, a vida física de Jesus estavam se aproximando do fim. Logo Ele enfrentaria a humilhação, a tortura e a morte. Era preciso. Era a vontade do Pai. Em um sentido muito real, Jesus havia vindo para oferecer à humanidade um retorno ao Jardim do Éden, uma nova oportunidade de amizade com o Deus Vivo. Era necessário o Seu sangue para “reverter a maldição” da rebelião do homem. Foi preciso a Sua morte para remover o pecado que havia separado de forma tão trágica toda a espécie—incluindo cada membro dela—de seu Criador.
Porém Jesus não foi direto da carpintaria para a cruz. Os três anos intermediários fizeram algo vital. Sem qualquer sinal de rebelião, Jesus conseguiu virar o mundo religioso de cabeça para baixo. Sua vida era a prova: para estar perto de Deus não era preciso ser “religioso” no sentido tradicional. Se você se juntou a Jesus e realmente prestou atenção ao que Ele dizia e fazia, logo percebeu que Ele estava redefinindo a religião em seus aspectos mais profundos.
Para Jesus, e, portanto, para Seus seguidores, o “lugar sagrado” não devia ser procurado em um local geográfico, mas dentro de um povo que pertencesse a Deus. Os “dias especiais” não deviam ser regulados pelo calendário. Ao contrário, cada dia devia ser impregnado de santidade por meio de uma abordagem radicalmente nova da vida. E as “pessoas especiais” não eram identificadas por cargos ou títulos. Ao invés disso, cada fiel era uma nova criação estimada em sua singularidade e milagrosa. Cada discípulo podia oferecer seu amor aos outros fiéis através de atos humildes e cada pessoa era necessária para o funcionamento saudável de todo o grupo.
Desde o dia que Adão e Eva deixaram o Paraíso, a humanidade tinha tentado apaziguar Deus e satisfazer suas próprias consciências por meio da religião. O dom da vida que Jesus ofereceu àqueles que a recebessem ia contra cada instinto da humanidade decaída, incluindo cada tradição religiosa que haviam mantido com tanto apego.
Alguns acharam tudo incompreensível, amedrontador, enfurecedor e completamente perigoso. Eles acabaram gritando “crucifiquem-No” no final.
Mas outros—ah, outros encontraram Jesus e sentiram a brisa do Paraíso soprar através de seus cabelos, acenando a eles com uma nova vida com Deus. E eles entraram, sem sequer um rápido olhar para ver o que haviam deixado para trás.
Igreja Primitiva: a Vida com Jesus, Continuação
Imagine Uma Vez Mais
Imagine caminhar com Jesus vivendo em Seu povo…
Logo será noite em Jerusalém. O calor prolongado da tarde se mistura ao calor do forno à sua frente. Atrás de você uma brisa fresca entra através de sua janela, trazendo com ela uma insinuação do ar fresco das montanhas nos arredores da cidade. O sol, descendo no céu, inunda com sua luz dourada essa mesma janela, iluminando a cozinha apinhada com um esplendor que combina perfeitamente com o que você está sentindo. Você aprecia os presentes simples—a fragrância do pão assando, a música na risada de um amigo, o começo de um pôr-do-sol perfeito. Ainda assim, a promessa dessa adorável noite de verão não pode explicar a expectativa feliz que surge como uma canção dentro de você. Há outra razão para isso.
Eles estão vindo. A igreja, sua família em Jesus!
É claro que você já viu muitos deles durante este dia. Mesmo agora há diversas mulheres terminando os preparativos para a refeição da noite, enquanto alguns homens estão trazendo alguns poucos móveis simples e diversos tapetes para sentarem. Porém hoje à noite a pequena casa ficará cheia, até transbordar, de seus companheiros fiéis. E quando vocês se reúnem em Seu nome, é como se o próprio Jesus estivesse lá!
Não haverá um roteiro para a noite, da mesma forma que ninguém foi “designado” para “comparecer” à refeição desta noite. Cada dia é fresco e novo. Como o Mestre, Jesus, trabalha em cada vida, Ele reúne as pessoas em uma rede dinâmica e ativa de amor. O tempo juntos nesta noite pode ser improvisado, mas você tem certeza de que será genuíno e mudará vidas.
Alguns falarão sobre os desafios do dia e a fidelidade do Pai ao enfrentá-los. Alguns compartilharão, com excitação e convicção, a maneira como estão aplicando os poderosos ensinamentos que escutaram na noite anterior. Talvez outros compartilhem uma canção que parece se adequar perfeitamente à ocasião. A igreja está cheia de música nestes dias—seja dos antigos salmos de Davi ou das novas expressões de louvor que emanam dos corações gratos dos discípulos. E haverá oração—sempre há oração! Não será uma fórmula estéril, mas uma poderosa conversa com um Deus Vivo. Pode até sacudir a sala!
Ao contrário das cerimônias na sinagoga aos quais você compareceu enquanto crescia, o tempo juntos não terá um “início” ou um “fim”. As interações do dia se unirão perfeitamente com as conversações íntimas durante o jantar. Essas interações, por sua vez, fluirão diretamente para os momentos vigorosos posteriores, quando todo o grupo estará dialogando, e continuarão em conversas mais silenciosas, à medida que os fiéis começarem a voltar para suas casas.
Os irmãos e irmãs estão vindo e você mal pode esperar até que todos cheguem!
Por meio de Seu povo, Jesus mostrará hoje à noite muitas coisas—as maravilhas de Sua cruz, os mistérios de Seu Espírito habitam em nós, as lições de obediência prática e o discipulado diário. A noite será rica. Porém, a maior alegria de todas será simplesmente passar o tempo com Ele em Seu povo. Esse fato dispara seu coração! Você provavelmente não conseguiria explicar para alguém de fora que estivesse olhando—embora já tenha tentado. Mas a verdade descomplicada é que Jesus está vivo em Sua igreja e você tem o extraordinário privilégio de caminhar com Ele dia após dia!
Essa imagem da vida lhe parece boa? Deveria.
Você nasceu para ela—se tiver nascido uma segunda vez!
Um Ponto de Virada
Tudo começou com cinqüenta dias totalmente surpreendentes—primeiro três, depois quarenta, depois sete.
Primeiro, houve três dias de desespero. Suas cenas estão gravadas para sempre em sua memória. Meia-noite no jardim. Promessas vazias e votos ocos. Olhos sonolentos. Suor sangrento. Tochas. Soldados. Um beijo, depois o caos. Mentiras, acusações e zombaria. Varas, açoites e espinhos. Uma caminhada torturante na subida de uma colina árida. Lascas. Cravos. Sangue. Céus enegrecidos. Gritos angustiados. Silêncio. Entorpecimento. Esconderijo. Dúvidas. Medo. Mais medo, e mais ainda.
Depois veio o momento único, o instante eufórico quando você finalmente percebeu que Jesus estava VIVO! Você quis rir, chorar, dançar de alegria e cair de joelhos, tudo ao mesmo tempo. Você poderia viver uma eternidade e jamais esqueceria esse momento—e, de acordo com Jesus, é exatamente isso que seu futuro lhe segura!
Depois disso vieram os quarenta dias de maravilhas. Foi um pouco perturbador—você jamais sabia quando Jesus apareceria, ou onde, ou por quanto tempo ficaria. Mas bem antes das seis semanas terminarem, você estava convencido sem sombra de dúvida de que a ressurreição de Jesus era real. As conversas Dele com você e seus amigos assumiram nova intensidade e foco. Era como se Ele estivesse tentando prepará-lo para algo. Tudo que Ele tinha a dizer sempre voltava a um tópico: o Reino de Deus.
Aí veio outro momento único. Desta vez, não foi eufórico, exatamente—foi mais totalmente surpreendente. Jesus havia dado a você o que parecia ordens de marcha para levar a vida de Seu Reino às pessoas de cada nação sob os céus, instruindo-as e ajudando-as a alinhar seus corações e vidas com Seus ensinamentos. Com as ordens vieram três promessas. Primeira, que o Espírito Santo habitaria em todos vocês. Segunda—e essa parecia relacionada à primeira promessa—que Ele estaria sempre com vocês. E terceira, que Ele voltaria para você. Essa última promessa na verdade foi feita por anjos. Jesus ascendeu aos Céus, onde você tem certeza que agora Ele está sentado à direita do Pai. Essa é a parte surpreendente!
Depois veio a semana de feliz antecipação, quando você e dezenas de outros fiéis fizeram exatamente o que Jesus disse: aguardaram em Jerusalém. Embora Jesus tivesse partido, não havia um sentimento de perda em você—apenas aquela alegria contagiosa. Era a espera, talvez, mas passou tão rapidamente e com grande paz e louvor.
Finalmente veio o qüinquagésimo dia desde a crucificação. Por acaso ocorreu no “dia dos primeiros frutos”, um dos destaques anuais da religião perfeita de Deus. Como era um dia de festa, Jerusalém estava cheia de adoradores naquela manhã, vindos de todo o mundo romano. De repente, todo o céu explodiu! Um tornado invisível de som encheu a sala onde você e os outros amigos de Jesus estavam juntos orando. Uma fração de segundo depois, uma bola de fogo estava pairando no meio do grupo, como se um altar invisível tivesse se incendiado. Alguns momentos depois, o fogo se dividiu em dúzias de chamas individuais, que voaram e pousaram em cada pessoa de seu círculo.
Agora você estava cheio do Espírito Santo, como Jesus havia prometido. Seus louvores em voz alta, gritados em várias línguas que nenhum de vocês havia estudado, atraíram rapidamente uma audiência. Em alguns minutos, as ruas do lado de fora estavam abarrotadas de curiosos. Pedro, primeiro, e depois todos vocês começaram a proclamar Jesus a eles. Alguns ouvintes começaram a “entender”. Depois mais outros. E outros… Em algumas horas, três mil pessoas creram, haviam sido batizados e se uniram a vocês. Admirável!
Mas e daí?
O que se faz com três mil pessoas novas na fé? Eles são todos judeus. Você os manda observar novamente a “religião perfeita de Deus”, com exortações para fazê-lo certo desta vez? Ou você aproveita o momento para começar a “ensiná-los a obedecer tudo que ordenei a vocês”, conforme as instruções de Jesus? E se fizer essa escolha, como continuar? Organiza todos em grupos? Escolhe dias e lugares regulares para que as pessoas se encontrem? Define uma estrutura de liderança piramidal, para garantir que todos recebam pelo menos um ensinamento qualificado? Institui um sacerdócio? Em resumo, você cria uma religião nova e melhorada, semelhante àquelas que conhece, porém baseada nos ensinamentos de Jesus?
Ou, ao invés disso, você tem a coragem de viver da maneira que Jesus viveu com você?
Os apóstolos tinham que tomar uma decisão. Essa decisão seria um dos pontos de virada na história do planeta Terra.
O Lugar Sagrado dos Cristãos: a Ecclesia!
Que tal um lugar sagrado? Os cristãos do primeiro século construíram templos, oratórios, sinagogas ou santuários? A vida de Jesus não se baseava no comparecimento a eventos, baseava-se no relacionamento. Ele havia levado Seus relacionamentos com o Pai e Seus seguidores para fora dos limites dos lugares sagrados designados e para dentro das casas, estradas e mercados de Israel. O Pioneiro de sua fé, Jesus, havia trilhado um novo caminho. Esses primeiros fiéis simplesmente O seguiram.
Nos primeiros dias da igreja de Jerusalém, os fiéis algumas vezes usavam o pátio do templo, uma área aberta de acesso público adjacente ao templo em si. Por algum tempo, os apóstolos continuaram a usar o templo como um local de oração e de alcançar os que não creram ainda na comunidade. Mas mesmo naqueles dias, a vida da igreja estava centrada em outro local: “Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo” (Atos 2:46-47).
Logo, no entanto, a perseguição expulsou permanentemente a maioria dos Cristãos dos “lugares sagrados” de Israel. Quando Saulo de Tarso iniciou sua campanha, a maioria dos fiéis deixou Jerusalém e o templo para trás. Em poucos anos, as sinagogas judias em todo o império começaram a excluir os Cristãos.
Um novo acontecimento teve um impacto ainda maior: milhares de gentios começaram a crer em Jesus, primeiro na Antióquia, depois em centenas de cidades espalhadas por três continentes. Esses novos Cristãos não tinham qualquer noção ou conhecimento histórico dos “lugares sagrados” judeus. Mesmo se tivessem, eram excluídos da adoração no templo em Jerusalém. Em AD 70, toda a questão do templo havia, é claro, se tornada acadêmica. O exército romano responde à revolta dos judeus arrasando Jerusalém, inclusive o templo—que jamais foi reconstruído.
Esses primeiros Cristãos rejeitavam a noção de construir seus próprios templos ou santuários. Os arqueologistas nos contam que a primeira construção conhecida com finalidade religiosa associada ao cristianismo não foi feita até o terceiro século, mais de duzentos anos depois de Jesus ter ascendido até o Pai!
As cenas apresentadas pelo Novo Testamento mostram que os primeiros cristãos, como Jesus, simplesmente vivenciavam sua vida com Deus no “mundo real”. Paulo, por exemplo, diria “Não deixei de pregar-lhes nada que fosse proveitoso, mas ensinei-lhes tudo publicamente e de casa em casa” (Atos 20:20). É nesses lugares que os cristãos se reuniam nas cidades e vilas do império—em diversos locais públicos e residências particulares.
Onde, então, ficava o lugar sagrado dos cristãos? Jesus havia profetizado que chegaria o dia em que a geografia seria irrelevante para a vida espiritual (Lucas 17:20-21; João 4:20-23). Ao contrário, o local da moradia de Deus seria dentro de um povo. E é exatamente assim que os primeiros cristãos se viam. A palavra “igreja”, por exemplo, é ambígua e, portanto, enganadora. Ela pode se referir a várias coisas, sendo que a maioria delas sequer existia quando o Novo Testamento foi escrito. Em seu lugar, os primeiros cristãos usavam a palavra grega ecclesia, que significa “os chamados”. Eles se viam como tendo sido chamados para fora do mundo e reunidos em um novo organismo vivo que tinha Jesus como seu dirigente. O templo—o local especial de morada de Deus—não era mais um local geográfico. Ele estava dentro da ecclesia.
O perseguidor que se tornou apóstolo, Paulo, viu e ensinou essa verdade com grande paixão e clareza:
Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular, no qual todo o edifício é ajustado e cresce para tornar-se um santuário santo no Senhor. Nele vocês também estão sendo edificados juntos, para se tornarem morada de Deus por seu Espírito. (Efésios 2:19-22)
Novamente,
Não se ponham em jugo desigual com descrentes. Pois o que têm em comum a justiça e a maldade? Ou que comunhão pode ter a luz com as trevas? Que harmonia entre Cristo e Belial? Que há de comum entre o crente e o descrente? Que acordo há entre o templo de Deus e os ídolos? Pois somos santuário do Deus vivo. Como disse Deus:
“Habitarei com eles e entre eles andarei; Serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Portanto, saiam do meio deles e separem-se”, diz o Senhor. “Não toquem em coisas impuras, e eu os receberei e lhes serei Pai, e vocês serão meus filhos e minhas filhas”, diz o Senhor todo-poderoso.” (2 Coríntios 6:14-18)
Pedro, que se concentrou mais em ajudar e ensinar cristãos de origem judaica, concordou sinceramente:
À medida que se aproximavam dele, a pedra viva—rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus e preciosa para ele—vocês também estão sendo utilizados como pedras vivas na edificação de uma casa espiritual para serem sacerdócio santo, oferecendo sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus, por meio de Jesus Cristo. Pois assim é dito na Escritura: “Eis que ponho em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa, e aquele que nela confia jamais será envergonhado”. (1 Pedro 2:4-6)
Os primeiros cristãos estavam unidos na crença de que Jesus vivia entre e dentro de Seu povo. E eles não apenas acreditavam nisso, eles o vivenciavam.
O Dia Sagrado dos Cristãos: Hoje!
O que dizer, então, dos dias especiais? A igreja em seus primórdios escolheu um determinado dia da semana como sagrado? Eles distinguiam determinadas estações ou “dias sagrados” como sendo particularmente importantes? A ecclesia de Jesus adotava um “calendário eclesiástico”?
De novo, a resposta é um claro não.
Lembre-se, Jesus ensinou muitas coisas a Seus seguidores, porém a observância de dias especiais não estava nessa lista. Ao contrário, Ele enfatizou a santidade do hoje. Este dia—seja qual for seu nome no calendário—era o dia de se oferecer a Deus em dependência confiante e pacífica (Mateus 6:11, 25, 33-34; Lucas 3:23-24).
Quando Jesus deixou nosso planeta para retornar ao Pai, Ele incitou Seus seguidores a ensinar a cada novo convertido que também obedecesse a Suas instruções. É exatamente isso que eles fizeram sobre essa questão de dias especiais.
Era difícil para os novos cristãos, sem dúvida—em especial para aqueles que tinham uma origem fundamentada em tradições religiosas. Os apóstolos eram pacientes com eles. Quando alguém considerava um dia mais sagrado que os demais, Paulo reconhecia nisso um sintoma de fé “fraca”, mas se recusava a julgá-lo (veja Romanos 14). Mas quando alguém tentou transplantar a observância de dias especial para o cristianismo como uma religião, a tolerância de Paulo subitamente acabou. Ele escreveu às ecclesias Gálatas:
Agora, conhecendo Deus, ou melhor, sendo por Ele conhecidos, como é que estão voltando àqueles mesmos princípios elementares, fracos e sem poder? Querem ser escravizados por eles outra vez? Vocês estão observando dias especiais, meses, ocasiões específicas e anos! Temo que meus esforços por vocês tenham sido inúteis. (Gálatas 4:9-11)
Sim, você ouviu direito o que Paulo disse! Ele chamou a observância de dias religiosos especiais de um princípio “fraco e miserável” para conhecer Deus. O fato de que os gálatas estivessem fazendo isso fez Paulo refletir se os anos de sangue, suor e lágrimas que gastou com eles tinham-nos feito algum bem.
Paulo não estava sozinho nessa atitude. É fascinante que nas primeiras seis décadas do cristianismo, conforme registrado no livro de Atos e nas cartas apostólicas, há apenas três referências aparentes ao primeiro dia da semana, domingo. Apenas uma delas descreve algo parecido com uma reunião de cristãos. E é muito incomum: começou em um dia, continuou por toda a noite, continuou pela manhã seguinte e nela Paulo fez com que um jovem voltasse dos mortos! Um dos dias desse encontro de dois dias por acaso era domingo—já que Paulo estava indo embora da cidade na segunda-feira e não voltaria mais.
Em sessenta anos, isso é tudo.
Os mesmos livros do Novo Testamento mantêm um silêncio total sobre “feriados cristãos”. A data do nascimento de Jesus nem mesmo é registrada e certamente não há menção de que os primeiros cristãos observassem-na durante os séculos posteriores. Da mesma forma, o registro do Novo Testamento nada diz sobre os primeiros cristãos celebrarem o dia da ressurreição ou ascensão de Jesus, ou qualquer outra ocasião.
Quando falam das festas e dias sagrados dos judeus, é para indicar que seus significados foram satisfeitos de maneiras maiores e melhores em Jesus. Jamais é para exortar os outros a observar tais dias.
A Páscoa? Na “religião perfeita” que Deus havia dado aos judeus, ela envolvia um banquete com o sacrifício de um cordeiro e pão não-fermentado. Mas e agora? Paulo disse que Jesus era o “cordeiro da Páscoa” dos crentes. A própria ecclesia era o “pão não-fermentado”, contanto que estivesse repleta de sinceridade e verdade ao invés de “fermento” da malícia e da maldade (1 Coríntios 5:6-8).
E o Sabá? Na “religião perfeita”, era comemorado no sétimo dia da semana, quando Deus havia descansado de Seu trabalho de criação. Mas e agora? Os escritos apostólicos novamente não nos dão nenhuma indicação de que o sabá devia ser transferido para um dia diferente da semana. O autor do livro dos Hebreus afirma que um “descanso do sabá” permanece válido para o povo de Deus, mas não é observada escolhendo um dia da semana. Ao contrário, os crentes entram nesse descanso ao deixar de manter leis religiosas e passar acreditar em Jesus (Hebreus 4:1-11)!
Como seu Pioneiro, para os primeiros discípulos apenas um dia era tido como sagrado—hoje. Por exemplo:
Cuidado, irmãos, para que nenhum de vocês tenha coração perverso e incrédulo, que se afaste do Deus vivo. Ao contrário, encorajem-se uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, de modo que nenhum de vocês seja endurecido pelo engano do pecado (Hebreus 3:7-13).
O dia mais importante na “religião cristã” é sempre hoje, não importa o que diz o calendário. Um modo fundamental de observar a “santidade” de hoje é sair de nós mesmos e descobrir um modo de encorajar, advertir e inspirar um irmão ou irmã.
O encorajamento diário era o lema dos primeiros fiéis durante o século I. Lemos sobre a igreja de Jerusalém:
Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais foram feitos pelos apóstolos. Os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade. Todos os dias continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos. (Atos 2:42-47)
Anos mais tarde, Paulo ainda podia dizer à ecclesia dos Efésios: “Lembrem-se de que durante três anos jamais cessei de advertir cada um de vocês disso, noite e dia, com lágrimas” (Atos 20:31).
Jesus ensinou que cada dia devia ser impregnado com a religião simples da consagração sem interesses próprios e da confiança em um Pai amoroso. É assim que os primeiros cristãos viviam entre si. Afinal, a escolha de outros “dias especiais” era um expediente que eles não precisavam nem queriam.
O Homem Sagrado dos Cristãos: Jesus—e Todos os que Crêem!
O que dizer, então, dos homens especiais? Os primeiros crentes implementaram alguma versão de sacerdócio, como todas as outras religiões mundiais o fizeram—e ainda fazem? Afinal, a súbita afluência de cristãos recém-convertidos requeria algum tipo de liderança que cuidasse deles, não? As primeiras igrejas designaram determinados cristãos como líderes e os deram títulos, cargos e até mesmo salários? Ou, novamente, escolheram um “caminho menos trilhado”, uma trilha raramente usada por seu Líder, Jesus?
Para começo de conversa, deixe-nos afirmar que grandes homens e mulheres da fé—pelo menos segundo a definição de grandeza de Deus—com certeza vagavam pela terra naqueles dias. Eles ofereceram muita ajuda às ecclesias. Sem seus dons e sem a fé com que exerciam tais dons, os primeiros fiéis jamais teriam aumentado da forma que fizeram.
Porém, ao mesmo tempo, deixe-nos também afirmar que de nenhuma forma as primeiras igrejas praticaram a liderança seguindo um modelo de sacerdócio, com uma “casta” profissional do clero. Simplesmente não foi assim que aconteceu.
As últimas ordens de Jesus a Seus seguidores incluíam esta declaração ressoante: “Foi-Me dada toda a autoridade nos céus e na terra” (Mateus 28:18). Os primeiros fiéis sabiam e ensinavam que quando Jesus ascendeu aos céus, o Pai:
…assentou-O à sua direita, nas regiões celestiais, muito acima de todo governo e autoridade, poder e domínio, e de todo nome que se possa mencionar, não apenas nesta era, mas também na que há de vir. Deus colocou todas as coisas debaixo de Seus pés e o designou cabeça de todas as coisas para a igreja. (Efésios 1:20-22)
A autoridade absoluta de Jesus era algo que eles consideravam com muita, muita seriedade. De forma alguma eles aturavam que alguém diminuísse ou subestimasse tal autoridade. Uma das críticas mais severas nas escrituras é a afirmação de João sobre um “líder” chamado Diótrefes: “Ele gosta muito de ser o mais importante entre eles” (3 João 9). João não estava nada satisfeito, prometendo voltar e “chamar a atenção dele para o que está fazendo”. Toda a autoridade pertencia a Jesus. A presunção humana simplesmente não era tolerada nas ecclesias.
Os primeiros fiéis sabiam e eram ensinados sobre algo mais em relação à ascensão de Jesus: “Quando Ele subiu em triunfo às alturas, levou cativos muitos prisioneiros, e deu dons aos homens” (Efésios 4:8). Eles entendiam o que aconteceu naquela manhã de verão em Jerusalém, cinqüenta surpreendentes dias depois da crucificação. Quando o ambiente era preenchido por um vento poderoso e labaredas, Jesus estava derramando Seu Espírito sobre Seu povo (Atos 2:33). Ele estava partilhando Seu Espírito, com todas as facetas maravilhosas de Seu caráter surpreendente, com os seres humanos. Como Paulo explicou:
A cada um é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum. Pelo Espírito, a um é dada a palavra da sabedoria; a outro, pelo mesmo espírito, a palavra do conhecimento; a outro, fé, pelo mesmo Espírito; a outro, dons de curar, pelo único Espírito; a outro, poder para operar milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a outro, variedade de línguas; e ainda a outro, interpretação de línguas. Todas essas coisas, porém, são realizadas pelo mesmo e único Espírito, e ele as distribui individualmente, a cada um, como quer. (1 Coríntios 12:7-11)
Cada um desses dons era Jesus, distribuindo Seu Espírito entre Seus irmãos e irmãs, capacitando-os a ajudar uns aos outros como Ele havia feito. Nesse sentido, cada um desses dons era igualmente Jesus e, portanto, igualmente “autorizada” à sua própria maneira.
A liderança, então, era um desses dons. Como vimos, ela devia ser expressa com autoridade, porém jamais com autoritarismo. Ela abstinha-se de títulos. Era vivida por meio do relacionamento com as pessoas, não do posicionamento acima delas. Sua meta era capacitar as pessoas para que exercessem seus dons, não subjugar outros por meio do controle ou “microgestão”.
É por isso que quando as primeiras ecclesias se reuniam para encorajamento, oração, ensinamentos e adoração, não havia nenhuma indicação de um “palestrante designado” ou “mestre de cerimônias” responsável. As pessoas não eram dividias em “púlpito” e “bancos”. Ninguém controlava a reunião—exceto Jesus.
Aqui temos a melhor descrição de todo o Novo Testamento sobre como os cristãos deviam se reunir:
Portanto, que diremos, irmãos? Quando vocês se reúnem, cada um de vocês tem um salmo, ou uma palavra de instrução, uma revelação, uma palavra em uma língua ou uma interpretação. Tudo seja feito para a edificação da igreja. Se, porém, alguém falar em língua, devem falar dois, no máximo três, e alguém deve interpretar. Se não houver intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus. Tratando-se de profetas, falem dois ou três, e os outros julguem cuidadosamente o que foi dito. Se vier uma revelação a alguém que está sentado, cale-se o primeiro. Pois vocês todos podem profetizar, cada um por sua vez, de forma que todos sejam instruídos e encorajados. (1 Coríntios 14:26-31)
Como as ecclesias deviam se reunir? Todos eram responsáveis por usar seus dons para edificar os outros. Todos os dons eram bem-vindos e valorizados. Havia muitos tipos diferentes de “flores” no “buquê” dos encontros cristãos, e cada um deles era bem-vindo. Nenhuma pessoa dominava individualmente. Cada indivíduo se submetia aos demais, ao ponto de parar no meio de uma sentença se outra pessoa recebesse uma revelação de Deus! Dessa forma, todos “profetizavam em sua vez” e, assim, todos eram “instruídos e encorajados”.
Por todos esses e outros motivos, nas muitas décadas da vida dos primeiros cristãos não surgiu nada que lembrasse, mesmo remotamente, um “sacerdócio profissional” ou clero. Isso era estranho a experiência deles de Jesus. Liderança, sim; um “sistema de casta clerical”, não.
Em relação a “pessoas especiais”, os primeiros fiéis viveram o novo acordo que Deus havia feito com eles por meio de Jesus. Era muito diferente da religião humana, porém era a única maneira de viver que conheciam:
“Essa é a aliança que farei com a comunidade de Israel depois daqueles dias”, declara o SENHOR. “Porei a minha lei no íntimo deles e a escreverei nos seus corações. Serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Ninguém mais ensinará ao seu próximo nem ao seu irmão, dizendo: ‘Conheça ao SENHOR, porque todos eles me conhecerão, desde o menor até o maior”, diz o SENHOR. “Porque eu lhes perdoarei a maldade e não me lembrarei mais dos seus pecados.” (Jeremias 31:33-34)
A “Religião” do Cristianismo é a “Religião” de Jesus
Como era a “vida da igreja” em AD 30-70? Era idêntica, na verdade, à “vida dos discípulos” durante os três últimos anos da existência física de Jesus. A experiência de companheirismo íntimo havia simplesmente sido transplantada geograficamente para as cidades e vilas do império romano.
De acordo com Lucas, o evangelho que ele escreveu descreve o que Jesus “começou a fazer e ensinar” (Atos 1:1). O livro dos Atos, portanto, é o que Jesus continuou a fazer e ensinar, depois de Sua ascensão. Dessa vez Ele estava “fazendo e ensinando” por meio de Seu povo, a ecclesia.
Os fiéis do século I, portanto, viam a si mesmos como continuando a vida que os primeiros seguidores haviam desfrutado com Jesus nas colinas e estradas da Galiléia e da Judéia. Eles ainda eram Sua família espiritual, “assentados ao seu redor” (Marcos 3:34). Eles ainda se apegavam a cada palavra Sua. Eles ainda edificavam suas vidas sobre a fundação de colocar tais palavras em prática. Atos 2:42-49 é na verdade apenas uma descrição de muitos milhares de pessoas colocando juntas Mateus 5-7 em prática.
A “religião” do cristianismo na verdade se destina a ser a “religião” de Jesus. Não é nada mais—e certamente nada menos.
Ao se rebelar no Jardim do Éden, a humanidade perdeu o direito a uma dependência íntima, amorosa, face-a-face de Deus. A religião—com sua categorização de dias, lugares e pessoas em “sagrados” e “seculares”—mostrou-se ser um substituto insatisfatório do Paraíso. Quando Deus ofereceu uma religião perfeita, rica de significado, a raça humana se mostrou incapaz de vivenciá-la. Jesus era a resposta extraordinária de Deus a esse dilema. Pela primeira vez no milênio, os seres humanos tinham uma oportunidade de caminhar com Deus frente-a-frente em amorosa dependência. Quando Jesus voltou aos céus, essa oportunidade não se perdeu. Longe disso! A “Crist-andade” era meramente um nome que as pessoas deram àquela vida de confiança íntima depois da ascensão.
Os primeiros fiéis proclamaram com clareza, coragem e alegria que Jesus morreu, que Ele foi enterrado, que ressuscitou, que ascendeu à direita do Pai e que despejou Seu Espírito em Seus seguidores. Jesus não era um herói morto ou um fundador profundamente amado. Ele estava vivo e muito ativamente envolvido nas vidas de Seu povo.
O cristianismo daqueles dias não precisava de armadilhas religiosas. Ela deixou para trás o paradigma de dias-lugares-homens especiais em favor de uma nova Realidade de relacionamento, com Deus e com Seu povo.
Se você nasceu uma segunda vez, essa vida é sua por direito.
A Próxima Geração: a Força da Gravidade
A Vida da Ecclesia
A espécie humana foi criada com um propósito: amizade com Deus.
Uma vez, em um lugar não tão distante e há não muito tempo, o homem e a mulher viveram com seu Criador em um estado de contentamento pacífico e submissão amorosa. Eles experimentavam o Seu amor e cuidado todos os segundos do dia e em todos os metros quadrados de seu lar paradisíaco. Eles perderam sua razão total de existência, entretanto, com uma tentativa tragicamente estúpida de serem seus próprios deuses. E não funcionou. Os humanos falharam miseravelmente em serem minidivindades independentes.
Porém, em uma mostra surpreendente de criatividade e amor, Deus deu à humanidade uma segunda chance de amizade. Ele começou aparecendo em Pessoa e literalmente caminhando com qualquer um que fosse humilde o suficiente para apreciar a oportunidade. Depois de atingir Seu objetivo por meio da cruz, Ele retornou aos céus. Mas Deus não ficou apenas lá, localizado em uma dimensão inacessível fora de nosso universo. Ao invés disso, Ele se derramou sobre cada homem e mulher que finalmente estava pronto para aceitar a submissão amorosa e confiante que sua espécie havia rejeitado no Jardim do Éden.
Deus criou um novo paraíso, um novo lugar para caminhar em amizade com o homem. Esse lugar era conhecido como a ecclesia, a igreja. Era edificado de uma rede entrelaçada de vidas, unidas diariamente por uma devoção comum a Jesus e ao outro.
O cristianismo desses dias não se parecia com nada que o mundo tivesse visto desde o Éden. Era desconhecida na história: uma raça de pessoas que renunciou à sua autonomia e saudou seu Criador para que entrasse nos recantos e frestas de suas vidas diárias. Eles não tentavam mais confiná-Lo em alguns dias especiais ou em um punhado de lugares especiais. Não criavam mais homens especiais como amortecedores para ficar entre eles e seu Deus. Agora todos os dias chamados “hoje” eram especiais. Todos os lugares onde a ecclesia estivesse, seja “em público” ou “de casa em casa”, era sagrado. Todos os membros “do menor ao maior”, era um “sacerdote real”.
O resultado não era menos que surpreendente.
Pessoas que antes eram cheias de ódio, egoísmo e amargor, agora se amavam umas às outras desesperadamente. Pessoas que antes eram escravizadas por todo tipo de paixão e prazer viciante, agora viviam em liberdade gloriosa. Pessoas que antes adoravam pedras e gravetos, agora tinham um conhecimento íntimo sobre o Deus Vivo.
A ecclesia era o Paraíso restabelecido no meio de um mundo decaído. Era o “paraíso” pela mesma razão que o Éden havia sido: os homens e a mulheres podiam encontrar com seu Criador lá e “caminhar com Ele no frescor do dia”. O Paraíso não significava “utopia”, é claro. Havia problemas. Porém a ecclesia oferecia uma base onde os problemas podiam ser resolvidos. As cartas dos apóstolos às ecclesias locais ocupando as cidades do império romano estavam repletas de instruções e orientações práticas sobre como resolver as causas de qualquer confusão ou desordem. E as pessoas escutavam. Mesmo nas assembléias locais mais fracas e inseguras, as pessoas superavam todos os obstáculos para experimentar a Vida verdadeira (veja, por exemplo, 2 Coríntios 7:5-16).
A igreja do primeiro século pairou com Deus em asas de águia. Mas a força da gravidade jamais foi embora. O mundo decaído—com suas noções pagãs de religião e valores carnais de independência e auto-indulgência—jamais deixou de exercer sua força nos fiéis, tentando arrastá-los novamente para o domínio da humanidade decaída. Por uma geração ou mais, foi como se as ecclesias desafiassem a gravidade. E, de verdade, elas podiam se manter pairando cada vez mais alto com Deus, se assim o desejassem, direto para cima, até o retorno de Jesus. Porém à medida que o final do século se aproximava, o Novo Testamento testemunha que a gravidade do mundo estava começando a ter efeito.
Um pouco antes de AD 70, seis pessoas de extraordinária estatura espiritual—uma delas com uma estatura bastante surpreendente—escreveram cartas advertindo sobre o declínio e exortando as ecclesias a levarem sua fé a um nível mais alto do que jamais haviam conhecido. Essas cartas compõem onze dos últimos livros de nosso Novo Testamento.
Paulo
No passado, Paulo havia sido o maior perseguidor das ecclesias. Mas depois de Jesus muito literalmente derrubá-lo de seu cavalo, Paulo se tornou seu servo mais devotado. Em uma reviravolta surpreendente, o homem que havia dedicado sua vida a esmagar as ecclesias recebeu a atribuição radicalmente diferente de estabelecer e fortalecer novas ecclesias em todo o mundo romano.
O final da existência terrena de Paulo agora se aproximava do final. Logo ele iria morrer nas mãos de um carrasco romano. Antes, no entanto, ele escreveria três cartas a Timóteo e Tito, irmãos que ele considerava fiéis e dotados, para ajudá-los a continuar com o trabalho do evangelho. Ele encheu essas cartas com notas de preocupação e alarme sobre a direção que a igreja parecia estar tomando.
Algumas pessoas já estavam abandonando a Vida e a liberdade do evangelho por uma religião contaminada com a tradição e filosofia humana. Estavam se desviando da simplicidade do “amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera” e se voltando para “discussões inúteis” (1 Timóteo 1:3-7). Eles desenvolveram um “interesse doentio por controvérsias e contendas acerca de palavras, que resultam em inveja, brigas, difamações, suspeitas malignas e atritos constantes”. Eram agora homens “que têm a mente corrompida e que são privados da verdade, os quais pensam que a piedade é fonte de lucro” (1 Timóteo 6:3-5). Na verdade, um desejo de ganhar uns trocos negociando Deus parecia ser sua principal motivação (Tito 1:10-11). Eles já haviam “naufragado” sua própria fé e agora ameaçavam a fé de outros (1 Timóteo 1:18).
Essas pessoas ainda eram uma minoria pequena, embora problemática. Mas Paulo podia antever um dia em que muitos outros também se recusariam a “suportar a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos” (2 Timóteo 4:3-4).
Os resultados seriam catastróficos:
O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios. Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e mentirosos, que têm a consciência cauterizada e proíbem o casamento e o consumo de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ação de graças pelos que crêem e conhecem a verdade. (1 Timóteo 4:1-3)
E novamente:
Nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis. Os homens serão egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem, traidores, precipitados, soberbos, mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder. (2 Timóteo 3:4)
O conselho de Paulo para Timóteo? “Afaste-se desses também.” Paulo não estava falando da “tribulação” em um século distante, mas de um tempo que ele previa plenamente que Timóteo viveria para ver. Lembre-se, para os primeiros Cristãos, os “últimos dias” já haviam começado (Atos 2:17, Hebreus 1:2, Tiago 5:3).
Como que Paulo tentava preparar esses irmãos—e, através deles, a igreja como um todo—para a crise vindoura? Ele os lembrava das fundações rochosas do evangelho que havia passado a eles. Reforçava a importância fundamental da ecclesia, “o pilar e a fundação da verdade”, e fornecia orientações práticas para ensinar seus membros a funcionar como uma unidade saudável. Enfatizava com firmeza em cada carta que a liderança é reconhecida pelo caráter e fecundidade pessoal, não conferido por um cargo ou título ou função. E os animava para o trabalho extenuante que teriam com algumas das exortações mais inspiradoras de toda a Bíblia.
Paulo não era um derrotista. Ele permaneceu, até o final, como um homem de visão, fé e esperança. Entretanto, à medida que a primeira geração de Cristãos passava o bastão para a segunda, Paulo ficava profundamente preocupado. A vitória final da igreja era certa; Deus “esmagará Satanás debaixo dos pés de vocês”. Mas será que as próximas poucas gerações estariam prontas para superar o mal? A ecclesia permaneceria um “jardim” onde Deus e o homem poderiam caminhar com intimidade? Ou estava se desviando em direção a um futuro infeliz?
Pedro e Judas
Outros homens de Deus também estavam ponderando sobre as mesmas questões ao mesmo tempo. Pedro, como Paulo, havia sido um participante maravilhado de alguns dos derramamentos mais fortes do poder de Deus em sua geração ou qualquer outra. Pedro havia caminhado sobre as águas. Ele havia experimentado o milagre do Pentecostes. Foi libertado da prisão por um anjo. Viu o Espírito Santo se despejar sobre os gentios. Testemunhou os mortos levantarem—física e espiritualmente. Ninguém precisava convencer Pedro sobre o poder de Deus. Ele tinha vivenciado esse poder desde o primeiro momento que encontrou Jesus. Era impossível para Pedro ser pessimista, porém, mesmo assim, à medida que sua vida se aproximava do final, ele também passou a compartilhar a preocupação profunda de Paulo de que a igreja estava se dirigindo para uma encruzilhada crucial na estrada.
Pedro respondeu com um par de cartas abertas, não endereçadas a um indivíduo ou mesmo a uma ecclesia específica, mas aos fiéis de toda a metade oriental do império romano. Sua primeira carta, escrita em torno de AD 64, tinha como objetivo fortalecer as ecclesias nas fundações de sua fé e firmar seu suporte espiritual frente à perseguição. Mas sua segunda carta, escrita apenas um ou dois anos depois, tinha um tom bem mais urgente de advertência. Algo havia ocorrido—no ambiente de Pedro ou em seu espírito—para aumentar sua preocupação quanto ao futuro das ecclesias. Ele sabia que menos de um ano depois iria “deixar o tabernáculo de seu corpo (2 Pedro 1:13-14) e tinha algumas coisas que precisava dizer antes de partir do planeta.
Pedro começa essa segunda carta com fortes exortações para que os cristãos “empenhem-se para acrescentar à sua fé” um crescimento prático em direção à maturidade. Ele os desafia a permanecer fiéis às profecias das escrituras e ao testemunho dos apóstolos. Porém sua principal ênfase está em uma vigorosa advertência sobre os desafios que logo eles iriam enfrentar dos falsos líderes, mestres e “zombadores” que desorientariam completamente a igreja se deixados sem freios:
Surgirão entre vocês falsos mestres. Estes introduzirão secretamente heresias destruidoras, chegando a negar o Soberano que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. Muitos seguirão os caminhos vergonhosos desses homens e, por causa deles, será difamado o caminho da verdade. Em sua cobiça, tais mestres os explorarão com histórias que inventaram. Há muito tempo a sua condenação paira sobre eles, e a sua destruição não tarda. (2 Pedro 2:1-3)
As pessoas que leram essas palavras eram “amigos queridos” de Pedro e ele estava confiante de que eles “já sabiam” como não se desviar para a falsa religião. Mesmo assim, ele sentia a necessidade urgente de alertá-los: “Guardem-se para que não sejam levados pelo erro dos que não têm princípios morais, nem percam a sua firmeza e caiam. Cresçam, porém, na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 3:17-18).
As ecclesias estavam realmente sob o risco de serem “levadas” pelo erro religioso? Elas poderiam “cair” de sua posição “firme”?
Pedro não era o único que pensava assim. O meio-irmão de Jesus, Judas, escreveu uma carta bastante similar, provavelmente mais ou menos um ano depois da carta de Pedro. Na verdade, Judas pode ter lido a carta de Pedro e enviado sua própria versão mais curta para reforçar as advertências que Pedro havia dado. Sem dúvida, Judas expressou exatamente as mesmas preocupações, com um texto semelhante:
Amados, embora estivesse muito ansioso por lhes escrever acerca da salvação que compartilhamos, senti que era necessário escrever-lhes insistindo que batalhassem pela fé de uma vez por todas confiada aos santos. Pois certos homens, cuja condenação já estava sentenciada há muito tempo, infiltraram-se dissimuladamente no meio de vocês. Estes são ímpios, e transformam a graça de nosso Deus em libertinagem e negam Jesus Cristo, nosso único Soberano e Senhor. (Judas 3-4)
O restante da carta curta, porém poderosa, de Judas enfatiza sua preocupação de que seus “amados” precisem se lembrar “do que foi predito pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo”: ‘Nos últimos tempos haverá zombadores que seguirão os seus próprios desejos ímpios.’ Estes são os que causam divisões entre vocês, os quais seguem a tendência da sua própria alma e não têm o Espírito” (Judas 17-19)
Judas exortou seus leitores a “edificarem-se na santíssima fé que têm” (Judas 20. Deus era capaz de “impedi-los de cair” (Judas 24), mas a possibilidade da força da gravidade os puxar para baixo e tirá-los de sua posição firme era muito real.
O Autor do Livro de Hebreus
Mais ou menos na mesma época, um autor anônimo escreveu outra carta aberta endereçada aos santos de origem judaica. Nós chamamos esse texto de o livro dos Hebreus. Podemos não saber o nome do autor, porém sabemos com certeza que ele tinha uma revelação profunda de Jesus e uma preocupação igualmente profunda com o estado atual e a direção futura da igreja. Esse autor, também, sentiu que a força do mundo estava afetando as ecclesias. “É preciso que prestemos maior atenção ao que temos ouvido”, escreve ele, “para que jamais nos desviemos. Porque, se a mensagem transmitida por anjos provou a sua firmeza, e toda transgressão e desobediência recebeu a devida punição, como escaparemos, se negligenciarmos tão grande salvação?” (Hebreus 2:1-3)
É o mesmo sentimento que vemos nas últimas cartas de Paulo, Pedro e Judas: a igreja estava em risco porque estava se desviando de algo crucialmente importante.
De um lado, os cristãos estavam perdendo seu apego aos ensinamentos básicos fundamentais de Jesus e Seus apóstolos:
Temos muito que dizer, coisas difíceis de explicar, porque vocês se tornaram lentos para aprender. Embora a esta altura já devessem ser mestres, vocês precisam de alguém que lhes ensine novamente os princípios elementares da palavra de Deus. Estão precisando de leite, e não de alimento sólido! Quem se alimenta de leite ainda é criança, e não tem experiência no ensino da justiça. Mas o alimento sólido é para os adultos, os quais, pelo exercício constante, tornaram-se aptos para discernir tanto o bem quanto o mal. (Hebreus 5:11-14)
O autor se sentiu compelido a dar a seus leitores precauções rígidas contra dedicar-se a falsos ensinamentos: “Não se deixem levar pelos diversos ensinos estranhos. É bom que o nosso coração seja fortalecido pela graça, e não por alimentos cerimoniais, os quais não têm valor para aqueles que os comem” (Hebreus 13:9).
Os leitores também estavam sendo atraídos por tentações mundanas e pecados. O autor do livro de Hebreus lhes dá essa advertência severa:
Para aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, tornaram-se participantes do Espírito Santo, experimentaram a bondade da palavra e Deus e os poderes da era que há de vir, e caíram, é impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento; pois para si mesmos estão crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitando-o à desonra pública. (Hebreus 6:1-4)
Que palavras fortes! Os cristãos do século I haviam desfrutado de uma vida espiritual vigorosa. Haviam “experimentado os poderes da era que há de vir”. Quantos cristãos desde aquela época podem dizer honestamente isso? E ainda assim sua posição espiritual estava longe de ser firme.
Além de expressar uma preocupação profunda sobre o direcionamento espiritual de seus leitores, o que o autor do livro dos Hebreus fez para ajudá-los a mudar as coisas?
Primeiro, o autor enaltece Jesus, descrevendo em uma linguagem clara como Ele era tanto o sacrifício para o pecado como também o Sumo Sacerdote que ofereceu tal sacrifício. As palavras “Jesus” e “hoje” aparecem várias vezes na carta. Os leitores precisavam entender que Jesus estava vivo e continuamente disponível, que um relacionamento “aqui e agora” com Deus era sempre possível através Dele.
Depois, o autor destaca a importância vital da ecclesia como fortaleza de Deus para derrotar o maligno. Se cada cristão vivesse no encorajamento e exortação diariamente de irmãos e irmãs, a atração do pecado perderia seu poder de enganar (Hebreus 3:12-14). Além disso, cada membro da igreja devia assumir a responsabilidade pessoal de considerar como inspirar e motivar seus companheiros na fé em direção ao amor e às boas obras (Hebreus 10:24-25).
Finalmente, o autor exortou seus leitores a buscar nos heróis passados da fé a inspiração para os desafios futuros (Hebreus 11). Eles não deviam apenas manter sua posição, mas pressionar ainda mais para cima: “Por isso, não abram mão da confiança que vocês têm; ela será ricamente recompensada. Vocês precisam perseverar, de modo que, quando tiverem feito a vontade de Deus, recebam o que Ele prometeu” (Hebreus 10:35-36).
A necessidade daquele momento, a julgar por todas essas cartas, era uma alteração decisiva do foco para a Pessoa e os ensinamentos de Jesus, uma lealdade firme à Vida da ecclesia local, uma rejeição clara da decepção religiosa e um compromisso sincero de seguir adiante na fé.
João
Cedo na vida, João—“o apóstolo que Jesus amava”—desfrutou de uma profunda amizade com seu Mestre. Por três anos, o “bando de irmãos e irmãs” que seguia Jesus havia experimentado “caminhar com Deus no frescor do dia”. João, mais do que qualquer outro, tinha compreendido o imenso privilégio que eles haviam tido. Ele jamais se afastava de Jesus. João esteve com Jesus na Montanha da Transfiguração e com Ele no Monte das Oliveiras. João foi um dos poucos a arriscar sua vida para ficar perto do pés da cruz. Ele também foi o primeiro apóstolo a acreditar que Jesus havia levantado dos mortos. João, junto com Pedro, estava na linha de frente de proclamação do Cristo ressuscitado por toda a Judéia e Samaria. Ele foi um pilar da ecclesia de Jerusalém.
João sabia o que viver “aqui e agora” com Jesus significava, não apenas quando Jesus estava vivendo em Seu corpo físico, mas também quando Ele estava vivendo em Seu Corpo, a igreja. Ele entendeu como era criticamente importante que as ecclesias rejeitassem a estrada baixa da religião e, ao invés disso, pressionarem cada vez mais para o alto, com seu Senhor.
Não há dúvidas sobre porque, à medida que a primeira geração de fiéis dava passagem à segunda e à terceira gerações, João se sentia tão profundamente preocupado sobre o que via. Ele, também, percebeu um “desvio”. Em resposta, escreveu três cartas que foram preservadas em nosso Novo Testamento—duas notas curtas de advertência para locais específicos e uma carta longa enviada para as ecclesias em geral. Não foi por coincidência que João escreveu suas cartas no mesmo momento que Paulo, Pedro e Judas estavam escrevendo sobre suas próprias preocupações.
Na primeira carta memorável, João apresenta em termos claros diversos testes planejados para diferenciar o cristianismo genuíno da mera religião. Jesus era real. João tinha ouvido, visto e tocado Ele. O companheirismo com Jesus aqui e agora podia ser igualmente real. Mas exigia viver na luz—chamando pecado de pecado e vir à Jesus para obter perdão com honestidade e exposição, sempre que alguma treva surgisse na vida daquele que Crê. Significava obedecer a Jesus na vida prática diária. Na verdade, significava viver do modo como Jesus viveu. Exigia um amor constante e uma rejeição inflexível—amor pelos irmãos e irmãs e rejeição do mundo e de seus caminhos. Pedia uma expectativa ansiosa pela volta de Jesus e uma busca apaixonada da pureza como preparação para Sua vinda.
Um relacionamento real com Jesus sempre muda a vida de uma pessoa, de acordo com João. Afinal, Jesus veio ao planeta Terra para “destruir as obras do diabo”. É exatamente isso o que Ele também iria fazer ao entrar na vida de uma pessoa.
João estava determinado a elevar o padrão do Cristianismo genuíno. Ele também queria advertir os fiéis sobre a falsa religião que podia ver labutando na igreja. Como imperativo, afirmava às ecclesias que “não creiam em qualquer espírito”. Ao invés disso, elas devem examinar “os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo” (1 João 4:1).
Ele os incitava:
Filhinhos, esta é a última hora e, assim como vocês ouviram que o anticristo está vindo, já agora muitos anticristos têm surgido. Por isso sabemos que esta é a última hora… cuidem para que aquilo que ouviram desde o princípio permaneça em vocês. Se o que ouviram desde o princípio permanecer em vocês, vocês também permanecerão no Filho e no Pai. E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna. Escrevo-lhes estas coisas a respeito daqueles que os querem enganar. Quanto a vocês, a unção que receberam dele permanece em vocês, e não precisam que alguém os ensine; mas, como a unção dele recebida, que é verdadeira e não falsa, os ensina acerca de todas as coisas, permaneçam nele como ele os ensinou. (1 João 2:18-27)
Ele ecoou o mesmo tom de advertência em uma breve carta para uma ecclesia local específica, no documento que agora chamamos de 2 João:
Muitos enganadores têm saído pelo mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em corpo. Tal é o enganador e o anticristo. Tenham cuidado, para que vocês não destruam o fruto do nosso trabalho, antes sejam recompensados plenamente. Todo aquele que não permanece no ensino de Cristo, mas vai além dele, não tem Deus; quem permanece no ensino tem o Pai e também o Filho. Se alguém chegar a vocês e não trouxer esse ensino, não o recebam em casa nem o saúdem. Pois quem o saúda torna-se participante das suas obras malignas. (2 João 7-11)
Havia um rumor circulando durante o século I de que João jamais morreria, mas permaneceria na terra até o retorno de Jesus. João sabia que isso não era verdade. Ele percebeu que seus dias restantes eram poucos. Ele também percebeu como era grave o risco que a igreja já corria frente à força gravitacional do mundo e da religião humana carnal. É por isso que trabalhou tanto para recalibrar a compreensão dos cristãos sobre qual era o significado do cristianismo. Havia um risco real de que algo imensamente precioso—algo que João tinha ouvido, visto e tocado—pudesse ser esquecido nas gerações vindouras.
O Próprio Jesus
Os anos passaram. O final do século I se aproximava com rapidez. Pedro e Paulo já tinham sido “promovidos” para uma moradia em tempo integral nos domínios celestiais. Toda a primeira geração de discípulos também já havia virtualmente deixado o planeta Terra. João era um dos poucos que ainda estavam aqui. Como o idoso “discípulo que Jesus amava” estava no exílio na ilha de Patmos, seu Mestre decidiu dar a ele uma última tarefa: escrever o texto que hoje chamamos de Apocalipse.
Jesus começou Sua visita a João ditando sete cartas memoráveis, endereçadas a sete ecclesias locais da Ásia Menor. Dessa vez, elas não foram assinadas por João, mas sim pelo próprio Jesus. Essas cartas oferecem uma visão do “estado da igreja” em toda a região em torno do AD 90. A imagem mostrada é inquietante: cinco das sete ecclesias recebem uma advertência ou reprimenda de Jesus.
Há pelo menos duas tendências perturbadoras. Primeiro, há um desvio difuso em direção aos falsos ensinamentos. O que os apóstolos previram estava acontecendo. Falsos apóstolos, “nicolaítas” e “Jezabel” estavam tentando espalhar mentiras como se fossem algum “segredo profundo”. Eles atraíam muitos para as noções pagãs da “religião misteriosa”, que basicamente nada mais eram do que uma gratificação medíocre dos apetites carnais. Esses falsos mestres estavam fazendo incursões alarmantes em diversas ecclesias e na maioria delas estavam sendo “tolerados”. Jesus não estava satisfeito.
Segundo, havia uma letargia espiritual rasteira e a inércia começava a se estabelecer. Jesus repreendeu uma ecclesia por estar morta, outra por estar morna e uma terceira por abandonar seu primeiro amor. As ecclesias tinham ignorado muito as advertências dos apóstolos e dos profetas. Estavam permitindo que a gravidade do mundo pagão as rebaixassem para o seu nível. Algo precisava ser feito, e logo. Jesus os incitou: “Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio”.
Jesus faz então uma advertência que inclui algumas das palavras mais alarmantes das escrituras: “Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do lugar dele” (Apocalipse 2:5).
O termo “candelabro” é uma palavra figurativa que representa a identidade dessas assembléias locais de fiéis como ecclesias à vista de Deus (veja Apocalipse 1:12-20). Quando Jesus disse que removeria seu candelabro, Ele os estava avisando que se o declínio espiritual atual continuasse, pelo menos uma das sete igrejas logo perderia o direito de ser chamada de ecclesia! Eles poderiam continuar indefinidamente como uma sociedade religiosa, porém não seriam mais uma igreja genuína. Jesus não caminharia mais entre eles, em amizade.
O paraíso seria novamente perdido.
Foi um século notável, que começou com o nascimento de Jesus, continuou com Sua vida, morte e ressurreição, prosseguiu com o estabelecimento da ecclesia como Sua morada na terra e culminou com a dispersão da vida na ecclesia através do mundo romano. Durante esses poucos anos notáveis, Deus reverteu a maldição que havia pendido sobre a raça humana por milênios.
Mas o que essa nova raça da humanidade faria com esse presente precioso? Com o começo do próximo século, eles se elevariam a novas alturas com Deus? Ou deixariam que a gravidade os arrastasse de sua “posição firme” em Jesus?
O Paraíso Esquecido: o Cristianismo se Torna Religioso
Paganismo Romano
À medida que suas legiões se espalhavam por três continentes, “Roma, a conquistadora, foi conquistada”. Sempre que uma nova cultura era absorvida, suas práticas e crenças afetavam profundamente o império cada vez mais pluralista. A religião com certeza não era uma exceção. Se você vivesse em Roma durante os séculos II e III, teria um “cardápio” de religiões à disposição para escolher a sua. Na realidade, no entanto, a maioria das religiões eram preparadas com os mesmos poucos ingredientes. Apenas a “apresentação” mudava.
O principal ingrediente e o pressuposto subliminar de cada religião pagã era o politeísmo. Havia literalmente centenas de “deuses” e “heróis” semidivinos. Acreditava-se que cada um tinha autoridade sobre uma área específica do mundo natural ou da sociedade humana. Alguns eram poderosos e governavam os oceanos, ou o sol, ou o céu. Outros eram muito mais locais, com uma esfera de influência que poderia não passar de um rio ou colina específico. Mas todos eram considerados divinos e achava-se apropriado adorar a um ou a todos eles—e é por isso que o império podia acolher tão facilmente novas religiões na mistura pagã.
Há outro pressuposto essencial no paganismo: os “deuses” têm um temperamento difícil e você não gostaria de vê-los zangados. Eles eram mesquinhos, ciumentos, voláteis e criminalmente despreocupados sobre os “efeitos colaterais” de suas fúrias. Sua cidade era ameaçada por saqueadores bárbaros? Era porque o “deus da guerra” estava aborrecido com algo. Melhor amarrar seu ídolo com correntes para prendê-lo! Uma praga estava devastando toda a sua região? Provavelmente a “deusa terra” estava ressentida com o fato de que o “deus sol” tinha matado seu filho centenas de anos atrás. Melhor fazer uma estátua do “deus sol” segurando um arco e flechas para que ele pudesse “atingir” a doença. Um terremoto danificou sua cidade, derrubando até os pilares de um dos templos pagãos? Obviamente o “deus dos tremores” estava zangado com o “deus” daquele templo. Melhor convocar um terceiro “deus” para repreendê-lo por vocês.
Esses cenários não são ficção. São exemplos reais da história romana, que mostram como as pessoas interpretavam as crises. E demonstram duas outras crenças centrais do paganismo.
Primeiro, o sofrimento humano não foi causado por pecado humano, mas por pecado “divino”. Nos mitos gregos e romanos, os “deuses” e “heróis” cometiam atos de assassinato, infanticídio, imoralidade, trapaça e traição. Sua fúria imprevisível aos humanos ou entre si era a verdadeira fonte da miséria humana. E segundo, o importante na religião é agradar aos “deuses” com o ritual apropriado realizado no local e dia apropriados. A santidade pessoal em pensamento e conduta, 24 horas por dia, 7 dias por semana, não era na verdade necessária. Os “deuses” não se importavam se seus pensamentos não tinham cobiça ou luxúria enquanto você caminhava pelo mercado. Eles estavam muito mais preocupados em ter seu respeito quando você passasse por seus santuários. A religião, então, era muito parecida com repartições públicas: resumia-se em saber como manter do seu lado um chefe mau-humorado—que podia determinar o seu sucesso ou a sua ruína.
Em uma típica cidade romana, era possível adorar a “denominação” pagã de sua escolha, com diversos templos e santuários dedicados a vários “deuses”. O templo teria um ídolo de alguma espécie e um altar, abrigado em uma estrutura ornamentada. Em termos práticos, agradar aos “deuses” significava manter seus ídolos limpos e em ordem, oferecendo a eles sacrifícios animais diários e honrando-os com festivais especiais. Uma vez por ano, talvez, o ídolo seria levado em procissão pela cidade, liderada por “equipes de adoração” especiais compostas por músicos, cantores e dançarinos.
Os templos ou santuários também eram um local em que se poderia procurar aconselhamento religioso. Em alguns, podia-se jogar dados ou escolher letras do alfabeto, que levariam a uma escolha a partir de uma lista de respostas gerais, parecidas com os biscoitos da sorte em um restaurante chinês. Outros santuários tinham oráculos muito mais elaborados. Cidades a centenas de quilômetros enviavam delegações inteiras, incluindo meninos cantores, para o oráculo a fim de perguntar como evitar uma praga ou encerrar um período de fome. Indivíduos também podiam fazer a peregrinação para consultar sobre seus negócios futuros ou apresentar questões filosóficas. Esses santuários combinavam o conceito de “lugar especial” e “homens especiais”. Um oráculo típico necessitava dos serviços de um “sacerdote” para a realização de sacrifícios, de um “profeta” para resmungar e murmurar incoerentemente e um “thespode” (“mensageiro”) para interpretar esses ruídos de pretensa inspiração e recitá-los em um verso ou dois de poesia grega para os clientes pagantes.
Deus, então, era visto nem como amigável, nem como acessível ou imediato. Ele era—ou, na visão pagã, “eles eram”—quase confinados com segurança na “caixa” oferecida pela religião. O paganismo romano ilustra claramente o que aconteceu com a sociedade humana após a Queda. A humanidade sentia em seu coração a separação de Deus. Os seres humanos não podiam negar a existência de Deus ou sua própria necessidade do favor Dele para sobreviver em um planeta decaído. Ainda assim, os humanos lutavam pelo máximo de independência de Deus que conseguissem. A solução era a religião. Os cidadãos do império ligavam a noção de “deus” a determinados lugares e dias especiais e a rituais conduzidos por especialistas treinados. Ao participar dessa religião, eles esperavam evitar a fúria divina e conseguir a bênção divina para suas colheitas e famílias e cidades. Essa religião externa os “libertava” da necessidade de se preocupar sobre o pecado pessoal ou a submissão a Deus em qualquer base diária íntima.
A deformação pagã da teologia explica porque eles odiavam tanto os primeiros cristãos: esses seguidores do carpinteiro crucificado eram “ateus” que se recusavam a honrar os “deuses” com a adoração ritualística. Ao serem tão teimosos, os cristãos estavam convidando desastre. Ninguém se importava com o que eles acreditavam; o império estava aberto para absorver outra religião. Porém a rejeição deles à tradição e sua recusa em fazer até mesmo uma oferenda simbólica de incenso eram vistas como uma ameaça à sociedade. Terremotos, fome, pragas e guerra podiam a qualquer momento dizimar o império mais avançado cultural e tecnologicamente que o mundo jamais tinha visto. Se isso acontecesse, seria porque os cristãos tinham insultado os “deuses”.
Entretanto, respeito era a última coisa que os primeiros cristãos sentiam pelo paganismo. Os cristãos não eram na verdade “ateus” em relação aos “deuses” de Roma. Eles rejeitavam a noção de que um ídolo poderia ser um “deus”, mas aceitavam que havia, no entanto, algum tipo de poder espiritual operando nas religiões pagãs. Como Paulo escreveu, “meus amados irmão, fujam da idolatria… Será que o sacrifício oferecido a um ídolo é alguma coisa? Ou o ídolo é alguma coisa? Não! Quero dizer que o que os pagãos sacrificam é oferecido aos demônios e não a Deus, e não quero que vocês tenham comunhão com os demônios” (1 Coríntios 10:14, 19-20).
Sim, você ouviu direito: Paulo chamou os “deuses” romanos de demônios, e essa linguagem não era mais politicamente correta no império romano pluralista do século I do que seria no mundo ocidental pluralista de nossos dias. Os autores e mestres cristãos dos séculos II e III concordavam com Paulo. Em suas disputas com os pagãos, eles não tentavam negar as histórias de milagres associadas a determinados santuários ou ídolos. No entanto, eles atribuíam esses milagres ao poder de demônios. As religiões pagãs não incluíam o conceito de um diabo ou demônio, mas os cristãos consideravam que toda a adoração pagã era direcionada para as “forças espirituais do mal em domínios celestiais”.
Durante esses séculos, os cristãos eram uma pequena minoria “dentro, porém não de” um mundo hostil. Eles sofriam ameaças internas e externas: internas, pela “atração gravitacional” da carne humana pela religião humana, e externas, pela pressão de uma maioria pagã antagônica.
“Indo para a Igreja” com a Nova Geração
Não devemos certamente pensar que os cristãos durante esse período diminuíram seus padrões e se misturaram felizes com o paganismo. Na verdade é exatamente o oposto; eles de fato se esforçaram bastante para permanecerem separados. Os cristãos que visitavam ou se mudavam para uma comunidade não eram acolhidos nas assembléias sem pelo menos uma boa carta de recomendação e um voto de confiança de no mínimo um membro. Durante as reuniões, muitas igrejas colocavam sentinelas na porta para desencorajar a entrada de pessoas não-aprovadas. Essas práticas eram comuns não apenas durante os períodos de perseguição, mas também em tempos de paz, conferindo aos cristãos o rótulo de “exclusivos”, dado por seus vizinhos pagãos zombeteiros.
A conversão à fé jamais ocorria com um pagão decidindo “ir à igreja”, onde ele ouvia um bom “sermão” e um chamar para “vir à frente” para depois orar com um “conselheiro”. Essas práticas modernas eram totalmente desconhecidas durante os séculos II e III. Em vez disso, a conversão era um aprendizado rigoroso de três anos, durante os quais o candidato recebia instruções para parar de pecar e era observado de perto quanto a qualquer lapso de comportamento. Os aprendizes recebiam ensinamentos sobre os fundamentos da fé, mas não tinham permissão para se encontrar com a igreja, para participar da Ceia do Senhor ou mesmo para receber o batismo até que o período experimental de três anos tivesse decorrido.1
É seguro dizer, então, que os cristãos durante essa era permaneceram leais ao conceito de ser uma “nação sagrada” e um “povo separado”. Mas e as advertências dos apóstolos e profetas—e do próprio Jesus—que finalizaram a revelação do Novo Testamento? Os “tempos terríveis” por eles previstos passaram? Um modo de responder a essa questão é olhar para as marcas da religião humana. Esses cristãos se desviaram de uma vida entrelaçada de submissão e confiança simples? Ou eles, ao contrário, compartimentalizaram a vida e designaram determinados lugares, dias ou pessoas como “especiais” e o resto, por implicação, como “comuns”?
Em relação aos “lugares sagrados”, a resposta parece ser “não”. Disto temos certeza: não havia “prédios de igreja” construídos em terras públicas até o final do século III—nenhum. Os cristãos continuavam se encontrando principalmente em residências. As únicas indicações de que a vida espiritual estava começando a ser tornar “localizada” em lugares especiais surge perto do final desse período, quando cristãos bem-intencionados passaram a remodelar suas casas para acomodar reuniões maiores. Os arqueologistas nos contam que na cidade de Duro-Europos, perto do Eufrates, os cristãos começaram a se encontrar em uma residência particular com uma sala que podia acomodar cerca e trinta pessoas. Em algum momento em torno do ano 240, o proprietário da casa fez algumas reformas, derrubou uma parede para criar uma sala maior, que poderia acomodar sessenta. Uma banheira também foi instalada em ocasião próxima a essa, presumivelmente para ser usada em batismos. Mas essa estrutura ainda permanecia como uma residência particular. Não era um “santuário” ou “prédio da igreja”, muito menos uma catedral. Não há nenhuma sugestão, nem da arqueologia, nem dos numerosos escritos dos primeiros cristãos, que tais estruturas existissem por mais de dois séculos após o Pentecostes.
Em relação a “dias especiais”, no entanto, encontramos evidências significativas de que “a fé uma vez por todas confiada aos santos” estava se metamorfoseando com regularidade em algo muito diferente. Para os primeiros cristãos, lembre-se, o “dia sagrado” era qualquer dia chamado “hoje”. Mas na metade do século II, lemos a primeira referência conhecida ao domingo como um dia especial para os cristãos. Ela vem da pena de Justino, um filósofo pagão convertido que ensinava teologia em Roma.
O domingo é o dia em que nos reunimos, pois é o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o mundo; e porque Jesus Cristo, nosso Salvador, neste mesmo dia, ressuscitou dos mortos. Pois Ele foi crucificado na véspera de sábado; e, no dia seguinte ao de sábado, que é domingo, Ele ressuscitou. (Justino Mártir, A Primeira Apologia, capítulo 67)
Foram necessárias cinco gerações após o Pentecostes. Mas em Roma, pelo menos, havia nascido um “dia sagrado dos cristãos” e com um irmão gêmeo conhecido como “culto dominical”. Era um acontecimento de importância histórica. O cristianismo sempre havia se concentrado no relacionamento, não nos encontros. A mudança estava a caminho.
Um trabalho da Síria, do século III, chamado “Didascalia”, fornecia regras para o culto de adoração. Era preciso atribuir um ambiente para permanência em pé ou sentado para idades e gêneros específicos. Um leitor devia ficar “em algum lugar alto” e apresentar duas passagens do Antigo Testamento. Depois um solista devia cantar alguns Salmos, com as pessoas “participando na conclusão dos versos”. Os cânticos eram seguidos por leituras do Novo Testamento. A congregação devia se levantar, voltada para o leste, e orar. Depois dos membros se saudarem com um beijo, eles deviam avançar “em fileiras” para compartilhar do pão e do vinho. Aparentemente não se esperava que o culto fosse muito excitante; um diácono era indicado para “supervisionar as pessoas para que ninguém sussurrasse, nem cochilasse, nem risse, nem se distraísse; pois todos devem permanecer na igreja em pé sensatamente, sóbrios e atentos, com sua atenção fixada na palavra do Senhor”.
Compare essa descrição com a única instrução de todo o Novo Testamento sobre como os cristãos deviam tratar suas reuniões corporativas, encontrada na correção de Paulo da ecclesia dos coríntios:
Portanto, que diremos, irmãos? Quando vocês se reúnem, cada um de vocês tem um salmo, ou uma palavra de instrução, uma revelação, uma palavra em uma língua ou uma interpretação. Tudo seja feito para a edificação da igreja. Se, porém, alguém falar em língua, devem falar dois, no máximo três, e alguém deve interpretar. Se não houver intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus. Tratando-se de profetas, falem dois ou três, e os outros julguem cuidadosamente o que foi dito. Se vier uma revelação a alguém que está sentado, cale-se o primeiro. Pois vocês todos podem profetizar, cada um por sua vez, de forma que todos sejam instruídos e encorajados. O espírito dos profetas está sujeito aos profetas. Pois Deus não é Deus de desordem, mas de paz. (1 Coríntios 14:26-33)
Observe que a igreja do século I não tinha a necessidade de ter um diácono designado para manter as pessoas acordadas! Também visivelmente ausente? A atribuição de assentos, um “lugar elevado” para ficar, uma “ordem de adoração” planejada de antemão, uma cerimônia em torno da eucaristia, um “líder de adoração” ou uma “audiência”—em resumo, todas as características dos “cultos de adoração” do século III adiante. Quando os cristãos se reuniam no século I, não havia atribuição de nada. Não havia planejamento antecipado de nada. Não havia um leitor ou palestrante ou mestre designado que sempre dava a “mensagem da hora”. O tempo juntos fluía livremente, era dinâmico e interrompível (“se vier uma revelação a alguém que está sentado, cale-se o primeiro”). O Espírito de Jesus comandava a reunião, e não a tradição. Cada filho de Deus era um participante. Cada pessoa considerava que dom ele ou ela podia oferecer para edificar o Corpo inteiro. Todos estavam preparados para compartilhar.
As reuniões no século III eram seguras; as reuniões no século I às vezes não eram. É por isso que Paulo tinha que oferecer correção! Havia risco. Mas também havia vida. Vida! Quando o povo de Deus se reunia, eles descobriam-No renovado nos demais. Eles caminhavam e conversavam com Ele “no frescor do dia” juntos, como Ele sempre quis que Seu povo fizesse.
Começo do “Clero” e do “Leigo”
Em relação aos “homens sagrados”, os acontecimentos podem ter sido ainda mais perturbadores. Numa ruptura radical com a experiência e o ensinamento do Novo Testamento, uma hierarquia religiosa definida começava a emergir. No final do século III, cada assembléia local era governada por um único “bispo”, que tinha um alto grau de autoridade e desfrutava de um posto vitalício.
Certamente não havia sido sempre assim. Como já vimos, Jesus proibiu os títulos religiosos de qualquer tipo. Mesmo os apóstolos não deviam “ser senhores” ou “exercer autoridade” sobre os outros. Jesus enfatizou esse ponto para lembrá-los: “Um só é o Mestre de vocês, e todos vocês são irmãos”. Durante o século I, mesmo líderes de grande capacidade e fé honraram o comando de Jesus. Quando um líder local em uma assembléia se destacou da linha e começou a “gostar muito de ser o mais importante”, um apóstolo rapidamente o advertiu e repreendeu (3 João 9).
É verdade que Paulo havia reconhecido anciões em cada ecclesia quando as revisitou alguns anos após seu surgimento. Esses “presbíteros” deviam cuidar, nutrir e proteger os que eram “mais novos” na fé. Porém esses fiéis mais antigos na fé jamais deviam emular o modelo gentil de “autoridade” e jamais degeneraram para um só homem ser “o líder” ou uma definição de uma hierarquia. A despedida de Paulo para os presbíteros de sua amada Éfeso é clara: um grupo de homens—talvez até uma sala cheia deles—chamados “presbíteros” no texto era exortado a “cuidar de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o Seu Próprio Sangue”. Em uma passagem das escrituras inspiradas, vemos no texto original os mesmos homens mencionados como “presbyteros” (que significa “anciãos”), “poimenas” (que significa “pastores”) e “epískopos” (termo que designava originalmente os supervisores das cidades)—palavras que depois foram adotadas no vocabulário das religiões tradicionais como “presbíteros”, “pastores” e “bispos”. Porém, no mundo de Paulo, essas palavras de origem grega não tinham nenhuma conotação religiosa. Com certeza não eram “títulos” que designavam uma “função” ou “cargo”. Eram apenas descrições das pessoas que tinham a capacidade da fé madura e do discernimento (anciãos), que podiam nutrir e proteger os rebanhos de Deus (pastores) e que eram mais “elevadas” espiritualmente e, portanto, mais habilitadas a ter uma visão maior e uma perspectiva mais clara (supervisores). Essas palavras figurativas sempre descreviam um grupo de homens que, pela virtude dos dons e da maturidade, eram capazes de servir à ecclesia local. Elas jamais descreviam o comando de um só homem.
Conhecemos detalhes históricos suficientes para pelo menos esquematizar a evolução da criatura conhecida como o bispo do século III. Na década de 90, uma carta de um cristão em Roma para a igreja em Corinto ainda usava o termo “bispos”, no plural, para os homens da assembléia local. Porém, em 110, uma carta enviada para as maiores igrejas da província da Ásia—muitas das quais haviam recebido uma carta do próprio Jesus no livro do Apocalipse apenas uma geração atrás—mencionava um único bispo em cada igreja. Nem todos sentiam o apoio entusiástico da hierarquia emergente. “O Pastor de Hermas”, escrito mais ou menos nessa época, é encerrado com uma figura que simboliza a igreja emitindo a seguinte advertência: “Eu me dirijo agora aos chefes da Igreja e àqueles que ocupam os primeiros lugares. Não vos tornei semelhantes aos envenenadores. Eles levam seus venenos em frascos. Vós tendes vossa poção e veneno no coração”—o veneno, implícito, da ambição.
Porém no século II, os sinais aumentam constantemente de forma mais alarmante. Inácio escreveu que o bispo era “a imagem do Pai” e que o homem que não o reconhecesse como tal “não tenta enganar o bispo visível, mas Àquele que é invisível”. As pessoas deviam até mesmo sentir “reverência” por um bispo. Os que tentavam agir de forma independente da autoridade do bispo eram “servos do demônio”. Ou como Cipriano afirmou no século III, a oposição ao “ministro” de Deus era a oposição ao próprio Deus. Na metade do século III, o “leigo” em Roma supostamente dizia: “Um Deus, um Cristo, um Espírito Santo e em uma igreja deve haver um bispo”.
O mestre Orígenes tinha uma visão sombria desses acontecimentos:
Nós [líderes] aterrorizamos as pessoas e nos tornamos inacessíveis, especialmente quando são pobres. Em relação às pessoas que nos vêm pedir que façamos algo por elas, comportamo-nos como nem mesmo um tirano o faria: somos mais selvagens em relação aos pedintes do que quaisquer governantes civis. É possível ver isso acontecer em muitas igrejas reconhecidas, em especial nas cidades maiores. (Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de Mateus 16:8)
Certamente outros se opunham ao desenvolvimento do “homem sagrado” no cristianismo. Se tudo estivesse indo bem, homens como Inácio jamais teriam sentido a necessidade de sustentar a autoridade do bispo. Ainda assim, ano após ano o “bispado” se tornava cada vez mais como uma ditadura eclesiástica.
Entretanto, no século III os bispos não usavam vestes diferenciadas, nem recebiam salários. Eles podiam receber uma parte das ofertas voluntárias dos crentes, mas não tinham rendimentos garantidos. Os salários durante aquele período existiam apenas em alguns grupos heréticos e eram considerados escandalosos entre as igrejas. E não havia a noção de uma hierarquia maior que a assembléia local; não havia um “bispo dos bispos” durante esses séculos. No entanto, a descida da encosta escorregadia da religião já estava começando a pegar velocidade. Desse ponto em diante, o pressuposto raramente questionado da maioria dos cristãos praticantes era de que eles precisavam de um clérigo profissional que estivesse entre o simples “leigo” e seu Deus.
Foi durante esse mesmo período que os cristãos deram outro enorme passo em direção à rendição de seu direito por nascimento a um relacionamento íntimo e imediato com Jesus. Ironicamente, ele veio por meio da coisa que mais admiramos nos fiéis durante essa era—sua coragem e perseverança apesar da perseguição. Até hoje ficamos emocionados com a confiança e a tranqüilidade de fiéis como Perpétua ou Policarpo, mesmo diante da tortura e da morte.
Não é difícil imaginar o impacto da fé dos mártires sobre seus contemporâneos. Os cristãos que eram presos por suas crenças, embora continuassem a falar com coragem por Jesus enquanto aguardavam sua sentença e execução, eram honrados como super-heróis da fé. A crença geral era a de que os cristãos no “corredor da morte” desfrutavam de uma proximidade inigualável com Deus. Com certeza, então, suas orações deviam ser especialmente eficientes. Seus companheiros de fé começaram a pedir que seus irmãos e irmãs aprisionados orassem por pecados pessoais ou outras preocupações. Após sua execução, os mártires eram continuamente apresentados como cristãos exemplares em quase toda a assembléia. As datas de suas mortes eram lembradas e comemoradas a cada ano, reforçando a mentalidade de “dia especial” que estava se firmando entre as assembléias locais.
Todo o conceito de martírio evoluiu constantemente mais distorcido. Melito, que tinha o título de “bispo de Sardes” no final do século II, escreveu: “Há duas coisas que dão a remissão de pecados: o batismo e o sofrimento em nome de Cristo”. Tertuliano, o líder do norte da África, afirmou com ainda mais clareza apenas uma geração depois: “Seu sangue é a chave do Paraíso”. Alguns cristãos até começaram a se voluntariar para o martírio, para espanto dos governantes pagãos.
No século III, as pessoas já tinham começado a colecionar “lembranças” dos fiéis martirizados—pedaços de roupas, efeitos pessoais e até ossos—em parte por inspiração, em parte como “bons amuletos espirituais”. As pessoas assumiram ainda mais a noção de pedir orações aos mártires. Os visitantes de seus túmulos solicitavam orações de intercessão dos fiéis mortos. A prática de “venerar santos” e suas relíquias havia começado.
As conseqüências para a fé foram monumentais. A veneração era outra camada de isolamento que separava as pessoas da intimidade com Deus. Na terra, a hierarquia desabrochante se colocava entre Deus e o homem. Nos céus, a crescente galeria de honra dos “santos” fazia o mesmo. A proximidade “aqui e agora” com Jesus que os primeiros discípulos haviam desfrutado—antes e depois de Sua ascensão—estava se tornando uma relíquia do passado.
A “Conversão” de Constantino
Ele foi uma das figuras que realmente mudou a direção da história para sempre. Em um sentido muito real, ele fundou uma religião. Seu nome era Constantino.
Seu pai fora designado como um dos quatro co-governantes do império romano. Constantino tinha uma grande mágoa por não ter sido também incluído entre os quatro. Ele acompanhou seu pai ao posto romano na Bretanha e esperou por sua hora. Quando seu pai morreu, Constantino fez com que as tropas o proclamassem o novo co-imperador. Nos três anos seguintes, lutou e manobrou para obter mais poder. Finalmente, no ano 312, Constantino estava pronto para deslocar suas tropas para o sul na esperança de conseguir o grande prêmio: Roma. Para tomar a cidade, seu exército tinha que cruzar a Ponte Mílvia, uma estrutura rochosa sobre o rio Tibre. O exército de seu rival saiu da cidade para defender a ponte. Foi lá que ocorreu algo que afetaria a história da igreja por pelo menos os próximos dois mil anos.
Não temos a narrativa pessoal de Constantino sobre os eventos. Temos apenas a história contada por dois conhecidos seus.
Apenas quatro anos depois do evento, Lactâncio, o futuro tutor dos filhos do imperador, escreveu que Constantino havia tido um sonho “na véspera da batalha”, no qual tinha recebido ordens de marcar os escudos de seus soldados com o “sinal celestial de Deus”.
Temos também a versão do senado romano sobre os eventos, preservada para nós em um monumento conhecido como o Arco de Constantino. Construído em 315, apenas três anos depois da “conversão” de Constantino e da posterior vitória, o arco mostra o registro conhecido mais antigo sobre os eventos. Sua inscrição afirma simplesmente que Constantino tinha vencido suas batalhas “instigado pela divindade”, sem especificar qual divindade o senado tinha em mente. A guarda pessoal do imperador é mostrada, mas não há nenhum “sinal da cruz” em seus escudos. Sobre eles pairam as tradicionais imagens dos “deuses” pagãos. Os senadores eram pagãos criando um monumento para outros pagãos. Talvez seja por isso que tenham omitido do arco qualquer referência ao cristianismo. Ainda assim, parece estranho que Constantino jamais tenha “corrigido” o monumento, se de fato o achava ofensivo.
Eusébio, escrevendo um quarto de século mais tarde e pelo menos uma dúzia de anos depois de ouvir a descrição dos eventos de Constantino, contou uma versão muito mais elaborada. Ele afirmou que o futuro imperador sabia que seu rival político em Roma estava usando feitiços e sacrifícios para convocar o apoio dos deuses pagãos. Constantino também sentia a necessidade de ter ajuda divina para seu exército. Foi então, de acordo com Eusébio, que Constantino e “todas as tropas” viram o sinal da cruz no céu do meio-dia, tendo abaixo a legenda “Com este sinal vencerá”. Naquela noite, afirma-se, Constantino viu Jesus em um sonho, que lhe ordenava que usasse o sinal da cruz “em seus confrontos com o inimigo”. No dia seguinte, Constantino ordenou que seus homens pintassem uma cruz em seus escudos. Depois desferiu o ataque, que teve um êxito maior que seus sonhos mais grandiosos. O império era dele.
Nunca saberemos o que aconteceu exatamente na Ponte Mílvia em 312. Mas uma coisa podemos dizer com certeza: nenhuma das três narrativas do “evento”, seja esculpida na pedra por pagãos romanos ou escrita em pergaminho por cristãos praticantes, faz qualquer menção a pecados, o Sangue, perdão, arrependimento, reconciliação ou um novo nascimento. É uma “conversão” estranha.
Durante muitos anos depois disso, Constantino demonstrou uma grande tolerância, ao ponto de misturar com a religião pagã dominante. Ele manteve o título imperial tradicional de pontifex maximus, o sacerdote supremo da religião pagã da Roma antiga.2 A imagem do “deus sol” pagão, adorado pelo pai de Constantino e pelos imperadores anteriores, aparece três vezes no Arco de Constantino. Os documentos imperiais oficiais, incluindo moedas, continuaram a mostrar esse “deus sol” até 324.
Em 325, Constantino convocou dois “concílios ecumênicos da igreja” para lidar com o problema da heresia. Bispos e outros líderes foram chamados em todo o império. Em um discurso atribuído a ele no primeiro desses concílios, Constantino citou livremente e extensivamente de duas fontes religiosas pagãs, uma delas uma profetiza lendária e a outra, um poeta romano clássico. Notavelmente, ele não apenas usou suas palavras como autorizadas, mas até tentou extrair princípios cristãos e textos comprovatórios delas. No ano seguinte, quando um importante sacerdote pagão quis fazer uma peregrinação ao Egito para ver um ídolo que supostamente emitia ruídos similares ao da voz humana, Constantino pagou a conta.
Constantino não gostava da cidade de Roma, então decidiu construir uma nova capital, Constantinopla, no leste. Na dedicação dessa cidade, em 330, ele organizou uma cerimônia que era metade cristã e metade pagã e colocou uma imagem da cruz sobre a carruagem do “deus sol” no mercado central.
Constantino só se batizou pouco antes de sua morte, em 337. Aparentemente ele temia que os pecados cometidos após o batismo não seria perdoados e, por isso, esperou até o último momento possível para realizar o ritual, segundo seu entendimento.
Realmente havia pecados com os quais se preocupar. Logo depois de Constantino tomar Roma, seu antigo aliado—que agora era visto como um concorrente—foi encontrado morto por estrangulamento. Em 326, Constantino executou seu filho mais velho por causa de acusações escandalosas contra ele. Alguns meses mais tarde, ao descobrir que havia sido enganado sobre o rapaz, executou o acusador—sua própria esposa, Fausta. Há poucas dúvidas de que Constantino era ambicioso e implacável em relação a garantir e proteger sua imagem e cargo.
Era essa a “conversão” de Constantino e o efeito dela em sua vida. Muito embora a autenticidade de sua conversão possa ser questionada, não se pode dizer o mesmo de seu impacto. O imperador se lançou a sua nova causa com a energia, paixão e engenhosidade. As mudanças que ele trouxe para sua religião durante uma única geração foram revolucionárias.
A “Conversão” do Cristianismo
A meta de Constantino era unificar o império sob o “sinal da cruz”. Ele via a si mesmo como uma criatura do destino, um mero instrumento nas mãos de Deus. Em uma carta aberta, com data de cerca de 324, escreveu:
Certamente não se pode considerar como arrogância de alguém que recebeu benefícios de Deus reconhecê-los nos termos mais grandiosos de louvor. Eu mesmo, então, fui o instrumento cujos serviços Ele escolheu, e considerado apropriado para a realização de Sua vontade. Portanto, começando no remoto oceano britânico… por meio da ajuda do poder divino bani e removi totalmente cada forma de mal que prevalecia, na esperança de que a raça humana, iluminada por minha instrumentalidade, pudesse ser recuperada por uma observância das leis sagradas de Deus, e que, ao mesmo tempo, nossa fé mais abençoada pudesse prosperar sob a orientação de Sua onipotente mão. (Eusébio, Vida de Constantino II, capítulo 28)
Essas são as palavras de um homem que se via quase em termos messiânicos. Era um homem com uma missão: erradicar o mal e iluminar a raça humana, para que o cristianismo pudesse prosperar. Como ele realizaria um objetivo tão grandioso?
Para começar, ele construiria “prédios da igreja”.
No início do século IV, apenas algumas poucas assembléias locais tinham dado o salto conceitual de se reunir em casas particulares reformadas para a construção de prédios com finalidade religiosa. Sabemos pelos documentos históricos de uma cidade no Egito que lá havia dois “prédios de igreja”, uma sinagoga e doze templos pagãos. Uma testemunha da grande perseguição no Egito em 303 fala sobre três outras cidades onde “basílicas” de algum tipo foram queimadas. Ainda assim, essas eram estruturas inexpressivas, provavelmente simples construções de madeira. Aparentemente, não eram apropriadas para uma religião imperial.
Constantino iniciou sua carreira como construtor erigindo uma enorme estátua de si mesmo, “dez vezes maior que a vida”, segurando uma “magnífica lança no formato de uma cruz” na seção mais movimentada de Roma. Depois construiu o primeiro de seus muitos “prédios de igreja”, também em Roma. Era magnífico, na verdade, um palácio: a Basílica de Latrão, que depois passou ao controle do “bispo de Roma” e até os dias de hoje pertence ao papa romano.
Sua mãe, Helena, também encorajou e ajudou a financiar esse programa de construções do século IV. Ela havia feito uma peregrinação à Palestina em 326, imediatamente após as execuções de sua nora e neto. Após seu retorno, Helena construiu uma elaborada basílica em torno de uma sala de seu palácio imperial, cobrindo o chão com terra de Jerusalém. Esse ambiente se destinava a servir como santuário para as relíquias que ela havia trazido como suvenires da “terra santa”. Entre as quinquilharias, diz-se, havia um osso do dedo indicador de Tomé, o mesmo que ele havia usado para colocar nas feridas de Jesus. O santuário existe até hoje.
Iniciou-se então uma onda inigualável de construção religiosa. Pelos próximos vinte e cinco anos, Constantino financiou diversas estruturas religiosas magníficas e suntuosas em todo o império. Ele ordenou que o bispo de Jerusalém construísse, às custas do dinheiro público, uma “Igreja do Santo Sepulcro” no suposto local do Gólgota. Ele também construiu uma basílica gigantesca sobre um santuário em Roma onde Pedro supostamente foi enterrado. Continuou a construir santuários semelhantes, que rivalizavam com qualquer templo pagão em magnificência, em Belém, Mamre, Nicomédia e Heliópolis. Sua própria cidade, Constantinopla, não podia ser deixada de lado. Gradualmente, ela se tornou repleta de santuários de mártires tomando o lugar do santuário politeísta em cada esquina conhecida pelos pagãos.
Entretanto, Constantino não se restringiu à construção de “lugares especiais”. Ele também deixou sua marca legislando sobre “dias especiais”. Em 321, ele decretou que o dies Solis —o dia do sol, equivalente a nosso domingo—seria um dia de descanso em todo o império:
Que todos os juízes, e todos os habitantes da cidade, e todos os mercadores e artífices descansem no venerável dia do Sol. Não obstante, atentam os lavradores com plena liberdade ao cultivo dos campos; visto acontecer a miúdo que nenhum outro dia é tão adequado à semeadura do grão ou ao plantio da vinha; daí o não se dever deixar passar o tempo favorável concedido pelo céu. (Constantino, Decreto de 7 de março de 321)
Novamente vemos aqui uma mistura curiosa entre o paganismo e o cristianismo, como Constantino o concebia. O “venerável dia” do deus-sol, a deidade que o pai de Constantino adorava, agora deveria ser comemorado com uma observância similar ao sabá. O conceito de um “culto de domingo” foi levado a um nível totalmente novo, com a oportunidade de tirar um dia de folga e se reunir nos novos e luxuosos “prédios da igreja”.
Constantino certamente estava deixando sua marca. Porém o maior impacto talvez venha de sua visão para o clero em desenvolvimento. Constantino concedeu a eles enormes privilégios e poderes. Nas cidades do império romano, os fundos para a maioria das funções públicas, incluindo jogos e celebrações, não vinham de impostos, mas das fortunas pessoais dos oficiais. O “amor de sua cidade”, se você fosse um membro da alta classe romana, significava gastar imensas quantias de sua riqueza pessoal para financias as funções públicas. Era, em essência, um imposto de renda com uma graduação acentuada. Legalmente, nenhum dono de propriedades estava isento. Constantino mudou o costume com um só decreto. A partir de 313, os bispos e o “clero” cristão ficaram isentos do fardo de terem um ofício. Tal recompensa financeira era tão grande que o imperador teve que emitir um segundo decreto proibindo que pagãos prósperos fingissem serem bispos para que pudessem evitar o serviço público!
Ao mesmo tempo, ele ampliou muito os poderes dos bispos. Em um processo civil ou até criminal, um bispo podia emitir um julgamento válido em qualquer outro tribunal. Constantino também convocou reuniões do clero no âmbito do império para legislar sobre determinadas questões religiosas. Cada vez mais o clero imitava a forma e o funcionamento de um governo secular. No final do século III, os governantes romanos haviam recebidos representantes chamados de “vigários” e as províncias haviam sido agrupadas em regiões maiores chamadas de “dioceses”. Essas palavras seriam apropriadas pela crescente burocracia religiosa apenas uma geração mais tarde. Sob Constantino, a hierarquia religiosa foi crescendo de uma expressão local para uma global.
Assim, o que tinha começado como uma descida gradual de uma encosta escorregadia nos séculos II e III, agora tinha se acelerado até virar uma queda livre no século IV. O cristianismo havia sido transformado em uma religião. Ela certamente assumira todas as marcas da religião humana, com lugares, dias e homens especiais. Constantino tinha feito muito para formular e promover essa mudança. Mas talvez seu maior impacto tenha sido a abertura das portas da igreja para uma nova raça de “convertidos” muito parecidos com ele. A “igreja” do século IV tinha um significado radicalmente diferente do que tinha para Paulo, Pedro ou João. A “associação como membro” agora era politicamente correta. Até estava na moda, era a escolha lógica para o jovem profissional romano em ascensão que quisesse seguir adiante no corajoso novo “império cristão”. Acima de tudo, a igreja agora era vista como algo a se comparecer. Ao invés de se encontrar furtivamente em residências particulares, temendo a batida na porta que significaria o início de outra rodada de perseguições, esses novos “cristãos” podiam se reunir abertamente em alguns dos prédios mais magníficos do império. E em vez de compartilhar a vida juntos, sete dias por semana, agora era possível “comparecer a cultos” no “venerável dia do sol”, sem grandes interferências na vida particular dos indivíduos.
Era mais fácil ser esse tipo de cristão do que não ser. E quando Roma caiu e a “idade das trevas” começou, todas as pessoas da Europa continental—com exceção de alguns poucos focos judeus—se autodenominavam cristãs.
A Acomodação do Paganismo
Por causa de Constantino e dos líderes que o sucederam, o clero tinha um problema perplexo em suas mãos. O “cristianismo”, como Constantino o tinha imaginado, devia se tornar a religião do estado. A cidadania no império (e nos reinos que o seguiram) ao final se tornaria equiparada à participação na igreja “católica” (ou seja, universal). Mas como “cristianizar” os cidadãos de um império pagão, muitos dos quais agora estavam “convertidos” na esperança de progresso social ou por causa da grande pressão de seus pares—ou mesmo pela ponta da espada?
Nas primeiras gerações do cristianismo, cada pessoa que unia seu coração à ecclesia o fazia voluntariamente, apesar a pressão de poderes políticos e religiosos antagônicos e profundamente arraigados. O vigor desse abandono completo, dado livremente, era inegável. Os cristãos não apenas resistiam a um ambiente hostil—eles se desenvolviam nele. Como o autor do livro dos Hebreus menciona,
Lembrem-se dos primeiros dias, depois que vocês foram iluminados, quando suportaram muita luta e muito sofrimento. Algumas vezes vocês forem expostos a insultos e tribulações; em outras ocasiões fizeram-se solidários com os que assim foram tratados. Vocês se compadeceram dos que estavam na prisão e aceitaram alegremente o confisco de seus próprios bens, pois sabiam que possuíam bens superiores e permanentes. (Hebreus 10:32-34)
A ecclesia vivia como uma família unida que tinha contado com o custo do comprometimento, e ainda assim havia decidido seguir Jesus, porque achavam que Ele valia a pena.
O cristianismo como religião do estado, no entanto, era bem diferente. A “igreja” agora devia abranger uma vasta população que preferia francamente sua religião pagã, mas estava se “unindo” à nova porque se sentiam na obrigação de fazê-lo. Daí o problema que os líderes religiosos tinham que enfrentar: como forçar a lealdade? Como fazer com que alguém goste de algo que não ama? Como fazer com que alguém rejeite uma religião pagã externamente quando ainda a adota internamente?
Uma das estratégias é a instrução, sob o pressuposto de que as pessoas queiram manter crenças e práticas pagãs apenas porque são ignorantes sobre as crenças de uma religião “melhor”. A estratégia foi aplicada, porém com um sucesso extremamente limitado. O pressuposto se provou ingênuo. A maioria das pessoas preferia sua vida antiga à nova, mesmo quando a nova lhes era explicada.
Uma segunda estratégia é a coerção. Durante toda a idade média, em vários momentos e lugares, de ações locais de líderes religiosos até os horrores disseminados da Inquisição, a coerção foi aplicada, muitas vezes com grande diligência. Porém as mentes mais sábias descobriram a verdade: a compulsão pode produzir uma aceitação externa ressentida, porém jamais pode efetuar uma mudança no nível do coração. A coerção e a conversão são, de fato, totalmente opostas.
Uma terceira estratégia é a acomodação. Se a maioria das pessoas prefere o antigo modo de viver, pode-se simplesmente tentar ajustar o “novo” modo de viver para que tenha parecer, soar e dar a impressão de ser como o antigo. A liderança religiosa adotou essa estratégia—algumas vezes, subconscientemente, porém com freqüência muito deliberadamente—e pelo menos conseguiu os resultados que esperava. Muitos elementos religiosos pagãos foram introduzidos no cristianismo, saneando-se suas qualidades mais questionáveis e “cristianizando” as qualidades mais sentimentalmente valorizadas, dando-lhes novos nomes e distorcendo levemente as práticas. O cristianismo foi pouco a pouco empurrado para mais perto das antigas religiões pagãs, até a maior parte da população da Europa sentir que a nova religião estava suficientemente dentro de suas zonas de conforto para ser aceitável.
Jesus, é claro, tinha uma idéia diferente. Ele nunca quis criar uma religião do estado—ou qualquer outra religião, diga-se de passagem. Ele descreveu o Seu caminho, o caminho para a Vida, como uma estrada estreita e difícil. A estrada está aberta a qualquer um, porém apenas uns poucos decidem segui-la (Mateus 7:14). A estratégia de Jesus era a princípio proclamar e demonstrar o Reino de Deus e convidar “qualquer um que tenha ouvidos para escutar” a abandonar suas vidas anteriores e abraçar a Dele. Ele não tinha a necessidade de coagir, nem interesse algum na acomodação. Ele já sabia que “arrumar” uma religião por meio de pequenos ajustes e reparos simplesmente não funcionaria. Como explicou:
Ninguém tira um remendo de roupa nova e o costura em roupa velha; se o fizer, estragará a roupa nova, além do que o remendo da nova não se ajustará à velha. E ninguém põe vinho novo m vasilha de couro velha; se o fizer, o vinho novo rebentará a vasilha, se derramará, e a vasilha se estragará. Ao contrário, vinho novo deve ser posto em vasilha de couro nova. E ninguém, depois de beber o vinho velho, prefere o novo, pois diz: ‘O vinho velho é melhor!’” (Lucas 5:36-39).
Os oficiais religiosos dos séculos IV a XIV ignoram solenemente esse conselho. Era preciso. Eles tinham a obrigação de transformar o cristianismo em uma religião que qualquer um poderia e iria aceitar. De alguma forma, tinham que transformar o cristianismo em uma super-autopista em que todos pudessem viajar, mesmo se os viajantes preferissem algo diferente. Para atingir esse objetivo, tiraram pedaços da religião de Jesus e tentaram cobrir os furos mais embaraçosos do paganismo. Despejaram o vinho novo de Jesus nas vasilhas antigas da religião européia tradicional. Conseguiram seu objetivo; a população finalmente se adequou à nova religião do estado.
Na verdade, o vinho novo foi derramado. Mas a maioria achava que o vinho velho satisfazia, de qualquer modo.
A Cristandade no Novo Milênio
Muita coisa pode acontecer em dezessete séculos. Cruzadas. Inquisições. Reformas. Movimentos. Missionários. Todos esses acontecimentos tiveram um impacto na história; cada qual foi objeto de incontáveis volumes de análise acadêmica. O saldo para nós, no entanto, é perceber que o cristianismo em seus primeiros séculos nos oferece dois legados para escolha.
Uma herança data dos primeiros dias, quando um grupo de homens e mulheres vivia com Jesus, experimentando-O em todos os momentos que viveram e em todos os lugares que estiveram. Esses primeiros discípulos depois introduziram a uma geração de pessoas que creram a mesma submissão vitalícia a Jesus e alegria de Sua presença. Essa experiência corporativa era chamada de ecclesia.
A segunda herança data quase da mesma época. Ela envolve a compartimentalização da vida em dias “especiais” e dias seculares, lugares “especiais” e lugares comuns, pessoas “especiais” e pessoas leigas, “religião” e “vida real”. A segunda versão do cristianismo cresceu em paralelo com a primeira, gradualmente sobrepujando-se a ela nos séculos II e III e dominando-a no século IV.
Onde, então, nos encontramos hoje, quando o cristianismo entra em um novo milênio? Como é a vida para a maioria dos cristãos praticantes? Suas vidas estão impregnadas com uma experiência de Jesus e uns dos outros, durante cada momento e em cada lugar? Ou os lugares, dias e pessoas especiais ainda dominam seu pensamento e suas ações?
Religião e Imóveis
Os adeptos contemporâneos da religião cristã podem se orgulhar de instalações que rivalizam com qualquer obra feita pelos construtores de catedrais de Constantino ou medievais.
No sul da Califórnia há uma instalação religiosa referencial construída com 10.000 painéis de vidro. Essa “catedral”, projetada por um arquiteto mundialmente famoso, foi construída em um período de três anos por um valor equivalente a 55 milhões de dólares em 2007. O pastor dessa primeira “mega-igreja” a financiou em grande parte vendendo painéis de vidro a 500 dólares cada. A estrutura colossal, que pode abrigar 3000 pessoas sentadas, também é conhecida por ter um dos maiores órgãos de tubos do mundo.
No outro lado do planeta situa-se a instalação religiosa de uma mega-igreja com um exterior completamente diferente: titânio. Concluída em 2002 com um custo de 27 milhões de dólares, tem capacidade para 2300 pessoas sentadas em suas instalações inspiradas no museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha. Conta ainda com um café, campo de golfe, um jardim no telhado e uma área de socialização incluindo televisores de plasma. O auditório tem 1670 m2. Seu palco é equipado com uma brilhante tela de cristal líquido e duas salas de maquiagem adjacentes.
Em 2005, a maior mega-igreja da América do Norte se mudou para um prédio que anteriormente era sede de uma equipe profissional de basquete. A assembléia não-denominacional começou a se reunir em 1959, em uma loja abandonada de ração. Atualmente, se reúne na arena de 16.000 assentos, reformada em um período de 15 meses por um custo de 75 milhões de dólares. Durante o culto, três telas gigantes exibem videoclipes enquanto o pregador fala em frente a um globo dourado giratório.
Essas “basílicas” modernas são apenas os exemplos mais visíveis de uma das características intrínsecas da cristandade moderna: o “prédio da igreja”. No entanto, elas não são, com certeza, os únicos exemplos. Nos Estados Unidos, existem, no alvorecer do novo milênio, pelo menos um quarto de milhão de congregações que dizem representar a religião cristã.3 Alguns desses grupos compartilham construções; outros alugam instalações públicas, como escolas ou cinemas. Mas a maioria se reúne em suas próprias instalações dedicadas, que vão de humildes lojas urbanas à elaborada catedral de vidro. Segundo uma estimativa conservadora, perto de 200.000 prédios de igrejas espalham-se pela paisagem americana. Estima-se que o valor dos imóveis pertencentes a entidades religiosas dos EUA está acima de 6 bilhões de dólares.
Jesus disse uma vez a um discípulo voluntário ingênuo: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (Lucas 9:58). Como, então, há agora 200.000 estruturas que afirmam ser a “casa de Deus”? No Novo Testamento lemos sobre indivíduos e ecclesias que se sacrificavam financeiramente para “se lembrarem dos pobres” (Gálatas 2:10, 2 Coríntios 8-9) e para levarem adiante a proclamação do evangelho (Filipenses 4:10-20). No século XXI, vemos fiéis investindo bilhões de dólares em tijolos e cimento—ou, ocasionalmente, vidro e titânio.
Ninguém está sugerindo que a Bíblia proíbe as estruturas religiosas. No entanto, estamos sugerindo, definitivamente, que não há em todo o Novo Testamento um único cristão que tenha construído uma. Isso aparentemente jamais ocorreu a eles.
Um dos movimentos religiosos que mais rapidamente cresce no mundo ocidental está tentando dispensar totalmente o conceito de “prédio da igreja”. De acordo com uma pesquisa de 20064, cerca de 5% dos americanos que pertencem a uma entidade religiosa cristã de algum tipo freqüenta apenas igrejas em casas. Outros 19% fazem parte dos dois mundos, freqüentando regularmente uma igreja em casa e uma congregação convencional. A igreja em casa normal tem apenas vinte freqüentadores regulares, sendo sete deles crianças. Três quartos dos participantes se envolveram a menos de um ano. A maioria vê a mudança como uma experiência positiva, declarando ter um grau maior de satisfação do que suas contrapartes convencionais com a qualidade de sua liderança, o comprometimento com a fé de seus companheiros e a profundidade espiritual que experimentam.5
Mas a palavra operacional do parágrafo anterior pode muito bem ser “freqüentam”. É verdade que eles se reúnem em uma residência ou em algum outro local que não seja um prédio tradicional da igreja. Mas a maioria essencialmente trocou seus “cultos dominicais” para dentro de uma sala de estar, com poucas mudanças substanciais além do tamanho menor e do ambiente menos formal. Um total de 80% das igrejas em casas se reúnem sempre no mesmo dia todas as semanas e 62% jamais variam o formato da reunião. Uma das perguntas que é difícil de avaliar nos resultados dessas pesquisas é: Quantos membros das igrejas em casas têm vidas profundamente interligadas fora das reuniões? Ou, para fazer a pergunta de outra forma, quantos membros das igrejas em casas ainda vivem vidas fragmentadas e compartimentalizadas? Quantos ainda pensam e vivem como se a “igreja” estivesse localizada em um lugar específico?
Papai Noel, o Coelhinho da Páscoa e o “Venerável Dia do Sol”
Na sociedade ocidental o calendário está centrado em um feriado conhecido como “Natal”. Como um observador externo entenderia essa celebração? Por um lado, ela se refere a um bebê deitado em uma manjedoura, celebrado com um mês de música ininterrupta (pa-rumpa-pum-pum). Por outro lado, é sobre um morador ancião do ártico que viola todas as regras da física ao cruzar o globo em uma única noite, a velocidades que se aproximam da velocidade da luz, viajando em um trenó puxado por renas voadoras. Diz-se que esse senhor redondo invade e entra em todas as casas, seja descendo pela chaminé ou usando alguma outra brecha de segurança, e entrega presentes. Um observador externo iria sem dúvida ficar aliviado e confuso ao saber que esse homem é simplesmente parte de uma mitologia elaborada passada como verdadeira para crianças crédulas por adultos aparentemente responsáveis. Seria compreensível se o observador perguntasse se a outra história—aquela sobre o bebê—também é um conto de fadas.
Não é de admirar, portanto, que os ocidentais que cresceram com as histórias concorrentes pareçam achar o “verdadeiro sentido do Natal” um pouco evasivo. O “espírito” da estação supostamente tem algo a ver com alegria, generosidade e bondade em geral, porém os detalhes são um pouco difíceis de identificar. Como Shaw uma vez declarou: “Aquilo que um homem acredita pode ser determinado não por sua crença, mas pelos pressupostos segundo os quais ele habitualmente age”. Talvez, então, possamos entender as crenças reais das pessoas sobre o Natal observando o que elas habitualmente fazem durante essa época.
A maioria das pessoas, na verdade, compra e festeja.
Durante os 10 primeiros meses de 2006, as estatísticas do Census Bureau mostram que as lojas de departamento dos EUA cantarolam com 10 bilhões de dólares em vendas cada mês. Em novembro, as lojas de departamentos começaram a cantar uma nova música, a melodia familiar das caixas registradoras ajustadas para uma trilha sonora alternando as mesmas trinta “canções de Natal” tocadas incessantemente pelo alto-falante. É música para comprar. Os valores das vendas aumentaram para 13 bilhões em novembro e dispararam para quase 18 bilhões em dezembro—sendo a maior parte desse valor nas três primeiras semanas.
Outras lojas de varejo desfrutaram se aumentos similares nas vendas durante a “época de compras dos feriados”. Os americanos pagaram meio bilhão de dólares por árvores de Natal vivas e torraram ainda mais pelos enfeites. Em dezembro, as vendas de produtos esportivos, eletrônicos e computadores quase dobraram em relação à média mensal, enquanto as vendas de jóias quase triplicaram. O serviço postal entregou doze milhões de pacotes por dia durante a temporada. As lojas de bebidas alcoólicas, para não serem esquecidas, apresentaram um aumento enorme nas vendas, de menos de 3 bilhões de dólares mensais na maior parte do ano, para extraordinários 4,5 bilhões de dólares em dezembro.
Seria a auto-indulgência, caracterizada pelo materialismo e pelo consumo de álcool, o “verdadeiro sentido do Natal”? A resposta padrão cristã—pelo menos durante as últimas décadas—seria uma indignada afirmação: “Jesus é o motivo desse feriado”. Afirma-se que os secularistas, fizeram uma conquista hostil do feriado, mas em seu coração o Natal ainda se refere a Cristo.
Mas a história suporta esse pressuposto?
Para responder essa pergunta, devemos examinar novamente o paganismo romano. Eles adoravam uma “deidade” chamada Saturno, que é mais lembrado por ter devorado seus filhos após o nascimento, por medo de que um deles pudesse crescer e destroná-lo. Os romanos celebravam esse monstro com a Saturnália, um festival de uma semana, marcado por folias e materialismo, que era observado de 17 a 24 de dezembro todos os anos. Em AD 50, o pensador estóico Sêneca, o Jovem, escreveu: “É agora o mês de dezembro, em que a maior parte da cidade está em festa. Rédeas soltas são dadas para a dispersão pública, em qualquer lugar que se vá são ouvidos os sons de grandes preparações”. O escritor Líbano, do século IV, comentou sobre a Saturnália: “O impulso de gastar se apodera de todos… Por todos os lados fluem rios de presentes”. Parece familiar?
Os romanos também adoravam do sol. No começo do século III, eles começaram a celebrar um festival chamado Dies Natalis Solis Invicti, “o nascimento do sol invicto”, observado em 25 de dezembro. Nessa data eles podiam detectar que os dias começavam a se estender lentamente, em uma evidência de que o sol permanecia “invicto” frente à noite. Quando o imperador Aureliano assumiu o sol como seu “deus patrono”, no final do século III, ele promoveu a data de 25 de dezembro a um feriado em todo o império.
Em comparação, não há nenhuma evidência histórica de que os cristãos celebrassem o nascimento de Jesus em qualquer feriado antes do século IV. A data de Seu nascimento não está registrada nas escrituras. A única indicação que temos está no evangelho de Lucas, que nos informa que os pastores estavam “nos campos próximos e durante a noite tomavam conta de seus rebanhos”—uma forte evidência de que o nascimento de Jesus ocorreu durante os meses mais quentes, entre o final da primavera e o começo do outono. Uma data em dezembro simplesmente não se encaixa. Como, então, a “natividade” começou a ser observada na Saturnália, na mesma data que os pagãos definiram como a “natividade” do chamado deus-sol? Deixaremos um conhecido líder religioso sírio do século XII, Jacob Bar-Salibi, explicar:
Era costume dos pagãos celebrar no mesmo 25 de dezembro o nascimento do sol, ocasião na qual acendem luzes como indicação da festividade. Os cristãos também participavam dessas solenidades e festejos. Dessa forma, quando os doutores da Igreja perceberam que os cristãos [nominais] tinham uma inclinação por esse festival, se reuniram em concílio e resolveram que a verdadeira Natividade deveria ser solenizada nesse dia. (citado em Ramsay MacMullen, 1997, Christianity and Paganism in the Fourth to Eighth Centuries, p. 155, Yale)
O Natal, então, é um exemplo da estratégia de substituição na qual os costumes pagãos eram “cristianizados” e acolhidos no cristianismo. O “nascimento do deus-sol” se metamorfoseou no “nascimento do Filho de Deus” e os festejos e materialismo da Saturnália se metamorfosearam nos festejos e materialismo do Natal. Os nomes mudaram, mas a essência permaneceu a mesma.
E as outras tradições que associamos com o feriado de 25 de dezembro? Elas também vieram dos costumes pagãos europeus, atraídas para o Natal porque sua origem eram celebrações que ocorriam em datas próximas. O “yule” era um antigo festival de inverno dos escandinavos pagãos, que queimavam “troncos de yule” para honrar seu “deus do trovão”. O costume do beijo sob a coroa de azevinho, mantido nos países do hemisfério norte, é remanescente de um antigo rito da fertilidade da Bretanha, que ocorria todos os invernos quando a planta dá os seus frutos. As “árvores de Natal” são provavelmente um vestígio da antiga prática pagã germânica de decorar árvores durante a celebração da fertilidade, no inverno.
O morador ancião do ártico, “Papai Noel”, é produto de um tipo de evolução darwiniana. Diversas religiões pagãs do norte da Europa adoravam serem com descrições similares. Essas tradições se combinaram à história de Nicolas, um cristão do século IV conhecido por distribuir presentes aos pobres. O ingrediente final de nosso personagem é o “Pai Natal”, uma figura inglesa que originalmente simbolizava a bebedeira e os festejos desses feriados, que passou por uma reformulação de sua imagem durante o período vitoriano. Acrescente o trabalho de um cartunista americano do século XIX, Thomas Nast, e a evolução de um mito moderno está completa.
Essa história resumida do Natal levanta a questão: Como é possível “manter o Cristo no Natal” se Ele jamais esteve lá? E como é possível “tirar Saturno da Saturnália”—junto com todos os outros elementos pagãos—se aí está a origem dessas tradições?
Outros feriados aceitos pela maioria dos ocidentais, tanto praticantes do cristianismo quanto do humanismo secular, têm histórias semelhantes.
Na América do Norte, no dia 31 de outubro, todos os anos, bandos de crianças fantasiadas avançam por suas vizinhanças coletando doces. Os disfarces mais populares são esqueletos, cadáveres, assassinos de filmes, figuras do ocultismo e representações estilizadas do diabo. As “histórias de fantasmas” se revezam. Todos os anos, Hollywood promove o mais recente lote das franquias de filmes de terror sádicos, que oferecem a mutilação e o assassinado como entretenimento. O vandalismo também é lugar-comum. Em algumas áreas metropolitanas, a noite da véspera, conhecida como “noite do diabo” ou “noite do inferno”, é celebrada com atos aleatórios de incêndios criminosos. Os mexicanos observam seu “Dia dos Mortos”, decorando os túmulos dos parentes falecidos com “oferendas”—brinquedos, álcool, comida ou quinquilharias—presentes para os mortos. Vendedores nas ruas comercializam bugigangas em formato de esqueletos. Doces conhecidos como “crânios de açúcar” são dados como presentes. Uma das refeições favoritas é feita é um coelho decorado com glacê branco para parecer um esqueleto deformado.
A maioria dos cidadãos dessas culturas vê essas celebrações com um sentimentalismo afetuoso. A maioria também afirma ser cristã. Como pode ser? Não há uma enorme contradição entre os valores de Jesus e esses “dias sagrados” notadamente pagãos?
Os celtas pagãos habitavam a Bretanha há dois milênios. Sua religião ocultista incluía um festival de outono que celebrava a morte. Os dias mais curtos e o clima mais frio significavam o final da vida para as plantações do campo e as folhas das árvores. Os celtas acreditavam que as barreiras que separavam os vivos dos mortos caíam por uma noite. Eles estavam convencidos de que os espíritos dos mortos procurariam seus parentes vivos e, portanto, tentavam pacificar esses “fantasmas” com os rituais apropriados. Seus contemporâneos, os romanos, afirmavam que esses ritos druidas incluíam o sacrifício humano.
Como os celtas teimosamente se recusavam a abandonar suas tradições pagãs, os oficiais religiosos do século VIII decidiram oferecer a eles um substituto, o “Dia de Todos os Santos”, em 10 de novembro. Ainda era um dia para honrar os mortos, porém os líderes tentaram concentrar a atenção nos heróis cristãos falecidos. No século XI foi proposta uma segunda acomodação ao paganismo. Foi acrescentado um “Dia dos Finados”, para que as pessoas pudessem honrar os parentes mortos e não apenas os “santos”. Esse festival religioso de dois dias se tornou conhecido nos países anglófonos como “Hallowmans”, e a noite da véspera como “All Hallows’ Eve”. O uso popular diminuiu o nome para “Halloween”.
O disfarce aplicado ao paganismo logo se gastou, ao que parece. Atualmente, quase ninguém na América do Norte considera os aspectos cristãos do Dia de Todos os Santos ou do Dia de Finados a sério. Mas os aspectos pagãos do dia ainda florescem em cada 31 de outubro.
Com a criação do “Hallowmas” e do “Halloween”, os oficiais descobriram uma estratégia bem-sucedida para interromper a tradição religiosa celta. Mas eles não a interromperam mudando corações ou mesmo hábitos. Em vez disso, eles simplesmente mudaram seu nome, acrescentaram alguns adornos cristãos e acolheram-na na religião cristã! Mas essa estratégia cristianiza o paganismo ou, na verdade, apenas paganiza o cristianismo?
E a Páscoa? Certamente nenhum “dia especial” é mais cristão do que a celebração anual da ressurreição, certo? É verdade que na metade do século II—duas gerações após os apóstolos—um tipo de observância anual da ressurreição estava se tornando mais comum entre os fiéis. Mas a história dessa prática não remonta à igreja nos seus primeiros dias. Um conhecido historiador do século V, que observava o feriado, ofereceu um comentário perspicaz sobre suas origens:
Visto que os homens amam os festivais, pois permitem que eles parem seu trabalho: cada indivíduo, em cada lugar, conforme seu próprio prazer, tem, por um costume prevalecente, celebrado a memória da paixão salvadora. O Salvador e seus apóstolos por nenhuma lei nos obrigaram a manter essa festa: nem os Evangelhos e apóstolos nos ameaçam com qualquer penalidade, punição ou maldição por sua negligência, como faz a lei de Moisés com os judeus. É somente pela precisão histórica… que está registrado nos evangelhos que nosso Salvador sofreu nos dias do pão não-fermentado. O objetivo dos apóstolos não era indicar os dias do festival, mas ensinar uma vida justa e piedosa. E a mim parece que, assim como muitos outros costumes foram estabelecidos em localidades individuais de acordo com o uso, também a festa da Páscoa começou a ser observada em cada local de acordo com as peculiaridades individuais dos povos, visto que nenhum dos apóstolos legislou sobre a questão.6
Entendeu? Um dos primeiros historiadores católicos reconheceu que a Páscoa não foi ensinada nem praticada pelos apóstolos, que, de qualquer modo, não tencionavam estabelecer “dias de festival”. Ao invés disso, os homens que estabeleceram a Páscoa “de acordo com seu próprio prazer” na verdade “amavam festivais” porque tiravam uma folga do trabalho! A Páscoa, em vez de datar da igreja em seus primeiros dias, foi apenas um costume estabelecido pelo uso local.
O Novo Testamento não fornece nenhuma indicação—zero—de que o dia da ressurreição, significativo como é, devesse ser honrado por uma celebração anual. Havia um modo que Jesus autorizou Seus seguidores a se lembrarem de Seu corpo e sangue: a refeição de pão e vinho que algumas vezes é chamada de Ceia do Senhor. Porém os primeiros cristãos não vinculavam essa memória a uma data do calendário. Afinal, Jesus havia dito para comer e beber a Ceia como memória Dele “sempre que o fizerem” (1 Coríntios 11:25). Para os primeiros cristãos, essa refeição poderia (e iria) ocorrer em qualquer dia da semana e em qualquer dia do ano (Atos 2:42, 46).
Para um modo de vida, a celebração livre e contínua da morte e ressurreição de Jesus, incorporado na Última Ceia, é perfeita. Porém, para uma religião, uma data fica no calendário é preferível. Assim, à medida que as gerações passaram e o cristianismo começou a se reinventar como uma religião, um “dia especial” acabou entrando no calendário. E assim que a data foi definida, o “feriado” começou a se combinar com rituais pagãos pré-existentes que eram observados na mesma época do ano.
O próprio nome da Páscoa nos idiomas inglês e alemão (“Easter”) aparentemente deriva de uma “deusa” germânica chamada “Eostre”. Os símbolos pagãos de ritos esquecidos da fertilidade da primavera também foram vinculados ao festival. As crianças pequenas de todos os lugares acreditam apaixonadamente no mito de um coelho que traz ovos. Na verdade, o “Coelho da Páscoa” é muito mais reconhecido como um símbolo do feriado do que a cruz ou o túmulo vazio.
Em todos os lugares onde o feriado chegou, uma celebração obscura conhecida como Carnaval ou Mardi Gras o acompanhou. O Mardi Gras ou a “terça gorda”, é uma explosão carnal de bebedeira, deboche e folia—deliberadamente agendado no dia anterior ao período tradicional de jejum e autonegação que precede à Páscoa. Pelo próprio ato em si de definir um dia especial para a reflexão sóbria sobre a crucificação e a ressurreição, os cristãos estavam involuntariamente definido outro dia especial para a depravação e a decadência. A Páscoa criou o Mardi Gras.
Os dias especiais em geral fazem isso.
É claro que nenhuma pesquisa dos “dias especiais” do cristianismo estaria completa sem mencionar o domingo. Vimos que os cristãos dos séculos II e III se desviaram para a tradição do culto de adoração semanal, algo que é completamente ausente no registro do Novo Testamento. Também vimos que Constantino legislou no século IV para que o “venerável dia do sol” —novamente o Solis Invicti —fosse observado como um dia de descanso romano. No século XXI, as assembléias cristãs relaxaram um pouco em sua programação. Três quartos de todas as congregações evangélicas oferecem diversos “cultos de adoração” a escolher, a fim de acomodar as diferentes preferências de gênero musical ou “estilo de adoração”. Alguns cultos foram mudados para horários não-tradicionais, como as noites de sábado. Mesmo assim, o “dia do sol” de Constantino ainda governa os dias da semana religiosa. Como resultado, o cristianismo de nosso século ainda é considerado como algo que se faz em reuniões agendadas que, com esperança, o apoiarão através dos dias de sua vida “normal”. O paradigma não foi realmente alterado.
Ninguém quer ser conhecido como um “desmascarador contra o dia sagrado do domingo”. Esse não é realmente o ponto. O fundamental é reconhecer que o cristianismo, como o definimos em nossa geração, é inseparável de seus dias especiais. Esses dias não eram parte da experiência original da igreja em seus primeiros tempos. Em vez disso, esses dias especiais eram intrometidos, invasores de um ambiente pagão que foram acolhidos no cristianismo em uma tentativa falha de “cristianizá-los”. A religião, em seu núcleo, se resume totalmente a dias especiais. O cristianismo, ao contrário, se resume em Jesus, hoje e em todos os dias. Há uma diferença.
“Homens Especiais” ao Estilo do Século XXI
A cristandade do novo milênio se caracteriza não apenas por “lugares especiais” (o prédio ou a sala de estar” e “dias especiais” (feriados e dias de culto programados), mas também por “homens especiais”. A versão do século XXI do “homem especial” nos círculos evangélicos é conhecida como “pastor”.
Como vimos, os autores do Novo Testamento usavam originalmente os termos “presbytero”, “epískopo” e “poimenas” alternadamente para descrever a mesma pessoa (Atos 20:17-28). No idioma português a palavra pastor (poimenas) se refere atualmente mais para uma “pessoa especial” religioso do que o antigo significado rural de cuidar de rebanhos. Quando o Espírito Santo, falando através dos apóstolos, usava a palavra “pastor”, ela significava apenas um trabalhador rural que guarda, protege e alimenta os rebanhos no campo aberto. Não era um título religioso. Ela uma palavra figurativa, com a intenção de desenhar uma imagem mental de uma função, algo que certos Cristãos com dons, capacidade e maturidade apropriadas poderiam oferecer dentro da ecclesia local.
No século I, os “pastores” não eram contratados ou demitidos. Eles simplesmente eram pessoas normais como todas as outras de uma assembléia local, como todos os demais. Reconhecia-se que tinham o “dom do pastor” por causa do impacto que já estavam tendo na alimentação e proteção do povo de Deus. Suas qualificações, relacionadas nas escrituras, tinham todas a ver com caráter, fé e fruição (1 Timóteo 3; Tito 1). Quando a ecclesia local se reunia, os pastores não eram os palestrantes preprogramados ou mestres de cerimônias (1 Coríntios 14:26-31). Alguns podem ter ensinado, mas eles não eram os únicos mestres (Colossenses 3:16; Hebreus 5:12). Um pastor poderia receber algum tipo de suporte material (Gálatas 6:6; 1 Timóteo 5:17-18), mas seria um compartilhamento, não um salário. A cobiça jamais deveria ser sua motivação (1 Pedro 5:2). Acima de tudo, eles deviam funcionar como irmãos, não dominando os outros, mas vivendo entre eles como servos (Mateus 20:25-28, 23:8-12, 1 Pedro 5:2).
A linguagem tem sido um problema colossal para a raça humana desde Babel. Uma pequena palavra de seis letras como “pastor” se conecta a milhares de experiências diferentes armazenadas na memória de quem a escuta. Se você mostrar, por exemplo, Efésios 4:11 a um Cristão do século I, ele ou ela veria a palavra grega poimenas, pensaria imediatamente em “pastor de rebanhos” e uma fração de segundo depois associaria a palavra com diversos relacionamentos intimamente próximos na ecclesia local. Se mostrasse 1 Timóteo 3 para um Cristão do século XXI, no entanto, ele ou ela pensaria em “pastor” e associaria a palavra com o homem que prega, aconselha, casa e enterra no prédio rua abaixo. A mesma escritura, sim, porém dois conceitos vitalmente diferentes. No século I, “pastor” era um relacionamento; no século XXI, “pastor” é a “pessoa especial” da “religião” cristã.
Qual é a descrição de cargo de um pastor moderno? O que ele realmente faz? Podemos obter uma visão bastante precisa a partir de pesquisas científicas7 que formularam essas mesmas perguntas. O pastor médio informa que trabalha 46 horas por semana. A semana de trabalho pastoral se divide assim:
• Preparação para o culto semanal, incluindo o sermão: 15 horas
• Aconselhamento a pessoas com problemas ou visitas a doentes: 9 horas
• Comparecimento a "reuniões de negócios" e realização de trabalho administrativo: 7 horas
• Condução de aulas ou treinamento de pessoas para o "ministério": 6 horas
• Envolvimento em assuntos da comunidade ou associações de ministros: 3 horas
• Tarefas diversas: 6 horas
Se retirássemos dessa semana do pastor médio tudo o que não tinha relevância na ecclesia do Novo Testamento, o que sobraria? A igreja dos primeiros tempos não tinha “cultos”, como nós os conhecemos, e certamente não havia os sermões semanais associados; risque o primeiro item da lista. Eles não tinham reuniões de negócios. As pessoas certamente eram “capacitadas para servir”, porém não em aulas de treinamento. As escolas dominicais, afinal, não seriam inventadas antes de outros mil e oitocentos anos. E embora os fiéis que estivessem doentes ou aprisionados definitivamente recebessem cuidados, isso era considerado como trabalhado de todos os membros. A “congregação” não “contratava” um especialista para fazer a maior parte das atividades por eles.
E esse é o ponto principal. Não é que a função do clero profissional tenha evoluído ao longo dos anos à medida que os tempos mudaram. É que todo o conceito de “clero profissional”, como é praticado em nosso século, é estranho ao Novo Testamento!
Por favor não leia essa afirmação como um “ataque aos pastores”. Nada poderia estar mais longe da verdade que isso. Normalmente um pastor sem dúvida entra no “ministério” com a melhor das intenções. Talvez ele seja um jovem sincero e enérgico que teve a oportunidade de falar em encontros devocionais ou ministrar estudos bíblicos. Ele não era eloqüente, mas estava compartilhando com um desejo sincero de servir a Deus e encorajar os outros. As pessoas ouviram sua sinceridade e sentiram o calor de sua fé, então foram encorajadas. Logo alguém—talvez o pastor—sugeriu que ele poderia querer “entrar no ministério”. Essa idéia soou maravilhosa ao jovem. Ele queria fazer a diferença e amava a Deus; que carreira melhor poderia haver do que ser um “trabalhador em tempo integral”? Então ele foi para a faculdade teológica ou seminário e talvez para um estudo mais graduado após isso. Talvez ele tenha se casado com alguém que conheceu na escola e que parecia compartilhar seus ideais e sonhos. Durante os longos anos de sua educação e treinamento, eles trabalharam e se sacrificaram; 60% dos pastores evangélicos dos Estados Unidos têm um mestrado ou outro título superior. Depois de um bom tempo eles foram “chamados” para seu primeiro “pastorado” e foram trabalhar, com grandes sonhos de “fazer grandes coisas pelo Senhor”.
Em média para um pastor evangélico nos Estados Unidos, esse chamado ocorreu há 20 anos, 9 meses e 26 dias atrás. Isso significa que ele acumulou cerca de mil “semanas de trabalho pastoral” de sermões, reuniões de negócios, sessões de aconselhamento, visitas a hospitais, casamentos, funerais e “dias de trabalho”. Precisamos desesperadamente perguntar: tem sido bom para ele? Tem sido bom para as famílias nos bancos das igrejas? A divisão clero-leigo da cristandade moderna é sequer saudável, sem dizer bíblico?
Vamos considerar por um momento uma das implicações de haver um clero profissional. Os profissionais, por definição, recebem um salário. Em média um pastor tem levado para casa um salário por mais de 20 anos, mas provavelmente ele ainda sente uma pressão considerável em suas finanças pessoais. Nas denominações evangélicas do mundo inteiro, o pagamento de um pastor é diretamente proporcional ao tamanho de sua congregação. Temos os dados exatos8 dos Estados Unidos. A renda anual doméstica média de congregações evangélicas em 2002 era de 41.000 dólares, virtualmente idêntica à média dos EUA.9 E os pastores? A maioria (63%) eram empregados por congregações com menos de 100 membros. Em média, esse clero recebia apenas 22.300 dólares—um valor que faz com que a família do pastor tenha uma das menores rendas domésticas de toda a congregação. As congregações com 101-350 membros, responsáveis por 32% da amostra, pagavam a seus pastores um salário médio de 41.051 dólares, colocando-os diretamente no meio da classe média. Um pastor em cada vinte pastores tinha a sorte de trabalhar para uma congregação de 351-1000 membros e vivia com muito mais conforto, trazendo para casa 59.315 dólares. E um pastor em cada 200 trabalhava em uma grande congregação com mais de 1000 membros ganhava muito bem, tendo um salário de 85.518 dólares—que, com o ajuste da inflação, seria equivalente a uma renda de seis dígitos em 2008.
Esse cenário é saudável para os envolvidos? Ou atrai charlatões e expõe seres humanos bem-intencionados porém falíveis a tentações que ninguém deveria ter que enfrentar?
Uma dessas tentações, por exemplo: Se o pastor de uma congregação de 1000 membros consegue ganhar um salário de seis dígitos, o que ganhará o pastor de uma congregação com 10.000 membros? À medida que o século XX se aproximava do final, uma nova raça de clérigos—parte empreendedores, parte pregadores—começou a aplicar os princípios aprendidos no “movimento para o crescimento das igrejas”, com montes de energia e muito entendimento de marketing. Esses “empreen-pastores” se dedicaram a criar a experiência de igreja “amigável ao usuário”. As instalações religiosas deixaram de lado o vidro pintado, os bancos e campanários e assumem a aparência de shopping centers elegantes com um paisagismo impecavelmente cuidado e confortáveis assentos ao estilo dos estádios. As mensagens se tornaram mais otimistas, com uma temática decididamente de auto-ajuda. Apresentações caprichadas de músicos profissionais tocando melodias de soft-rock se tornaram a norma. Alguns cultos tinham quadros de “aquecimento” com comediantes ou outros artistas para que a audiência relaxasse. E as “mega-igrejas” em evolução acrescentaram novos privilégios aos membros. Formaram-se grupos de interesse para cada hobby que se possa imaginar. As assembléias acrescentaram escolas, bancos, creches, farmácias, cafeterias, financiadoras imobiliárias, centros de aconselhamento e similares em um esforço para atrair ainda mais membros. Extravagâncias multimídia, com iluminação e som profissional e coros com centenas de membros se tornaram lugar-comum.
A compensação de muitos (certamente não de todos) esses “empreen-pastores” agora é bastante semelhante a do CEO de uma empresa com 10.000 funcionários. Adicione uma renda da venda de livros e de palestras e alguns poucos pastores seletos de mega-igrejas se tornaram mega-ricos. Um artigo de 2003 da publicação St. Louis Post-Dispatch descrevia os estilos de vida de diversos clérigos prósperos. Um dirigia um Rolls Royce preto e viajava em um jato de 5 milhões de dólares; outro morava em uma casa de 3,5 milhões de dólares; um outro era proprietário de duas mansões; e outro ainda tinha um iate de 50 pés; e um “time de ministério” formado por marido e mulher tinha um jato, um Cadillac Escalade e uma Mercedes-Benz sedã. Um artigo de 2006 do jornal New York Times informava sobre um negócio de livros no valor de 13 milhões de dólares feito por outro “empreen-pastor”.
Nosso pastor comum, no entanto—o sujeito que tem dado duro em sua semana de trabalho de 46 horas durante os últimos 20,8 anos—não tem que lidar com o dilema moral de comprar ou não aquele iate. Afinal, a freqüência média semanal de sua congregação é de apenas 61 pessoas. Metade desses membros diz que paga o dízimo, mas não há muito sobrando depois que os empréstimos e as contas de luz e água são pagos. O pastor normal e sua congregação comum estão na lista das espécies ameaçadas de extinção. A lista de “membresia da igreja” na América não está crescendo. Na verdade, é o que os economistas chamam de “jogo de soma zero”. Para cada vencedor que constrói uma mega-igreja com milhares de membros, há dezenas de “pastores normais” que perdem membros e se encontram cada vez mais perto do penhasco. Quais as tentações que eles enfrentam?
Uma delas, é claro, é a ansiedade. Quantos pastores deixariam “o ministério” caso seu diploma teológico e CV permitissem alguma esperança realista de conseguir um emprego “secular” seguro e com pagamento decente?
Uma tentação menos óbvia, talvez, é a precaução e o comprometimento. Apenas relativamente poucos pastores (29,5%) dizem que gostam de desafiar os “líderes leigos” com novas idéias e programas. A maioria (70,5%) admite que “em geral, preferem manter as coisas funcionando bem, com a introdução gradual de mudanças”. E quando chega o momento de tomar decisões sobre qual deve ser o foco da congregação, não são muitos (26,9%) os que afirmam que discutem o “raciocínio teológico” de como Deus se sente sobre o assunto. A grande maioria (73,1%) reconhece que “primeiro levam em consideração o quanto atende as necessidades dos membros ou dos membros potenciais”.10 Com a falência pessoal e da congregação batendo à porta, a principal consideração se torna manter os membros atuais felizes e tentar recrutar alguns novos membros. Será que é provável que um sistema como esse resulte em homens com vozes corajosas e proféticas que arriscarão tudo para levar a igreja em uma direção radicalmente nova (ou radicalmente antiga)?
A separação de cristãos em “clero” e “leigo” tem outro efeito indesejado, porém desastroso: a perda do relacionamento genuíno. Um pastor ao estilo do século I, que funcionava como um “irmão entre irmãos” não tinha opção a não ser liderar a partir do relacionamento pessoal, envolvendo-se profundamente nas vidas dos demais e demonstrando as lições que estava tentando ensinar. Um pastor ao estilo do século XXI deve tentar funcionar a partir de uma posição acima do “leigo”. Ele tem um título, um escritório e um papel designado de especialista em assuntos religiosos. Ele tenta cumprir suas funções principalmente por meio de encontros—o culto de adoração, a reunião de negócios, a aula, a sessão de aconselhamento—ao invés de interações diretas na vida diária normal.
É por isso que a maioria dos pastores é bastante solitária. Uma pesquisa11 recente abriu uma perspectiva reveladora em três afirmações simples. Basicamente todos os pastores—98% dos pesquisados—se considerava uma pessoa com o dom de ensinar. Não menos que 80% deles se consideravam “fazedores eficazes de discípulos”. Ainda assim uma maioria significativa dos pastores—mais do que seis em cada dez—admitia que “tinha poucos amigos próximos ou até nenhum”. Claramente a maior parte dos pastores acredita que a transferência de informação é a questão essencial em ensinar e conseguir discípulos. Sua própria função, no entanto, os isola dos demais e evita a transferência eficaz da vida.
Essa desconexão entre “pastor” e “membro” tem graves conseqüências espirituais.
Em uma pesquisa científica realizada em 2006, uma amostra nacional (EUA) representativa de pastores protestantes pediu a eles que avaliassem a saúde espiritual de suas congregações. Os pastores, na média, afirmaram que 70% de seus membros tinham a fé como a principal prioridade de suas vidas. Um pastor em cada seis foi mais além, dizendo que 90% de seus membros tinham seu relacionamento com Deus como a maior prioridade. No entanto, quando os membros, “as pessoas nos bancos da igreja”, tiveram que responder a mesma pergunta, nem um quarto confirmou isso! A grande maioria dos membros das assembléias protestantes foi suficientemente honesta em colocar a fé atrás da carreira, da família ou da busca da felicidade em sua lista de prioridades.
Pense nisso—após centenas, se não milhares, de sermões, seminários, “revivamentos”, oficinas e lições das escolas dominicais, uma quantidade relativamente pequena daqueles que ouviam repetidamente a importância de tornar Deus sua maior prioridade afirmaram estar vivendo segundo os ensinamentos que receberam. Mas os mestres continuam em frente, culto após culto, aula após aula, alheios ao fato de que o impacto da inundação de palavras está sendo pequeno.
Deus falou:
Essa é a aliança que farei com a comunidade de Israel depois daqueles dias, declara o Senhor. Porei a minha lei no íntimo deles e a escreverei nos seus corações. Serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Ninguém mais ensinará ao seu próximo nem ao seu irmão, dizendo: “Conheça ao Senhor, porque todos eles Me conhecerão, desde o menor até o maior. (Hebreus 8:11-12)
Se homens estão ensinando ao seu próximo e aos seus irmãos continuamente para conhecerem o Senhor, porém esses que estão sendo ensinados ainda não O conhecem e nem se entregaram ao alvo de conhecer Ele como sua prioridade máxima, então essa informação seria muito importante saber. Essa situação é não menos que uma violação da nova aliança! Ainda assim, aqueles que sem dúvida teriam mais necessidade de saber a verdade sobre a condição espiritual de seu “rebanho” são, talvez, os menos conscientes disso.
Por que há esse desligamento? Quando foi pedido aos pastores participantes da pesquisa que relacionassem alguns padrões específicos que usavam para avaliar a saúde espiritual de seus membros, a maioria disse que olhavam para o percentual de membros que se voluntariavam para algum “programa” ou “ministério” da igreja. Quase metade mencionou também algum tipo de “experiência de conversão” e o comparecimento regular aos cultos como critérios importantes. Nenhuma outra medição foi usada por uma fração significativa dos pastores.
A organização que realizou a pesquisa apresentou as seguintes percepções:
A linha unificadora traçada pelas respostas dos pastores a uma pergunta aberta da pesquisa relacionada a como a saúde congregacional é avaliada foi a de que a maioria das medições comuns não avaliam muito além da participação superficial das pessoas na igreja ou em atividades relacionadas à fé… Talvez a informação mais ilustrativa se relacione às medições que não são usadas amplamente pelos pastores para avaliar a saúde espiritual das pessoas. Menos de um em cada dez pastores mencionou indicadores como a maturidade da fé de uma pessoa em Deus, a intensidade do compromisso de amar e servir a Deus e às pessoas, a natureza do ministério pessoal de cada pessoa que congregava, a amplitude do envolvimento congregacional no serviço comunitário, a extensão com que os Cristãos têm alguma forma de responsabilidade por seu desenvolvimento espiritual e estilo de vida, a maneira com que os Cristãos usam seus recursos para ampliar o reino de Deus, a freqüência com que as pessoas adoram Deus durante a semana ou sentem como se tivessem experimentado a presença de Deus, ou como a fé está integrada à experiência familiar daqueles ligados à igreja… Nunca antes a sociedade americana teve uma necessidade tão grande de que a igreja cristã forneça um caminho para um futuro melhor. Dado volume dos desafios morais e a grande fome espiritual que define nossa cultura atualmente, este deveria ser o auge do ministério bíblico. Do modo como as coisas estão hoje, ficamos contentes em apaziguar os pecadores e enchendo auditórios como indicações da saúde espiritual.12
E assim vemos a triste ironia do sistema clero-leigo no novo milênio. As pessoas que mais querem fazer uma diferença na igreja estão isoladas das pessoas que estão tentando ajudar. Elas estão colocadas nessa posição para atingir o objetivo por meio da transferência de informações em um sistema baseado em reuniões e são penalizadas quando ousam se arriscar. E verdade é sempre arriscada.
Um Milhão de Tragédias
Dois milênios se passaram desde que os discípulos desfrutaram de três anos de intimidade “aqui e agora” com Jesus e desde que toda uma geração de fiéis, “do menor ao maior”, descobriu essa mesma intimidade na ecclesia. Uma religião radicalmente diferente evoluiu a partir desse começo. Como outras religiões do mundo, esse “cristianismo” se baseia em observâncias religiosas conduzidas em “lugares sagrados”, em “dias sagrados” e sob a orientação de “homens sagrados”. Com certeza há variações culturais, mas raramente ele se afasta desse paradigma tradicional.
É absolutamente crítico que façamos a nós mesmos a seguinte pergunta: Como está indo esse cristianismo do século XXI? Qual é seu fruto nas vidas de seus membros? Devemos simplesmente aceitar o fato de que o cristianismo “é o que é” e concordarmos todos em trabalhar dentro do sistema como “homens da igreja” ao invés de reformadores? Ou a perda foi tão grande e os frutos tão insuficientes que devemos nos alarmar? O adesivo com temática política que afirma “Se você não está indignado é porque não está prestando atenção” também se aplica ao cristianismo? Ou esse discurso é apenas “negativismo”?
Talvez devamos começar pelos jornais. Poderíamos pegar qualquer ano, na verdade, mas vamos escolher um período de doze meses entre 2005-2006. Descobriremos que três matérias sobre “membros da igreja” respeitáveis chocaram os Estados Unidos, gerando manchetes de primeira página de costa a costa.
Primeiro, um assassino em série que aterrorizou uma cidade e desafiou a polícia durante três décadas foi finalmente preso. O depravado assassino se declarou culpado no julgamento e depois descreveu com calma cada assassinato com detalhes medonhos. As perversões chocantes desse torturador-assassino são muito vis para serem descritas aqui. Mas a perversão era alimentada por um vício incontrolável por pornografia violenta. Na vida desvirtuada desse matador, a fantasia de tempos em tempos escapava para o mundo real.
A identidade do assassino? O fato que atraía as manchetes era: na ocasião em que foi preso, ele atuava como presidente de sua congregação. Ele foi pego porque enviou um disquete a um jornal local, gabando-se de seus crimes e zombando dos oficiais da lei por sua inabilidade em pará-lo. O disquete foi rastreado até um computador no escritório da igreja.
Os membros de sua assembléia ficaram absolutamente espantados após sua apreensão. “Fiquei pasmo, aturdido, chocado”, seu pastor afirmou. “Não é possível. Não o homem que eu conheço.” Um membro recordou como o assassino havia trazido molho de espaguete e salada para um “jantar da igreja” apenas alguns dias antes. Outro membro disse que ele era “um homem muito gentil”, lembrando da preocupação dele após uma operação de rim dela. Um garoto de cinco anos de idade, quando viu a foto do homem na televisão, virou para seu pai, que tinha servido como porteiro junto com o assassino, e perguntou “Ele nos enganou, não é?” O pai contou a um repórter: “Não sei o que dizer a ele. Não sei nem o que dizer a mim mesmo”. Um oficial da hierarquia da denominação pregou um sermão no domingo seguinte e disse: “Sentimos tristeza angustiosa, raiva, devastação, choque e dúvidas. A própria fundação de nossa fé está abalada”.
Após sua prisão, o assassino escreveu o que seu pastor chamou de uma carta “bastante genérica e imprudente” à congregação, agradecendo-os por seu apoio e pedindo-lhes suas orações. Eles colocaram a carta em um quadro de avisos no hall de entrada e a incluíram nos anúncios da manhã.
O assassino em série atualmente cumpre 10 sentenças consecutivas de prisão perpétua em uma penitenciária federal.
Apenas três meses depois do final do julgamento, outra história trágica atraiu as manchetes da nação. Um garoto de dezoito anos acusado de matar os pais de sua namorada de quatorze anos e fugir com ela por metade do país foi preso. Ambos vinham de famílias que praticavam a “educação em casa” cristã. Na verdade, os dois adolescentes fujões haviam se conhecido na primavera anterior em um evento de “educação em casa”. A garota de quatorze anos tinha uma página na internet onde falava sobre a participação em grupos de orações e de seu interesse em futebol e no cuidado de crianças. No momento do assassinato de seus pais, ela vestia uma camiseta que anunciava uma “banda de rock cristão”. O garoto de dezoito anos também tinha uma página na Internet na qual citava letras de uma “banda cristã” e discutia seu gosto por computadores, vôlei e caça.
É claro que as matérias da imprensa estavam cheias de depoimentos de amigos incrédulos. Uma colega afirmou sobre a menina: “Eu tinha a impressão de que ela era muito inteligente e ela era como uma amiga surpreendente. É muito cristã e eu jamais pensei que algo assim aconteceria”. Ela também chamou os pais falecidos de “as pessoas mais gentis que já conheci”. O pastor da família descreveu-os como pessoas boas que lidavam com os “típicos” problemas da adolescência. Um vizinho acrescentou: “Ela parecia ser uma garota americana típica, apenas uma doce criança da vizinhança”.
Os documentos do tribunal, no entanto, mostraram um cenário dramaticamente diferente. Os adolescentes “namoravam” há meio ano e estavam “envolvidos em relações íntimas contínuas e secretas”.
Além disso, eles “com freqüência se comunicavam por mensagens instantâneas e mensagens de texto pela Internet”. Sua comunicação incluía “mensagens de flerte” e também “imagens inapropriadas dos dois em diversos meios eletrônicos” como computadores e celulares.
Após sua prisão, o jovem confessou às autoridades os assassinatos. No ano seguinte, ele aceitou um acordo para evitar um julgamento com especificações de pena de morte. Foi sentenciado a duas penas de prisão perpétua.
Mais alguns meses se passaram e outra tragédia virou uma notícia de primeira página. Um pregador jovem e popular não compareceu nos cultos de sua congregação na metade da semana. Alguns poucos membros preocupados foram até sua casa e encontraram seu corpo. Havia um ferimento a bala em suas costas. No dia seguinte, a polícia de um estado vizinho encontrou a esposa e os três filhos do pastor, quando recém chegavam a um restaurante na caminhonete da família. A esposa, disse o policial, confessou o assassinato de seu marido. Ela havia atirado nele e depois fugido com as crianças, deixando-o morrer deitado em sua residência. Após a prisão, a esposa pediu a uma amiga da congregação que transmitisse aos membros suas desculpas pelo que tinha feito.
A congregação estava previsivelmente chocada. Eles cobriram um quadro de avisos no corredor com fotos da família sorridente. “Não há palavras que descrevam como nos sentimos sobre isso”, disse um membro, chamando a assassina acusada de “mãe perfeita, esposa perfeita”. O membro acrescentou: “As crianças eram preciosas, e ela era preciosa. Ele era um dos melhores ministros que já tivemos—super-carismático”.
Outro membro concordou. O ministro morto “tinha uma preocupação muito verdadeira em relação a salvar as almas das pessoas e inspirá-las a repensar seus hábitos”, contou ao jornal. “Era um excelente pregador, muito animado e encorajador. Você se sentia bem depois de seus sermões… Eles eram um bom casal—feliz”, afirmou.
O julgamento mostrou um cenário perturbador da vida doméstica deles. A esposa estava enredada em um esquema nigeriano fraudulento para recebimento de cheques que tentava esconder de seu marido. O marido foi retratado como crítico, autoritário e humilhador. A esposa foi condenada por homicídio voluntário, um veredicto comum em casos de abuso marital, e sentenciada a apenas dois meses na prisão, além do tempo que já havia cumprido desde sua apreensão.
Os membros da congregação recordaram o último sermão que seu ministro pregou, apenas três dias antes de sua morte. O assunto era “A família cristã”.
Todos concordarão que essas histórias são pungentes. Mas será que são pertinentes à nossa discussão? São evidências de que há algo fundamentalmente errado com o paradigma dominante na igreja cristã de nossos dias? Ou são apenas aberrações em um ambiente basicamente saudável? É justo mencioná-las aqui? Afinal, os cristãos há muito tempo sustentam que não têm uma porção justa na imprensa nacional.
Mas e se essas histórias forem pertinentes? E se forem apenas uma pequena ponta, ainda que altamente visível, de um enorme iceberg escondido de pecado, descrença e falta moral—o que Jesus chamaria de “fermento”? Não mencionamos essas tragédias para sermos negativos ou mesmo para julgar os envolvidos. Nós as mencionamos porque acreditamos muito sinceramente que desastres similares podem ser evitados. As soluções estão disponíveis. Mas não as procuraremos a menos que primeiro estejamos dispostos a dar uma olhada honesta e resoluta em nossa situação atual.
Considere “líder leigo” cujo vício na perversão violenta o levou a cometer crimes inomináveis. Certamente ele era uma aberração, um em uma centena de milhões. Não era? A resposta, infelizmente, é não. Embora os crimes que ele cometeu sejam incomuns a ponto de nos chocarem, os vícios pecaminosos que levaram aos crimes são muito, muito comuns.
Uma pesquisa13 recente perguntou a uma amostra representativa de americanos se eles viram voluntariamente imagens de pornografia explícita durante os sete dias anteriores. Entre os “não freqüentadores de igreja”, um em cada cinco admitiu ter visto. E entre os membros de igrejas? A mesma porção—um em cinco.
As estatísticas podem ser frias; podem parecer números em uma página. Então, por favor, permita que as implicações desse número se revelem. Da próxima vez que estiver em um culto religioso, olhe ao seu redor. Se a sua assembléia foi típica, um em cada cinco rostos que você vê terá visto pornografia pelo menos uma vez desde o culto da última semana. Entre as mulheres, a quantidade provavelmente é menor. Entre os homens, pode muito bem ser consideravelmente maior. Multiplique o que você vê por duas centenas de milhares de outras assembléias que se reúnem em todo o país. E pergunte a si mesmo: Qual é o custo, em termos de perda do poder e testemunho espiritual em nosso mundo? Qual é o custo, em termos da dor causada ao coração do Pai?
Tragicamente, o clero da nação não está isento dessa praga espiritual. Um evangelista de reputação internacional estimou que o percentual de pastores que participam de seus seminários e são viciados em pornografia também é de um em cinco14
E o que dizer de adolescentes imorais, cujo pecado custa a vida de uma mãe e um pai? De novo, o crime, felizmente, é bem raro. Mas precisamos olhar além do crime e descobrir suas causas principais. Os pais da garota não morreram simplesmente dos tiros em suas cabeças. Eles morreram de um coquetel letal de venenos, incluindo, no mínimo: permissão para que adolescentes saiam em grupos ou pares sozinhos, sem supervisão e sem responsabilidade real; uso sem supervisão e abuso da Internet e da comunicação eletrônica; permissão para relacionamentos românticos entre jovens uma década antes de estarem realisticamente prontos para o casamento; criação de um ambiente no qual crianças disciplinam outras crianças; desunião e independência de todos, sem que nenhuma rede de segurança de relacionamentos diários se preocupe, faça perguntas, advirta, encoraje ou repreenda, trazendo a Palavra de Deus para estar de modo prático nas vidas; e confusão entre “escolhas de estilos de vida” externos de música e educação e escolhas internas de obediência e discipulado genuíno.
A difícil questão que devemos querer perguntar a nós mesmos neste momento é: quantos adolescentes, criados na igreja, têm vidas que podem ser caracterizadas por essa mesma lista?
Precisamos admitir que a maioria dos adolescentes da maioria das igrejas estão em um profundo problema espiritual. As estatísticas sobre esse ponto podem ser enganosas. Há uma probabilidade muito maior dos adolescentes participarem das atividades “baseadas na igreja” do que seus pais. Em toda a nação, seis em cada dez adolescentes freqüenta os cultos todas as semanas e um em cada três está envolvido em um grupo de jovens. Mas se você perguntar a esses adolescentes se planejam participar da igreja local depois de se tornarem independentes, apenas um em três têm intenção de permanecer envolvido. A maioria dos adolescentes que freqüentam as igrejas dizem que estão esperando apenas até saírem de casa para também saírem da igreja.15 E se verificarmos as taxas de freqüência entre os estudantes universitários e jovens adultos, as estatísticas mostram que a maioria desses adolescentes seguirá seus planos. Em seu encontro anual de 2002, o Southern Baptist Council on Family Life relatou que 88% dos filhos criados em lares evangélicos saíam da igreja com 18 anos ou em torno dessa idade. Por pelo menos duas gerações temos ouvido o clichê sobre filhos criados na igreja que freqüentam uma universidade secular e se afastam. Os filhos estão nos dizendo que entendemos tudo errado. Sem dúvida há muitos desafios à fé nas faculdades, bem como no local de trabalho. Mas na maioria do tempo, a idade de 18 anos é apenas o momento em que os filhos param de freqüentar. Tragicamente, já fazem anos que elas sucumbem às tentações da mundanidade e da descrença que destroem a fé e roubam o futuro.
Finalmente, o que dizer sobre a esposa do pastor acusada de abreviar a curta vida de seu marido com um revolver? Certamente o crime doméstico é uma anomalia trágica, não a norma nas congregações religiosas.
Concordamos que uma quantidade muito pequena de casamentos termina em homicídio, seja entre clérigos ou leigos ou pagãos. Porém milhões de casamentos terminam em um tribunal. Nos Estados Unidos, um quinto de todos os primeiros casamentos terminam em divórcio durante os primeiros cinco anos, e um terço termina durante os primeiros dez anos. Nada menos que 43% terminam em divórcio ou separação durante os primeiros quinze anos. Qualquer um que tenha experimentado um divórcio em sua família mais próxima ou testemunhado-o na vida de um amigo próximo pode testemunhar sobre a dor. O ferimento é excruciante no momento que ocorre e crônico durante os anos posteriores. Mesmo quando o divórcio parece inevitável, significa sofrimento para todos os envolvidos.
No entanto, aqui está outra tragédia: a taxa de divórcios daqueles que se consideram cristãos renascidos é idêntica à daqueles que percebem que jamais nasceram de novo.16 Espere um momento para absorver a importância desse fato. Vá a qualquer grande concentração de pessoas—por exemplo, um jogo de futebol. Coloque em um lado do estádio todos os que “assumiram um compromisso pessoal com Jesus Cristo que ainda é importante em suas vidas hoje”, que dizem que vão para o céu quando morrerem porque confessaram seus pecados e receberam Cristo como Salvador. Do outro lado do estádio, coloque todos os “cristãos nominais”, aqueles que estão incertos de suas crenças, que fazem parte de grupos heréticos marginais, todos os budistas e muçulmanos, todos os agnósticos e ateus. Depois, peça àqueles que se divorciaram que levantem as mãos.
O percentual de mãos levantadas será exatamente o mesmo em ambos os lados do estádio.
Mais uma vez, não estamos tentando ser críticos ou julgar nenhum indivíduo. Estamos apenas dizendo que os casamentos estão com problemas tanto dentro quanto fora da igreja. Essas estatísticas são verdadeiras, apesar de todos os sermões, seminários matrimoniais, organizações pararreligiosas pró-família, livros, fitas e aulas. Na maioria das assembléias de cada expressão denominacional ou não-denominacional do cristianismo nos Estados Unidos, um grande percentual dos casamentos e lares está com muitos, muitos problemas.
Não Precisa Ser Assim!
Vamos repetir: não estamos tentando criticar ou julgar. Estamos convencidos de que muitos cristãos praticantes, se não a maioria, envolvidos em pecados que entorpecem a alma e roubam o futuro desejariam se livrar deles. Gostaríamos de segurar essas pessoas firmemente pelos ombros, olhar em seus olhos e dizer que não precisa ser assim. Elas podem mudar. A igreja pode mudar.
Vivemos em um tempo onde nosso inimigo, satanás, fez incursões desastrosas em nossas comunidades, nossas assembléias, nossos lares e nossas vidas particulares. Repetimos: não precisa ser assim! Os casamentos não precisam terminar em mágoa; os filhos não precisam ser nocauteados pelo pecado e perdidos para o mundo aos milhões; o nome de Jesus não precisa ser arrastado na lama pelo escândalo e a vergonha. Os portões do inferno não prevalecerão sobre a igreja que Jesus edificará se nós O deixarmos fazer de Seu jeito. A Noiva de Cristo pode realmente se preparar para Seu retorno.
A mensagem desse escrito—e a mensagem do cristianismo como um tudo—não é negativa. Não é um não. É um sim. “Quantas forem as promessas feitas por Deus, tantas têm em Cristo o “sim” (2 Coríntios 1:20)! No entanto, jamais experimentaremos a riqueza e as bênçãos do futuro até que olhemos honestamente para o presente. Devemos avaliar o fruto daquilo que estamos fazendo atualmente. E devemos estar dispostos a colocar na mesa também nossos preconceitos e tendências, para que possam ser avaliados sob a luz da verdade de Deus.
Albert Einstein uma vez afirmou que a definição de insanidade é “fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes”. Ousemos não ser culpados de tal loucura! O que fazemos deve mudar; o que somos deve mudar. Todas as ilusões de “paz, paz onde não há paz” devem mudar primeiro. Devemos rejeitar a auto-satisfação ou complacência.
Voltemos à nossa pesquisa de pastores, mencionando uma das próprias conclusões do pesquisador:
Quando os pastores descreveram sua noção de mudança significativa de vida motivada pela fé, a ampla maioria (mais de quatro em cada cinco) se concentrou na salvação, porém ignorou questões relacionadas ao estilo de vida ou à maturidade espiritual. O fato de que o estilo de vida da maioria dos adultos que fazem parte da igreja seja essencialmente indistinguível daquele das demais pessoas não preocupa a maior parte das igrejas; as pessoas aceitarem ou não Jesus Cristo como seu salvador é o único indicador, ou o principal, da “transformação da vida”, sem importar se sua vida após tal decisão produz frutos espirituais… É um pouco problemático ver que os pastores acham que estão fazendo um excelente trabalho quando a pesquisa revela que poucos congregados têm uma visão de mundo bíblica, que metade das pessoas atendida por eles não são espiritualmente seguras ou desenvolvidas, que os filhos estão se afastando da igreja em números recordes, que a maioria das pessoas que freqüentam os cultos admitem que não se conectam com Deus, que a taxa de divórcio entre os cristãos não é diferente do que a de não-cristãos, que apenas 2% dos próprios pastores consegue identificar a visão de Deus para o ministério que estão tentando liderar e que maior parte dos congregados passam mais tempo em um só dia assistindo televisão do que em todas as atividades espirituais da semana inteira. Os pastores, sozinhos, não podem ser responsabilizados pelo abandono espiritual da América. Porém é preocupante quando há uma forte correlação entre o tamanho da igreja e a auto-satisfação, pois isso sugere que os números de freqüência e de orçamento se tornaram nosso indicador de sucesso. É preocupante quando nossos líderes espirituais não conseguem articular para onde vamos e como a igreja cumprirá seu papel como agente restaurador de nossa sociedade. Talvez o conforto proporcionado por nossos imóveis e outras posses materiais tenha nos seduzido a pensar que avançamos mais na estrada do que na realidade.17
Podemos não ter todas as respostas. Mas podemos, pelo menos, começar admitindo que precisamos delas!
Jesus disse que em Seu Reino os bons ensinamentos produzem bons frutos. Se nossos ensinamentos em geral não o fizeram, precisamos fazer algumas mudanças de rumo. Não são necessárias doutrinas “novas” ou “exóticas”. As respostas não virão de alguma revelação extra-bíblica. A mensagem central do cristianismo sempre foi e sempre deverá ser “Cristo, e Ele crucificado”. Somos obrigados a “batalhar pela fé de uma vez por todas confiada aos santos”.
Não estamos defendendo novas doutrinas; estamos defendendo um compromisso renovado de seguir as instruções e o exemplo de Jesus e Seus apóstolos, conforme o registro do Novo Testamento. Leia esse precioso documento com novos olhos. Pergunte a si mesmo: qual foi o ponto inicial do ensinamento dos apóstolos, quando eles se aproximavam daqueles que estavam recém confrontados com as afirmações de Jesus? Qual era a ênfase de seus ensinamentos quando estavam instruindo os Cristãos sobre como crescer na fé? E qual era o contexto ou ambiente de seus ensinamentos? Insistimos que você explore as escrituras apostólicas por si mesmo. Talvez estas palavras o estimulem e orientem em sua busca!
Aqui e Agora!
Imagine Outra Vez…
Imagine seu planeta. Ele ainda está decaído. Você ainda está aguardando o dia em que “se dobre todo joelho e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor”. Mas aqui e acolá, invadindo as cidades e vilas espalhadas pelo globo, há postos de vida celestial. Eles são ecclesias. Vamos tirar uma foto espiritual imaginária do planeta. Se pegarmos um momento no tempo e concentrarmos nossa visão em quatro desses postos divinos, o que poderemos ver?
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A cidade está acordando. Ao leste, o sol aparece no horizonte, banhando os contrafortes com uma aurora rósea. Ao oeste, as Montanhas Rochosas Canadenses são quase invisíveis contra o céu ainda escurecido. Os cinco homens na sala de estar não estão atentos à beleza da manhã. Em vez disso, seus corações estão vislumbrando o esplendor dos domínios celestiais. Eles estão ajoelhados juntos. Em poucos minutos, dois dos homens pegarão o trem para a cidade, para a grande fábrica de produtos químicos onde um deles trabalha como contador e o outro como técnico de pesquisa. Outro dirigirá seu carro até uma grande loja nas proximidades, onde trabalha como gerente. Os dois mais jovens estudam na universidade. Ambos só têm aula à tarde. Não precisavam se levantar tão cedo, porém eles queriam estar naquela sala. Como os outros do grupo, eles sentem a vida quando estão juntos com os irmãos e irmãs. Essa vida pode acontecer em qualquer hora e qualquer lugar, mas nessa manhã, pelo menos para esses cinco homens, ela está acontecendo naquela sala.
Esse encontro em particular foi definido de modo bastante espontâneo na noite anterior, quando um dos homens perguntou se alguns caras podiam orar com ele em relação a alguns desafios no trabalho. Quando chegaram, uma hora atrás, tomaram um rápido café da manhã e começaram a falar baixo. Um dos irmãos compartilhou uma passagem encorajadora, outro contou o que havia aprendido durante uma experiência similar em seu trabalho. Agora eles estão ajoelhados, orando primeiro pelo dia desafiador do irmão. Porém seus pedidos simples rapidamente mudam para um agradecimento sincero em forma de palavras de louvor sem o jargão religioso. Dentro do coração de cada homem, a “estrela da manhã” surgiu, tal qual o sol!
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Vamos focalizar outro posto oito fusos horários para o leste. O sol, que há pouco passou de seu pico no céu azul, envia seu calor difuso sobre a pequena cidade lá embaixo. Nesse país mediterrâneo, a metade da tarde é tempo para descansar. As lojas e negócios fecham durante algumas horas. Os funcionários vão para suas casas para a principal refeição do dia e alguns aproveitam para relaxar. Logo eles retornarão a seus escritórios e lojas e trabalharão até a noite adentro. Por enquanto, descansam. Porém os irmãos e irmãs de uma ecclesia local dessa cidade descobriram que o meio da tarde é um horário ideal para se reunir. Eles se reúnem em pequenos grupos em suas residências, compartilhando comida, encorajamento e música. Hoje, no entanto, alguns dos irmãos divulgaram que todos deveriam se encontrar em um pequeno parque perto do centro da cidade. Portanto, enquanto cinco homens estão orando em uma sala de estar no Canadá, um grupo consideravelmente maior de salvos se juntou em um parque no sul da Espanha.
As ruas estão quietas, então a reunião chama pouca atenção, exceto um olhar curioso de algum transeunte. Os cristãos estão contentes por terem um momento de relativo anonimato. Durante os últimos anos, eles forem objeto de rumores e críticas crescentes na cidade. As tradições têm muita força nessa cultura. Algumas têm literalmente milhares de anos. Assim, quando um grupo de pessoas decide viver suas vidas de forma diferente, alguns vizinhos, colegas de trabalho e familiares se sentem um pouco ameaçados. A ecclesia tem sentido recentemente o peso de uma oposição particularmente ameaçadora. É por isso que alguns irmãos decidiram que seria prudente aproveitar o intervalo do meio-dia e juntar todos para que recebam um pouco do encorajamento e visão tão necessários. Cada pessoa ou família trouxe comida para compartilhar. Alguns prepararam pão sem fermento e vinho, então o grupo passou uma boa parte de sua primeira hora recordando do sacrifício de Jesus por eles, lembrando-se uns aos outros porque eles O amam e agradecendo a Ele por amá-los antes.
Agora, alguém abre uma Bíblia e começa a ler 1 Pedro. Eles lêem sobre sua “regeneração para uma esperança viva”, por causa do “precioso sangue de Cristo”, sobre como Ele é uma “pedra viva—rejeitada pelos homens, mas acolhida por Deus e preciosa para ele”, e sobre como eles, também, são “pedras vivas na edificação de uma casa espiritual para serem sacerdócio santo”. Eles lêem sobre “sofrer por ser cristão”, “retribuir mal e insulto com bênção”, sobre “estar preparado para responder” e sobre “o Espírito da glória e o espírito de Deus que repousa sobre eles” quando são “insultados por causa do nome de Cristo”. Espíritos começam a regozijar no parque espanhol, da mesma forma que estão regozijando na sala de estar canadense!
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Nesse preciso momento, dois homens estão caminhando juntos em direção ao principal cruzamento de uma cidade africana. Eles passam pelo pequeno mercado aberto, onde montam sua venda quase todas as manhãs, vendendo ovos e algumas vezes galinhas de seu pequeno negócio de aves. Eles sorriem e acenam com a cabeça para vários de seus companheiros fiéis, e continuam andando. Eles sabem que seus irmãos e irmãs estão orando por eles. Eles agora são parceiros em algo muito mais caro a seus corações do que seu negócio. Na principal intersecção da cidade fica o único posto de gasolina, que atende qualquer veículo que passar—o caminhão ocasional, o carro do governo ou uma caminhonete de turistas. É também o local preferido de reunião dos pedintes da cidade, na esperança de que um turista lhes dê uma moeda ou um pouco de comida. Os dois homens caminhando para o posto de gasolina estão procurando um pedinte específico. Eles o viram pela primeira vez ontem. Ele era um recém-chegado—um jovem garoto, de uns oito anos, talvez, com uma grande e horrível cicatriz branca na testa. Ontem ele não disse nada—apenas fez um movimento em direção à sua boca para mostrar que estava com fome. Eles lhe deram a única comida que tinham, seus almoços do dia. Ele abriu um sorriso de gratidão para os dois e saiu correndo. À medida que o dia transcorria, os homens falavam com freqüência sobre o menino. Eles já tinham visto pedintes. Mas havia algo diferente com relação ao menino. Uma imagem que simplesmente não podia sair de suas cabeças era sua camiseta suja e rasgada, decorada com uma caricatura sarcástica do diabo e uma frase blasfema. Era provavelmente a única camisa que ele tinha usado durante meses, se não anos. Na noite anterior, os homens haviam reunido a ecclesia para pedir a Jesus sabedoria sobre o que fazer com aquele garoto. Os dons do Corpo foram evidentes nessa noite—discernimento, ajuda, generosidade, liderança, ensinamento. Alguém finalmente colocou em palavras o que todos eles pareciam estar pensando. Todos concordaram, sorriram e aplaudiram.
Portanto, hoje os dois homens estavam voltando ao posto de gasolina para achar o menino. Eles levavam um pacote de peixe e arroz, junto com uma camisa branca limpa. Eles falarão com ele hoje. E, se confirmarem que é um órfão ou uma criança abandonada, como suspeitam, eles têm algo mais a oferecer: um novo lar.
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Seis fusos horários para o leste há uma nação formada por ilhas. O sol há muito já se pôs na direção do continente asiático, mas um grupo de várias dúzias de Cristãos—velhos e jovens, homens e mulheres—estão reunidos na praia. Acima deles, o céu da noite tropical mostra uma beleza radiante, mal notada pelo grupo. Eles estão concentrados nas siluetas de um homem e uma mulher se afastando alguns metros da praia. O homem é um irmão confiável, um líder forte mas gentil, conhecido por assumir posicionamentos corajosos no bairro pobre onde a maioria da ecclesia mora. Como em muitos lugares de nosso planeta, essa nação está calçada na tradição religiosa. Essa ecclesia tem recebido sua parcela de oposição e injúria.
Uma parte do antagonismo tem vindo da mulher que agora está se afastando para dentro da água. Sua difamação deu uma parada repentinamente, entretanto. Sua irmã biológica renasceu há um ano. Para a família dela, foi como uma traição à sua herança. Quanto mais a nova cristã falava de sua fé em Jesus, mais furiosos seus pais e irmãos ficavam. A maior crítica tem sido a mulher que agora está até a cintura dentro das águas mornas do Mar Mindanao. Ela tem sido a origem de rumores maldosos, acusando os membros da ecclesia do bairro pobre de explorar e abusar de sua irmã. A calúnia tem ferido muitos. A própria nova cristã essencialmente teve que sair da casa de seus pais e agora está morando com um jovem casal da ecclesia.
Há pouco tempo, no entanto, o filho da irmã zangada ficou seriamente doente, com muita febre. A mulher e seu marido observaram-no sem esperanças durante a semana seguinte, vendo a condição de seu bebê piorar. Em desespero, a mulher procurou sua irmã cristã, pedindo orações. A jovem trouxe seis membros da ecclesia com ela, incluindo o irmão mais velho que agora está na água ao lado da mãe do bebê. Juntos, eles oraram pela criança. Na verdade, eles se ajoelharam ao redor de sua pequena cama noite adentro. Finalmente, na hora escura após a meia-noite, a febre do menino cedeu. Na manhã seguinte seu apetite retornou, junto com o brilho de seus olhos. A mulher caiu em lágrimas, beijando as mãos e os pés dos fiéis que tinham intercedido nos domínios celestiais por sua criança. Nos dias seguintes, os Cristãos tinham compartilhado as boas novas de Jesus com a família, um Jesus que está vivo, bem e acessível a Seu povo: Emanuel, “Deus conosco”.
A mulher agora estava entregando sua vida a esse Jesus. Seu marido também parecia “não estar longe do Reino”. De pé na água, ela renuncia à sua vida de egoísmo e pecado, pedindo que Jesus perdoe-a por persegui-lo. Ela O proclama como Senhor. O homem ao seu lado a “enterra” na água, depois a “levanta” para trilhar uma nova vida. A ecclesia reunida explode em cântico!
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Essa amostra da vida da ecclesia no século XXI lhe parece boa? Deveria—você nasceu para ela, se de fato “nasceu dos altos”! Sabemos que se você é como a maioria das pessoas, sua existência não se parece muito com essas imagens. Também sabemos que você não pode simplesmente estalar os dedos e mudar seu ambiente para que pareça com o que descrevemos. Mas você deseja isso?
Imagine e Peça!
Se você quer experimentar a vida “aqui e agora” com Jesus em Sua ecclesia, o lugar para começar não está no mais recente movimento ou novidade religiosa. Desculpe! Você é livre para tentar, se quiser, mas estamos aqui para lhe dizer que não funcionará. O Reino de Deus não é edificado dessa forma.
O primeiro paraíso, quando o homem e a mulher andavam e conversavam com Deus em humilde submissão e confiança, não foi produzido por um movimento religioso ou um programa de cinco passos. O homem cria programas, Deus cria o Éden. O livro Gênesis 1 é um retrato majestoso e arrebatador, pintado com pinceladas amplas e vibrantes, de um Deus que, por Sua própria deliberação decidiu criar todo um universo a partir do nada. Ele optou por plantar um Jardim em um planeta e colocar o homem e a mulher nele. Ele decidiu vir para o Jardim e caminhar com eles. Depois da queda, a humanidade tentou (uma vez) “construir uma torre até os céus”. O primeiro “programa” do homem era bastante ambicioso, mas falhou miseravelmente. Deus se certificou que isso ocorresse.
A segunda experiência do “Jardim”, quando homens e mulheres caminharam e falaram com Deus nas estradas poeirentas da Palestina, também foi um ato soberano Dele. Ninguém trouxe Cristo à terra. “Não diga em seu coração: ‘Quem subirá aos céus?’ (isto é, para fazer Cristo descer)” (Romanos 10:6). Em vez disso, Jesus, “embora sendo Deus, não considerou que ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se, mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens” (Filipenses 2:6-7). Jesus veio por Sua própria vontade. Seu amor e humildade fizeram com que Ele se tornasse companheiro do homem mais uma vez.
O terceiro “Éden”, quando as pessoas desfrutaram da intimidade com Deus outra vez dentro da ecclesia, foi, da mesma forma, Sua criação. A primeira igreja não foi produzida por zelo religioso; na verdade, a religião se opôs a ela implacavelmente. Ela surgiu quando Jesus soberanamente derramou Seu espírito sobre a humanidade. Isso não era “plantar a igreja”, com informação dos princípios de marketing do movimento de crescimento da igreja e equipada com a mais recente tecnologia para igrejas. O que chamamos de Pentecostes aconteceu quando um homem “sem educação comum” se apresentou para explicar que ele e seus amigos não tinham um problema com a bebida—e alguns minutos depois, três mil pessoas prometeram que seguiriam um réu executado. A igreja nasceu pelo poder do Espírito Santo. Nenhum programa, embora bem intencionado, chegou a ser mais do que uma imitação barata do poder soberano de Deus.
“Edificarei a minha igreja”, Jesus declarou. Ele já edificou antes. Ele pode edificar novamente.
Afinal, a igreja foi idéia de Deus! “A intenção dessa graça era que agora, mediante a igreja, a multiforme sabedoria de Deus se tornasse conhecida dos poderes e autoridades nas regiões celestiais, de acordo com o seu eterno plano que realizou em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Efésios 3:10-11).
A surpreendente intenção de Deus é demonstrar Sua sabedoria através de seres humanos redimidos, unidos pelo relacionamento íntimo de uns com os outros e com Ele. A sabedoria de Deus é múltiforma. É uma jóia com incontáveis facetas. De alguma maneira, de algum modo, a rede de relacionamentos da ecclesia deve demonstrar cada faceta da jóia. Os “poderes e autoridades nas regiões celestiais” estão bem acostumados com o triste espetáculo de uma humanidade que é “insensata e desobediente, enganada e escravizada por toda espécie de paixões e prazeres”, vivendo “na maldade e na inveja, sendo detestáveis e odiando uns aos outros” (Tito 3:3). Mas quando os poderes e autoridades vêem um exemplo de humanidade redimida unida por laços de amor, devoção e humildade, eles notam e se maravilham com a sabedoria de Deus que pôde conceber e realizar tal milagre.
E, portanto, é certo imaginar a ecclesia de Deus, como fizemos. O mais certo ainda é pedir a Ele que concretize Sua intenção em sua cidade e ao redor do globo. “Aquele que é capaz de fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos, de acordo com o seu poder que atua em nós, a ele seja a glória na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre! Amém!” (Efésios 3:20-21).
A intenção de Deus é edificar a igreja. Ele convida você a imaginar e pedir a Ele para concretizar Seu propósito no planeta Terra, incluindo a nação e a cidade na qual você vive. Seu plano é fazer imensuravelmente mais do que você é capaz de pedir, não por meio da “bênção” a algum movimento ou programa de alguma forma externo, mas trabalhando dentro de Seu povo.
Então imagine… e peça!
O Reino de Deus Está Dentro de Você
Quando Adão e Eva caíram, houve um dano grave ao universo material. Ele foi amaldiçoado com tormentos, dor e morte. Mas o maior dano de todos ocorreu dentro dos seres humanos. Eles queriam independência de Deus, e conseguiram. Seus corações, que antes estavam cheios de confiança, amor e submissão, agora transbordavam de orgulho, medo e alienação. Se quisermos voltar à vida no Éden e caminhar com Deus, antes teremos que desfazer esse dano interno.
A ecclesia é um reino interno:
Certa vez, tendo sido interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, Jesus respondeu: “O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está entre vocês”. (Lucas 17:20-21)
Na ecclesia, a maldição é revertida. É um domínio em que o homem só entre quando renuncia à sua independência de Deus e reconhece sua profunda, profunda necessidade Dele. Ao invés de compartimentalizar suas vidas em “sagrada” e “secular”, eles colocam a vida toda sob Sua autoridade e bênção. Ao invés de tentar em vão encontrar Deus em um templo feito de pedra, eles se encontram com Ele em uma morada feita de vidas humanas submissas. Na ecclesia, homens e mulheres “desfazem” a decisão horrível que Adão e Eva tomaram no Jardim do Éden e que foi tomada verdadeiramente por cada um de nós em nossas vidas. Na ecclesia, as pessoas voltam à encruzilhada da estrada, mas dessa vez elas escolhem o trajeto menos trilhado.
Houve um tempo em que as pessoas não “tornaram religiosas” repetindo uma oração metodicamente ou concordando mentalmente com um conjunto de princípios. A “conversão” era vista como a troca de reinos. Era renunciar a um conjunto de lealdades e abraçar outro. Era ser “enterrado com Cristo” em Sua morte e “levantado para viver uma nova vida” em Sua ressurreição. Significava ser uma pessoa diferente, uma nova criação.
Essa foi a sua experiência? Você se angustiou quando soube que Deus fez “este Jesus, a quem você crucificou, Senhor e Cristo”? Você rejeitou o antigo modo de estar no controle de seu próprio tempo, dinheiro, relacionamentos e prioridades? Você colocou todas essas coisas sob o controle de Jesus? Você entrou em um relacionamento de confiança amorosa com Ele, de modo que quando você o desaponta, a primeira coisa que quer fazer é correr de volta a Ele e perder sua vida novamente Nele?
Se essa não tem sido a sua vida, pode ser agora!
Esse é o único modo pelo qual você pode “caminhar com Deus no frescor do dia”. A experiência que Adão e Eva desfrutaram com seu Criador no Éden, ou que Pedro e Tiago e João e Maria Madalena desfrutaram com Jesus na Galiléia, ou que milhares de homens e mulheres redimidos experimentaram com Jesus e entre si nos primeiros tempos da igreja pode ser a sua. Mas ela somente pode acontecer se você rejeitar pessoalmente o caminho da independência—rejeitar até mesmo a auto-suficiência religiosa —e voltar ao estado de coração para o qual foi criado.
Qualquer “igreja” que não é caracterizada em cada membro ter Jesus governando seu coração como Rei não é a ecclesia sobre a qual lemos no Novo Testamento. Na análise final, não importa de você tem o estilo de vida mais informal, amigável e menos tradicional de qualquer assembléia religiosa da terra. Se o Reino de Deus não está dentro de você, o que você tem não é o Reino de Deus.
Então comece por aí. Imagine a ecclesia. Peça a Deus por ela. E posicione-se para ser uma parte dela, submetendo seu próprio coração ao domínio Dele. Depois, chame outros para que façam o mesmo!
Sementes do Reino
O “Reino de Deus está dentro” dos corações das pessoas que verdadeiramente O receberam lá como Rei. Tomara que você seja uma dessas pessoas. E tomara que você perceba que precisa do Espírito que foi depositado também em outros corações. É a rede interligada de relacionamentos que constitui o “lugar sagrado” onde você pode caminhar com Deus.
Imagine um lindo mosaico retratando Jesus. É uma obra-prima, capturando a coragem, a ternura, a humildade, a nobreza, a autoridade e o amor em Seu rosto. Cada pastilha individual têm, em si só, muito pouco do retrato. Cada pastilha dá a sua contribuição, mas elas precisam umas das outras e precisam ser unidas pela mão de um mestre para criar a figura.
Esse mosaico é a igreja. Como Paulo escreveu, “Somos [plural] criação de Deus”—literalmente, Sua obra-prima —”criado em Cristo Jesus” (Efésios 2:10). Se você renasceu, você é um dessas pastilhas. O Cristo está em você, sua “esperança de glória”. Mas a imagem de Cristo que você pode representar isolado é muito limitada. O Espírito Santo depositou um dom, algum aspecto de Jesus, exclusivamente em você. Porém, para que a imagem completa surja, você precisa ser colocado lado-a-lado com outras “pastilhas”. É a única maneira de você e elas conseguirem experimentar a presença de Deus de modo pleno e completo ou demonstrar Sua presença perante um mundo descrente.
Jesus nos ordenou: “Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (João 13:34-35). Quando Jesus veio à terra, Ele rejeitou a tentação de demonstrar Sua grandeza ao mundo descrente através de alguma proeza impressionante em público, como se lançar do telhado do Templo. Ele conhecia a vontade de Seu Pai. Ele entendeu que a intenção de Deus era demonstrar Sua sabedoria múltipla “agora, mediante a igreja”. Jesus alinhou Seu coração plenamente com o de Seu Pai. Ele investiu Suas energias, não em provar Si mesmo por meio de apresentações impressionantes de poder milagrosa, mas edificando uma igreja—uma rede de relacionamentos amorosos.
O amor do qual Jesus falava—a ágape do Novo Testamento grego—não era algum sentimento frívolo ou uma emoção fugaz. Era uma devoção e dedicação prática e dinâmica para buscar o bem de outra pessoa, apesar de qualquer sentimento ou emoção contrária! Jesus demonstrou essa vida todos os dias nos quarenta meses com Seus discípulos. Ele os alimentou, ensinou, repreendeu, perdoou e lavou seus pés. Ele abriu Sua vida totalmente a eles. Negou o Seu próprio conforto, privacidade e preferências apenas para estar com eles. Deixou de lado Suas próprias necessidades legítimas para atender às necessidades deles. E então, depois de três anos e meio demonstrando essa ágape, Jesus os chamou para viver desse modo entre eles. Somente então a sabedoria de Deus pôde se manifestar “agora, mediante a igreja”.
Essa é sua missão, se você decidir aceitá-la: deixar sua vida de lado pelos outros, como Jesus fez.
É claro que muitas pessoas genuinamente renascidas se acham na posição daquela pastilha da qual falamos, cujas cores são vibrantes e verdadeiras, mas que não está unida lado-a-lado com outras pastilhas de forma significativa. Pode ser que haja outras pastilhas ao seu redor, mas é difícil ter certeza de quem são. Não se pode dizer ao certo do que outra pessoa é feita apenas olhando para a parte de trás de sua cabeça no banco da igreja em frente a você uma ou duas vezes por semana, ou observando—a levantar as mãos e balançar com uma canção de louvor, ou mesmo escutando seu comentário perspicaz na sala de estar da “igreja em casa”. O que você pode fazer?
Você precisa começar em algum lugar. E se ainda não “começou”, o que está esperando? Como Jesus, você precisa negar a si mesmo e abrir sua vida amplamente, abrindo espaço nela para os outros. Você terá que ignorar todos os instintos de sua carne e começar a descompartimentalizar sua vida! Não é que você tenha que “se comprometer mais” e dedicar muitas horas de sua “vida na igreja” às custas de sua “vida em família” ou “vida devocional” ou “vida no trabalho”. Você deve começar a combinar seus mundos em uma única vida!
Na prática, você deve começar a rearranjar suas prioridades e hábitos de modo que outras pessoas possam se encaixar. Há um modo de ter contato direto com os irmãos e irmãs durante a vida diária? Você consegue pegar carona ou almoçar com outros cristãos durante o dia? Você pode fazer compras ou ir ao banco ou fazer outras tarefas com outro discípulo dessa vez? Você pode ir à escolinha de futebol—dente de leite onde seu amigo é treinador e o filho dele joga? Você pode pelo menos se voluntariar para ajudar? Você pode inscrever seus filhos na mesma liga de futebol onde o filho de um irmão joga, mesmo se isso significar alguns minutos extras no trajeto de carro? Você está disposto a fazer essas e milhares de outras “pequenas” coisas para começar a descompartimentalizar sua vida e começar a combinar seu mundo com o de outra pessoa? E à medida que vai abrindo sua vida, você abrirá também seu coração? Você será vulnerável e confessará seus pecados, pedindo orações, como a Bíblia diz? Você arriscará, fazendo perguntas atenciosas sobre preocupações genuínas que você tem sobre as vidas de seus irmãos e irmãs? E você arranjará tempo para ajudá-los?
É claro, pode-se continuar sem dizer que “são necessários dois” ou mais para essa “dança”. Uma triste herança da história do cristianismo é que quase todos afirmam que são cristãos.
A despeito das evidências gritantes em contrário, todos os países do mundo ocidental pensam em si mesmos como uma “nação cristã”. Pesquisas científicas realizadas pelos grupos Gallup e Barna em anos recentes suportam esses fatos. Quase nove em cada dez americanos (88%) dizem que se sentem “aceitos por Deus”. Quase todos (84%) afirmam que são cristãos. Uma grande maioria dos americanos (72%) afirma que “se comprometeu pessoalmente com Jesus Cristo e isso é importante em sua vida atual”. A maioria dos adultos americanos (62%) acham que não são apenas religiosos, mas também “profundamente espirituais”. Eles acham que a religião é “muito importante” em suas próprias vidas pessoais e dizem que “acreditam que a religião pode responder a todos ou à maioria dos problemas de hoje”. Dois terços dizem que pertencem a uma assembléia religiosa de algum tipo. Pelo menos metade freqüenta cultos quase toda semana. Metade de todos os americanos diz que “renasceram ou tiveram uma experiência de renascimento”—ou seja, um “ponto de virada em suas vidas no qual se comprometeram com Jesus Cristo”.
A triste verdade é que essas pessoas, em sua maioria, estão enganadas. Não estamos julgando, apenas afirmando o óbvio. Pense: mais do que um quarto de bilhão de americanos pensam que são cristãos e que estão bem com Deus. Mas segundo o Próprio Jesus, eles simplesmente não podem estar certos. Na verdade, a maioria deles deve estar errada. Se “larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela”, é inconcebível que apenas uma pequena fração de uma das nações mais populosas da terra esteja no caminho amplo. E se “é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e são poucos os que a encontram”, a maioria das centenas de milhões que acreditam que estão nesse caminho apertado estão tragicamente enganados.
Por isso, não se sinta desencorajado se muitas pessoas que você convidar para sua vida disserem: “Não, obrigado”. E não desista se aqueles que a princípio parecem entusiasmados mais tarde se afastarem, quando vier a dificuldade, ou se outros não puderem realmente arranjar tempo entre suas obsessões pessoais com as riquezas, preocupações e prazeres da vida. Jesus disse que um monte de pessoas seria assim (Lucas 8:1-15). Então, quando encontrar gente assim—e você encontrará—você terá que ter a coragem e o discernimento de seguir adiante. Talvez as coisas mudem no futuro; você adorará se elas mudarem. Porém, por enquanto, você precisa espalhar as sementes do Reino o máximo que puder entre as pessoas de seu ambiente.
Você não pode controlar as escolhas feitas por outros, mas pode controlar as suas. E você pode começar a pleitear junto a Deus a emergência da ecclesia Dele e posicionar a sua vida para que seja uma parte, eliminado a compartimentalização e convidando outros para que participem.
Elevando Nossa Visão
Pelo resto de seus dias, você pode se devotar à elevar a visão das pessoas ao seu redor. Sua visão do que é chamada “a vida cristã” ou “a igreja” não precisa ser limitada pelo que você viu ou experimentou pessoalmente. A faísca de fé em seu próprio coração não precisa—na verdade, não deve—ser extinta pela visão inferior de outra pessoa deste ou de qualquer outro século. Sua visão não deve nem mesmo ser limitada pelo que a igreja do século I experimentou. Considere a fé deles em e sua experiência de Jesus e depois almeje algo mais elevado—e não aceite menos—do que eles viveram.
A palavra de Deus define o padrão. Faça da escalada à vida lá descrita o seu objetivo. Defina a meta nesse nível e recuse-se a diminuí-la. Não deixe que suas falhas, inabilidades, resultados deficientes ou questões o convençam a deixar de acreditar em Deus. “Seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso.”
A palavra Dele descreve uma igreja onde Seus dons “preparam os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo” (Efésios 4:12-13). É isso mesmo—o texto diz “a medida da plenitude de Cristo”! Há todo um universo de potencialidades nessa frase. Porém ela precisa se tornar realidade no planeta Terra. E a palavra de Deus diz que isso é possível!
Jesus falou de uma igreja que supera a perseguição, a traição, o ódio e a decepção. Ela “persevera até o fim” e até mesmo “leva o evangelho do Reino como testemunho a todas as nações” antes que o fim chegue (Mateus 24:4-14). Ele disse que edificaria uma igreja que poderia vencer as portas do inferno (Mateus 16:18). O fato de você ou eu ter visto tal igreja não muda o que Jesus disse. O único Filho de Deus gerado jamais estava errado!
O último livro da Bíblia prevê um casamento entre o Cordeiro e Sua noiva, a igreja:
Aleluia, pois reina o Senhor, o nosso Deus, o Todo-Poderoso. Regozijemo-nos! Vamos alegrar-nos e dar-lhe glória! Pois chegou a hora do casamento do Cordeiro, e a sua noiva já se aprontou. Para vestir-se, foi-lhe dado linho fino, brilhante e puro. (O linho fino significa os atos justos dos santos.) (Apocalipse 19:6-8)
Essa igreja está vindo. Você pode não ser capaz de marcá-la em seu calendário, porém pode marcá-la em seu coração. Você é o tipo de pessoas que “espera o dia de Deus e apressa a sua vinda?” Então você também é alguém que pode viver uma vida “santa e piedosa” enquanto se prepara (2 Pedro 3:11-12). Você pode confiar em Deus e pedir a Ele diligentemente para aprontar Sua igreja para esse dia. Você pode entregar totalmente seu coração, vontade e vida a Ele, acolhendo-O para reinar como Senhor em cada momento. Você pode se aproximar e aprender a amar os outros. E você pode alimentar em seu coração—e nos corações de todos ao seu redor que escutarem—a visão do que Deus quer realizar neste planeta, “agora, mediante a igreja”.
Em termos práticos, você pode compartilhar essas e outras passagens com aqueles ao seu redor e chamá-los para que se comprometam a ver as palavras se tornarem realidade. Você pode compartilhar com cuidado livros selecionados ou ensinamentos gravados que também formarão uma visão para uma caminhada genuína com Jesus na igreja.18 E você pode, atentamente, com sabedoria e diligência, explorar os relacionamentos com irmãos e irmãs de outras cidades ou nações que compartilham de sua visão para experimentarem Jesus na ecclesia.
Se pudermos oferecer-lhe um conselho que não foi pedido: afaste-se de qualquer um que queira que você se torne membro de algo ou que “negocie a Palavra de Deus por lucro”. Não se dá para algo só por imitação dos outros ou para alguém que encoraje você a abandonar suas responsabilidades de ajudar as pessoas que você já conhece no lugar onde você já vive. E tomara que não seja preciso dizer que se você navega nas salas de bate-papo e listas de mensagens em busca de “companheirismo cristão”, você está “procurando o amor em todos os lugares errados”. Ainda assim, você precisa de relacionamentos com pessoas que o ajudarão a manter sua própria visão elevada, como você, por sua vez, ajuda outros. Então, estenda a mão!
Em Busca de uma Cidade Melhor
As ecclesias do século I nasceram pelo sofrimento. Paulo escreveu algo memorável aos colossenses: “Me alegro em meus sofrimentos por vocês, e completo no meu corpo o que resta das aflições de Cristo, em favor do seu corpo, que é a igreja” (Colossenses 1:24). Um pouco antes de morrer, Jesus declarou: “Está consumado!”. Seus sofrimentos e a morte na cruz foram esmagadoramente mais do que suficiente para pagar o preço de todos os nossos pecados. Para garantir nossa salvação, nunca mais será necessário outro sacrifício. No entanto, para estabelecer e edificar a igreja, ainda é necessária muita dor. Jesus ainda sofre pela igreja, porém agora Ele sofre nos corpos de homens e mulheres cujos corações são Sua morada.
Querido leitor, isso quer dizer você. Jesus edificará Sua ecclesia. Mas se você deseja “servir ao propósito de Deus em sua geração”, há um preço que terá que pagar pessoalmente.
Parte desse preço é a perseguição. Paulo disse a Timóteo: “Todos que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Timóteo 3:12). Você não precisa se tornar um apóstolo e viajar para uma terra estrangeira para experimentar a perseguição. Tudo o que tem que fazer é desejar viver piedosamente e certamente experimentará molestamento e maus tratos.
A perseguição acontecerá com você e, quando ocorrer, não fará sentido. Parecerá injusta. Será impossível compreender como alguém pode acreditar nas calúnias, rumores e fofocas sobre você, quanto mais iniciá-los. Você se pegará insone à noite, olhando para o teto de seu quarto, implorando a Deus que mostre o que você fez para merecer essa dor e clamando a Deus por força para seguir adiante.
Nada do que se possa escrever em um livro melhorará o que se sente quando ocorrer. Apenas se prepare, da melhor forma que puder; acontecerá. E corra para os braços de Jesus quando ocorrer. Seja humilde o suficiente para aprender com seus erros, mas não fique incapacitado por eles. Corrija o que precisa de correção em sua vida, porém rejeite a tentação de se culpar por tudo. A oposição não significa que você falhou; pode muito bem significar que você está fazendo algo certo. No mínimo pode significar que você deseja sinceramente viver piedosamente em Cristo Jesus—e isso não é tão mal, é?
Quando a perseguição ocorrer, procure nas escrituras instruções de como lidar com ela. (Jesus, Pedro e João deram muitos conselhos bons sobre o assunto!) Mergulhe nos Salmos de Davi; eles serão mais vívidos para você do que nunca. Ore. Lembre-se que seus inimigos não são de carne e sangue; são as forças espirituais do mal nos domínios celestiais. Não lute contra carne e sangue. Lute contra as forças espirituais do mal; acerte-as onde dói, abraçando a fé, a esperança e o amor em seu coração e continuando a sacrificar seu tempo, paixão, energia e vida pela ecclesia. É isso, afinal, o que o inimigo está tentando interromper.
Escreva essa frase em seu coração como uma preparação para esse dia: “Por isso mesmo, aqueles que sofrem de acordo com a vontade de Deus devem confiar sua vida ao seu fiel Criador e praticar o bem” (1 Pedro 4:19). Na análise final, essa é a única resposta que vale a pena.
É claro que a maior parte de sua participação “nas aflições de Cristo, em favor de Seu corpo, que é a igreja” não assumirá a forma da perseguição. Quando Paulo relacionou os “sofrimentos, privações e tristezas” que o acometeram como um servo de Cristo, ele mencionou “açoites, prisões e tumultos”. Mas isso não é tudo! Ele rapidamente acrescentou que “trabalhos árduos, noites sem dormir” à lista e concluiu que estava “entristecido, mas sempre alegre; pobre, mas enriquecendo muitos outros; nada tendo, mas possuindo tudo” (2 Coríntios 6:3-10). A maior parte do sofrimento que você experimentará para o bem da ecclesia será desse tipo.
Esteja você semeando para o futuro ou experimentando a ecclesia na realidade atual, muito do seu sofrimento se resumirá a decisões essenciais de autonegação. Você desistirá daquela noite tranqüila pela qual anseia pelo bem de alguém que está magoado e precisa de encorajamento e ajuda? Você jejuará por outros? Você ficará acordado até tarde ou se levantará mais cedo para orar por eles? Você terá a coragem de procurar os outros quando estiver preocupado com suas vidas? Você terá a humildade de escutar os outros quando eles estiverem preocupados com a sua vida? Você compartilhará recursos financeiros para ajudar irmãos e irmãs que estão sobrecarregados? Você negará a si mesmo suas preferências—comidas favoritas, diversão preferida, sala de estar arrumada—para abrir espaço em sua vida onde os outros se encaixem? Uma vida edificada a partir de pequenas decisões como essas jamais lhe dará um lugar de destaque nas futuras edições do “Livro dos Mártires”, mas o qualificará para um lugar na igreja que Jesus está edificando.
Seus motivos serão testados! Se você deseja relacionamentos por si só, toda a experiência no final será amarga para você. O “estilo de vida cristã alternativo” que você sonha estará fora de seu alcance. Se você é espiritualmente ambicioso, desejando estar no “movimento do final dos tempos de vanguarda de Deus” e entrar na história como “tendo feito grandes coisas para Deus”, você fracassará—e provavelmente assumirá seu lugar entre os perseguidores da ecclesia. Mas se você simplesmente desejar pegar a sua cruz diária e seguir Jesus, como pode falhar? Esse tipo de vida não é uma questão de “sucesso” ou “fracasso”; é uma questão de confiança, obediência e resiliência. Se quiser tirar vantagem disso, poderá falhar (e tomara que falhe). Mas se você está simplesmente tentando obedecer aos dois mandamentos mais importantes—amar a Deus com todas as coisas que tem e amar os outros desesperadamente e com auto-sacrifício—nenhuma pessoa ou coisa na terra poderá impedi-lo.
Seja qual for a função que Deus tem para você, ela exigirá perseverança de sua parte. Você terá que se manter na obediência a Ele, mesmo quando parecer que não está “funcionando”. Como o autor do livro dos Hebreus afirmou, você deve continuar tendo a “certeza daquilo que espera e a prova das coisas que não vê”. Você deve imitar os exemplos de fé dos que vieram antes de você:
Todos esses viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-no de longe e de longe o saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Os que assim falam mostram que estão buscando uma pátria. Se estivessem pensando naquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, e lhes preparou uma cidade. (Hebreus 11:13-16)
Portanto, persevere! Recuse-se a se vender. Recuse-se a ser coagido, envergonhado, subornado ou amedrontado para que se cale. Continue pressionando para avançar. Continue procurando uma cidade melhor!
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“Portanto, meus amados irmãos, mantenham-se firmes, e que nada os abale. Sejam sempre dedicados à obra do Senhor, pois vocês sabem que, no Senhor, o trabalho de vocês não será inútil” (1 Coríntios 15:58).
“Não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos” (Gálatas 6:9).
Amém. Venha, Senhor Jesus!
Bibliografia
Nota: o autor é responsável pelos pontos de vista expressos em “Aqui e Agora!”. As fontes a seguir forneceram apenas informações factuais. Advertimos o leitor de que muitas das fontes relacionadas abaixo foram escritas por eruditos não-cristãos e podem conter passagens com palavras ou imagens ofensivas.
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Colaboradores da Barna Update, Barna Updates, http://www.barna.org [Por favor observe que The Barna Group tem políticas rígidas que controlam o uso de suas estatísticas em publicações com fins lucrativos. A publicação Aqui, Agora! jamais deve ser vendida em troca de valor algum; conforme indicação no texto de direitos autorais, ela sempre deverá ser distribuída sem custo.]
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1 Observe que não estamos defendendo o modelo do “aprendizado”. Certamente esses primeiros fiéis reconheceram que apenas as pessoas verdadeiramente salvas deveriam ser consideradas como membros da igreja, uma prioridade que parece visivelmente ausente da maioria dos círculos cristãos de nossa era. Certamente podemos apreciar a preocupação muito bíblica desses primeiros cristãos quanto à separação do mundo (veja, por exemplo, 2 Coríntios 6:14-18) sem imitar sua implementação bastante legal e regimentada de tal preocupação. Pelo menos eles se importavam. E nós?2 É uma verdadeira ironia da história que algumas poucas gerações após Constantino, quando os imperadores de Roma abandonaram o título pontifex (“pontífice”) das religiões pagãs, os “bispos” de Roma tenham começado a usá-lo! O termo ainda é usado hoje por uma entidade religiosa para o chefe de sua hierarquia de liderança.3 Jones, D. E., S. Doty, C. Grammich, J. E. Horsch, R. Houseal, M. Lynn, J. P. Marcum, K. M. Sanchagrin, e R. H. Taylor. Religious Congregations and Membership in the United States 2000: An Enumeration by Region, State and County Based on Data Reported by 149 Religious Bodies, Glenmary Research Center, 20024 Barna Update, 19 de junho de 20065 Barna Update, 8 de janeiro de 20076 Sócrates de Constantinopla, Historica Ecclesiastica7 McMillan, B. R. “What do clergy do all week?” Relatório de Pesquisa da Pulpit & Pew. Durham: Duke Divinity School, 20028 McMillan, B. R. e M. J. Price. How Much Should We Pay Our Pastor: A Fresh Look at Clergy Salaries in the 21st Century. Relatório de Pesquisa da Pulpit & Pew. Durham: Duke Divinity School, 2003.9 DeNavas-Walt, C., R. W. Cleveland, e B. H. Webster, Jr. Income in the United States: 2002. U.S. Census Bureau, setembro de 2003.10 Carroll, J. W. How Do Pastors Practice Leadership? Relatório de Pesquisa da Pulpit & Pew. Durham: Duke Divinity School, 200211 Barna Update, 10 de julho de 200612 The Barna Update, 10 de janeiro de 200613 Barna Update, 22 de outubro de 200214 David Wilkerson newsletter, 200615 Barna update, 2 de janeiro de 200016 Barna Update, 8 de setembro de 200417 Barna Update, 17 de dezembro de 200218 Este livro, por exemplo, sempre será distribuído gratuitamente. Você pode copiá-lo, sem alterações, para dar a outros. Junto com diversos recursos similares, este livro continuará disponível nos formatos eletrônico e físico a partir do endereço www.HeavenReigns.com (a versão em português se encontra no site www.AosSeusPes.com.br), enquanto Deus proporcionar os recursos. Não há custo nenhum para você, nem serão solicitadas ou aceitas doações. Esses materiais são uma oferta nossa para você e para Jesus.19/12/2007


